O Cinema Sétima Arte publica agora uma entrevista que gentilmente nos foi concedida pela realizadora Cláudia Varejão, tendo um enfoque principal no seu seu último filme “Amor Fati”. Passámos pelos afetos dos quais o seu filme é composto e falámos ainda sobre o contraste entre essa realidade afetiva que é representada e os tempos que agora vivemos.

Cinema Sétima Arte: Começando por falar sobre o seu último filme, Amor Fati”, pode falar-nos um pouco sobre a escolha do título do filme? 

Cláudia Varejão: Num sentido mais filosófico, a expressão latina amor fati remete-nos para um estado de alma ancorado mais no presente do que no passado ou no futuro. É sobre a integração dos acontecimentos da vida, mais felizes ou mais trágicos, como algo maior e encadeado em cada instante. É sobre o entendimento de destino (fati) como um horizonte aberto e sempre ao nosso alcance.

Mas é um título que se vai desfeando à medida que o filme avança. Do sentido mais macro, entendemo-lo em delicadezas mais micro. A sua definição mais nietzchiana, de aceitação do destino, ajuda-nos a entender o percurso narrativo das personagens que acompanhamos no filme: é uma constelação de vidas únicas e singulares que, na montagem por mim escolhida, acabam por cruzar sentimentos, gestos, sonhos e até dores. O conteúdo de cada cena vai juntando as peças do puzzle, à semelhança da vida.

Mas a ideia mais forte por detrás de “Amor Fati” talvez esteja no nosso próprio olhar, enquanto espectador, pois creio que só poderemos receber um filme destes se soubermos abrir mão da expectativa por uma satisfação imediata. Este é um filme feito de tempo, de acasos, de imprevisibilidades, de perdas e de ganhos espontâneos. É sobre o mistério da vida.

C7A: No seu filme está muito presente a ideia de afeto, de par, de ser com, de existir junto de… Como seria filmar Amor Fati” agora, neste contexto de distanciamento que vivemos?

CV: Arrisco dizer que agora, mais do que nunca, assisto diariamente a uma demonstração de afeto muito vincada entre as pessoas. O distanciamento físico neste período de confinamento não é, de todo, sinónimo de distanciamento afetivo (nem social, como diariamente vemos referido). E, nesse sentido, acredito que este filme poderia ser feito neste contexto, pois os laços afetivos entre as pessoas estão muito à flor da pele. O que seria diferente seria, possivelmente, o meu próprio olhar, que em vez de circular livremente entre as vidas das pessoas sem preocupação de definir a priori o sentido de cada plano, estaria mais formatada em representar a importância dos afetos. Não consigo imaginar como seria, mas sinto que este meu filme é mais pertinente agora do que antes da pandemia. Curiosamente – ou fatalmente – quis o destino que o filme só se apresentasse ao mundo neste período. É um mistério.

C7A: Acha que esta falta de afetos que vivemos poderá fazer com que vejamos o seu filme de forma diferente, que nos leve a reviver nele o afeto que agora nos falta? Acha que se poderá tornar mais visível, no seu filme, neste momento, uma certa essência afetiva do cinema?

CV: A privação do contacto físico que vivemos neste momento, diante do toque entre personagens a que assistimos no filme, pode despertar interessantes reflexões sobre uma ideia de passado, de presente e de futuro. Pode também ajudar-nos a pensar sobre como desejamos viver a partir daqui. Talvez o filme nos permita observar, sentir e escolher o que desejamos manter nas nossas vidas. Creio que uma relação mais íntima entre os corpos, que está diversamente representada no filme, é algo que, transversalmente, queremos voltar a viver.

C7A: Amor Fati” teve a sua estreia mundial numa edição online do Visions du Réel, devido à pandemia. Que impacto teve no filme? Sente que pode ter prejudicado a divulgação do filme?

A seleção do filme para a competição internacional do Visions du Réel já tinha sido anunciada antes da pandemia. Quando a direção do festival se viu obrigada a mudar a edição para online, eu e a Terratreme sentimo-nos, desde logo, solidários nessa difícil decisão. O festival foi notável na velocidade e qualidade com que moldou toda uma ideia de programação e de partilha do cinema para uma janela virtual que, bem sabemos, não se aproxima da experiência de um filme em sala. A toda a equipa do Visions du Réel saúdo o rigor profissional e amor aos filmes. Senti-me muito cuidada e protegida.

