No meio de um território inóspito, os cabelos ruivos de Vittoria dançam ao vento, incendiando-nos a tela. “Figlia Mia” (2018), o drama que teve estreia nacional no Festival Olhares do Mediterrâneo, passa-se na Sardenha, mas pouco vemos das paisagens paradisíacas que normalmente surgem nos postais dessa região italiana, e que fazem os nossos sonhos de turistas. Em vez disso, a realizadora Laura Bispuri decidiu mostrar-nos uma outra Sardenha; uma Sardenha de rochas, montanhas e falésias, de pescadores humildes e casas batidas a cimento. Não ficamos a perder. Há um grande cuidado com a fotografia que leva a que, mesmo estando perante paisagens menos óbvias (ou talvez até por isso!) sustenhamos o fôlego constantemente.

É, portanto, no meio de terras inóspitas que surgem os cabelos ruivos da menina de dez anos. É difícil não nos apaixonarmos por eles, assim como o é para as outras duas personagens principais de “Figlia Mia”, que se vão disputar por eles: Tina, a mulher que criou e viu crescer Vittoria, e Angelica, aquela que a carregou no ventre e a trouxe ao mundo, ambas procurando reclamar o seu papel de mãe.

Se Tina se apresenta como uma figura exemplar, facto que se reflecte na sua maneira de vestir cuidada e nas atenções que dedica a Vittoria, sempre maternal e protectora, Angelica é uma espécie de Pipi das Meias Altas: sempre desgrenhada, vive entre galinhas, tartarugas e cavalos, e as regras sociais parecem ter-lhe passado ao lado. No entanto, é esta postura irreverente que vai seduzir Vittoria, que está a entrar na fase da pré-adolescência e de emancipação através da rebeldia e da rejeição das figuras parentais.

Angelica apresenta-se-lhe como uma personagem desafiadora. Nunca tendo sido mãe, fala com Vittoria como a um adulto e trata-a como um igual, e apesar de isso empurrar a criança para o perigo, traz-lhe também uma liberdade contagiante. Trava-se, assim, uma luta de forças entre estas três mulheres, em que cada uma tenta levar a sua avante, escolhendo e impondo o papel que pretende representar na vida das restantes.

Através da originalidade da narrativa e de um humor muito cândido, “Figlia Mia” levanta, portanto, uma série de questões que não poderiam ser mais pertinentes numa época em que o conceito de família se tem alargado, tendo deixado há muito de se cingir ao tradicional núcleo “pai-mãe”. Afinal, o que faz de alguém família? E que palavra têm nisso os filhos? Sem parecer querer dar uma resposta certa, Laura Bispuri desconstrói aquilo que deveriam ser os laços de afeto, lembrando-nos que, tal como as paisagens hostis que escolhe mostrar-nos, no que toca aos sentimentos, nunca há respostas simples.

Realização: Laura Bispuri
Argumento: Francesca Manieri, Laura Bispuri
Elenco: Valeria Golino, Alba Rohrwacher, Sara Casu
Itália, Alemanha, Suíça/2018 – Drama
Sinopse
: Sardenha. Vittoria, uma menina de 10 anos, está dividida entre duas mães. Tina, que a criou com amor e dedicação, e Angelica, uma jovem marginal, que inesperadamente a reclama. Uma história de maternidade imperfeita e laços inextricáveis, sentimentos esmagadores e feridas antigas, que marcam o crescimento de Vittoria num verão de medos, perguntas, descobertas e mudança.

«Figlia Mia» - Outro conceito de família
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