A edição deste ano, do doclisboa, foi uma (enorme) caixa de (óptimas) surpresas.

O maior festival de cinema documental, em Portugal, apresentou uma programação extremamente diversificada, procurando não só apresentar as melhores produções documentais deste ano, como também procurou fazer com que os espectadores reflectissem sobre inúmeras questões – sociais, políticas, estéticas, entre outras – e que tivessem a oportunidade de observar, no geral, as diferentes qualidades do cinema do presente e do passado, na nossa constante indagação e na nossa constante procura pelas ferramentas para a construção do futuro.

As opções eram múltiplas, as opções para o delineamento do caminho de cada um eram múltiplas, dependendo das preferências e curiosidades de cada um.

Este foi o meu caminho, como poderia ter sido outro ou de outro.

Estas são algumas das lições que o doclisboa me providenciou, enquanto espectadora de cinema, mas, acima de tudo, enquanto cidadã deste mundo presente.

Lição #2: O cinema (ainda) tem poder para mudar o mundo

O cinema é uma arma, o cinema é um escudo: uma fonte de força e de poder imediato, com uma capacidade de perpetuação (quase) infinita.

O documentário é uma – de inúmeras – ferramentas que possuímos para informar, denunciar, reportar, atacar, defender. De uma forma (mais ou menos) linear, de uma forma (mais ou menos) experimental, de uma forma (mais ou menos) directa, o documentário é um documento do mundo para o mundo: uma prova das diversas verdades, mentiras, injustiças e maravilhas do mundo.

“Extrajudicial Killing in Broad Daylight, Hebron, March 2016”

Uma das sessões onde o poder do cinema ressaltou de forma bruta(l) consistiu na apresentação de vídeos amadores de cidadãos palestianos, seleccionados e editados pelo B’TSELEM. Uma programação merecedora de um enorme louvor pela sua pertinência histórico-social, mas acima de tudo pelo toque de consciencialização imagetica de uma realidade que, ainda que (eternamente) apresentada nos noticiários, se torna cada vez mais distante. Vídeos que nos mostram de uma forma directa o tipo de atrocidades que podem ser realizadas a indivíduos que são abordados e lidados enquanto “algo”, enquanto não-humanos. O sangue está longe, mas sentimos o seu cheiro. A intimidação está no ecrã, mas sentimo-la na pele. Ouvem-se suspiros, gemidos, choros breves mas intensos pela sala. A pressão, os jogos, as injustiças são nos apresentadas de forma crua, amadora, mas também de uma forma cinematográficamente significativa: uma provocação de explosão de emoções, onde a realidade nos toca a um ponto em que só pretendemos fugir, mas à qual sabemos que não poderemos ignorar e evitar.

A presença da câmara permite-nos visualizar esta realidade, mas, mais do que tal papel de divulgação e de atribuição de uma imagem a algo que é contado (mas raramente visto), a câmara serve, em muitos destes casos, enquanto um elemento destabilizador, que permite uma protecção de quem se vê despido da sua humanidade. A câmara é o escudo, é a arma. E a vida do cinema pode (e deve) ser esta: uma forma de salvação de quem sofre, de quem desconhece, de quem sente, de quem não quer mas tem de olhar. Desta forma, o cinema poderá mudar, a pouco e pouco, o nosso mundo (e o daqueles que estão distantes, mas sempre tão perto graças a ele).

“Smile and the world will smile back”

Próximas lições:
Lição #3: Alerta! Temos de preparar o futuro!
Lição #4: Curiosidades ou como é que um festival de cinema nos pode fazer gostar de futebol

Lições Publicadas:
Lição #1: O passado é belo e deve ser recordado (e celebrado)