Pessoalmente, não posso negar que foi exigente a muitos níveis, desde logo, aceitar que o filme fosse visto num computador, o que é, julgo que para qualquer realizador, uma facada no coração. Depois, foi muito frustrante não estabelecer relação ao vivo com o público, que nestes festivais é sempre muito marcante, ainda mais sendo uma estreia onde as primeiras reações nos permitem descobrir, um pouco mais, o nosso filme. E apesar de eu fazer parte daquela reduzida percentagem de realizadores que não aprecia viajar com os seus filmes, senti, com esta privação, muita falta dos encontros com os meus pares, desde os outros realizadores, produtores, programadores e todo um setor que se encontra nestes momentos para partilhar olhares e pensamentos.

Mas devo dizer que, no meio de tantas alterações em tão pouco tempo, senti um interesse mais expresso no filme, desde críticos, programadores, estudantes de cinema ou mesmo pessoas anónimas que, por estarem confinadas às suas casas, tinham mais disponibilidade para acompanhar a programação do festival. Recebi muitos emails e mensagens, o que me fez sentir que o impacto da estreia não teria sido desvirtuado. De qualquer das formas, esta foi uma situação excecional que nos permitiu explorar as plataformas de streaming, adaptarmos o nosso conhecimento a essas ferramentas, perceber que os filmes não param, de forma alguma, de chegar ao público, mas que eu não desejo repetir para a estreia de um filme, nem desejo que se torne norma no nosso setor. Foi uma exceção, num período de exceção para sentimentos de exceção.

C7A: Que análise faz do efeito que esta pandemia está a ter na indústria cinematográfica nacional?

CV: Nós não temos industria de cinema em Portugal. Por isso, não temos também forma de movimentar receitas próprias que possam amparar os mais fragilizados com a paragem de todo o sector. Há um Ministério da Cultura (note-se, com uma secretaria de estado criada para, supostamente, comunicar diretamente com o nosso setor) mas que se mostrou altamente inábil e desprovido de conhecimento do meio durante toda a pandemia. É confrangedor.

Nos momentos de crise, aquilo que já funcionava mal, fica ainda mais exposto. É o caso de mais um Ministério da Cultura sem pulso, sem pensamento crítico, sem medidas de ação e, acima de tudo, sem capacidade para lutar para reunir condições para proteger o seu setor. E enganam-se aqueles que acusam os trabalhadores do setor cultural de terem como hobby alvejar as sucessivas tutelas. Enquanto a dignidade humana no interior do setor cultural estiver ameaçada, devemos sempre erguer a nossa voz. Não há tempo, nem tolerância, para propostas de entretenimento político. Este é um setor que promove a dignidade e a diversidade da vida, que se dedica a pensar, a traduzir as emoções, a produzir caminhos, a cuidar da nossa memória, da nossa existência e do que cá fica quando todos deixarmos de existir. Não temos mais tempo para políticas que não entendem a vitalidade que nos traz a cultura.

Até ao momento, não foi aceite pelo Ministério da Cultura uma única medida proposta pelo setor do cinema. As marcas desta paragem vão expressar-se nos próximos meses e adivinho tempos difíceis para todos.

C7A: Em tempos de pandemia, o percurso de Amor Fati” pode passar por plataformas de streaming, ou ainda poderá ter espaço no circuito de festivais?

CV: O “Amor Fati” redesenhou o seu percurso de forma a apresentar-se primeiramente em sala, seja em festivais como nos próprios cinemas. O percurso vai ser mais lento do que é habitual, mas acredito, e para isso trabalharemos, que chegaremos às pessoas de forma presencial nos próximos tempos. Para já, o streaming, enquanto primeiro passo de distribuição, está fora de questão.

C7A: Está a trabalhar em algum projeto novo que possa partilhar connosco?

CV: Tenho a sorte de ter escrito dois filmes que já estão financiados e em pré-produção. Um deles é uma longa-metragem de ficção, “Lobo e Cão”, que será rodada na ilha de São Miguel e é um retrato quotidiano de um grupo de adolescentes. E uma curta-metragem documental, que se chama “Kora”, e que tem como ponto de partida as fotografias que transportamos nas nossas carteiras. Estarei a trabalhar nestes dois filmes nos próximos anos, ambos produzidos pela Terratreme Filmes, que me faz sentir mais acompanhada ao longo destes caminhos, já em si tão solitários.

Texto convertido para a ortografia do acordo ortográfico de 1990.