“Flow: À Deriva”: ecologias de um mundo só

“Flow: À Devida” é um filme sobre identidade, solidão e uma ecologia sem humanos, onde amizade e cooperação dão sentido à vida em comunidade
"Flow - À Deriva" (2024) de Gints Zilbalodis "Flow - À Deriva" (2024) de Gints Zilbalodis
"Flow - À Deriva" (2024) de Gints Zilbalodis

Começar por um espelho é colocar um segundo ecrã sobre o primeiro, pois o que olha, olha para o que olha, e é regressar ao momento da pureza inicial da imagem que se cria, mesmo quando não é criada: olhar-se no espelhado olhar de si mesmo é a imagem-prima, é a interrogação primeira, que figura é esta que está a olhar para mim, quem sou eu que olho para ela, o que é esta coisa que se desenha diante de mim? É um cinema estranho, registo que se apaga rapidamente, porque o tempo passa e só fica a menção memorial do que já passou, esse-tempo-imagem, no vidro-água que cintila e ondula, essa imagem-de-si que tanto se pergunta a si mesma.

E para onde olha o Gato? Para a sua solidão num mundo onde não parece haver iguais a ele? E se assim é, como pode ele conhecer-se a si mesmo se o reflexo é sempre o mesmo e se não há outro – referência de um igual como espécie – com quem ele se possa comparar? Pode então ele perguntar quem é o que ele é? E não sendo esse quem que ele é, quem poderá ele então ser? Poderosa dúvida, o tremeluzir de uma identidade que tem que ser solitária, vivente dos tempos longos dos dias, alheia de uma companhia, e que tem que assim olhar e pensar, supor e indagar sobre quem é e quem pode ser, solo ou multifacetado, sozinho ou colaborador, caminhador ou corredor, ficado ou viajado. Herói de si mesmo, engajado numa demanda, mesmo sem o querer, para um aprender de uma viagem-feita-lição: nada mais importante que a amizade, fortuita que seja, nos momentos mais difíceis gizada, fruto da necessária colaboração a que as circunstâncias obrigam, a manter mesmo que não se a queria, pela obrigada partilha de um mesmo veículo condutor, mas sempre fundamental e clara forma de se conseguir um novo modo de ver o mundo e de entender a diferença e a igualdade que na diversidade sempre se encontram…e o nosso Gato mais não será o mesmo e não mais olhará para o seu reflexo da mesma forma como o olha no início do filme.

Gints Zilbalodis faz aqui um filme ecologista, um filme da biosfera, desprovida de nós, os humanos. O que isto nos diz? Que tema do vazio é este? Pode só a Terra ser uma terra limpa e aguada sem nós, que tanto a estragamos e tanto a mal usamos? O fluxo limpo e cristalino das águas é a metáfora de uma reversão das forças e de uma renovação que materializa um mundo-sem-o-humano e que é, como tal, mais ecologicamente equilibrado? O humano é então a remanescência: as torres que apontam para o vazio e que adoram não se sabe bem o quê, a folha de papel e o lápis deixados sobre a mesa, os barcos que navegam sozinhos, quebrados e semiafundados. O tema do não-humano não é só o dar-se o espaço de vivência a outros seres, é também o olhar-se para um vazio-do-nada, em que já não há ato construtor pela necessidade da vã glória da construção por si mesmo, pelo empreendimento visando um lucro, por uma economia de antagonismos e lutas pelos recursos, mas sim por uma ecologia-sem-economia, uma terra livre, em fluxo e saúde de si mesma, feita de seres diferenciados e pacíficos (com o caminho que se faz até lá chegar e eles todos bem lá chegam).

No nada, fica então para ser construída uma outra ecologia: a da relação, difícil à partida, mas progressiva e congruente forma de um ajuntamento de vontades, necessárias e pungentes, porque definidoras de uma ética e de uma estética da religação, num mundo sem deuses e sem homens, e em que “a humanidade” é uma feitura sem seres humanos, mas o é antes com seres na acepção absoluta da palavras, seres que são, porque mais não podem ser do que a assunção da sua própria solidão que só pode ser resolúvel pela junção das solidões que se perfazem assim na cooperação e no fazer de uma comunidade, de uma comuna em viagem, num espaço estranho, de ninguém e de todos, e que importa, mais do que tudo repovoar, reecologizar, remundificar, tornar num novo mundo, ele que novel já é, porque revoluto, indo e vindo, refazendo-se num ciclo que já antes esteve e que parece vir a reciclar-se novamente. Reciclo, rejuvenescimento, refeitura, reconstrução, remar, recolocar, reiniciar, reconhecer no outro, a bondade e a amizade, palavras não despiciendas, antes fundamentais, pois a reecologia não se faz sem esse comentário: estar-se em comunidade, ou pelo menos, trabalhar para que ela possa ser cooperativamente construída, não se consegue sem que não se seja amigo de quem ao lado está, sem que se seja bondoso para quem connosco partilha os perigos da viagem, as dificuldades do ir para onde não se conhece o fim ou os caminhos que a ele levarão.

Da ética do companheirismo se faz a força da união que conforma a postura positiva do filme: positividade como segundo comentário fundamental acerca dos mundos difíceis que o mundo-grande-do-humano tem feito emergir: o fomento da divisão, a contagem e apontamento de inimigos, o chamamento ao conflito, a disposição para o rearmar, a vontade e o ato de guerrear. Neste filme, não se rearmam os que não se querem guerrear, mesmo os Cães que rosnam, o fazem porque assim são, é assim que agem, pois mesmo o barco é território para se marcar a posição canídea, mas bem e depressa o nosso Lémur os põe no seu lugar, e a paz se refaz, como necessária que lhes é, e como tem que ser. A lição não precisa ser dada de forma magistral, porque é já magistralmente oferecida: dá ao outro o que foste buscar para ti, pois um dia ele te dará o que tiver ele ido procurar, e assim usarás também para teu benefício; quando em perigo um ou alguns, só a força do grupo o(s) poderá ajudar e dele o(s) livrar; procura quem se perdeu, e ambos e muitos mais se reencontrarão; olha sempre uma última vez para trás, que sempre um amigo te virá acompanhar; a viagem é sempre mais bem alcandorada e cumprida quando com outros ela se faz, em ajuda mútua. Quantas cenas se encontram neste filme que perfazem as frases e as atitudes referidas, contra o seu contrário, contra a negatividade dos que nada disso se predispõem a fazer, nestes tempos difíceis, de negrume, de ataque e de ensejo de o querer, no invectivar, no lançar a dúvida sobre a validade de se ser um ser-no-estar e no viver-do-mundo. No vazio, enche-se o mundo de amizade, de boa vontade, de amor. Filme-comentário, desabrido, positivo, assim feito.

Um interlúdio de uma cena que faz estremecer: a fantasia de um impossível portal que se abre para um fluido que se suspende, uma água do céu feita, ou um céu aquoso que desenha ainda uma outra ecologia, a de um cosmos, luminoso e etéreo, que é só tocado, sonho ou engano, irrealidade impressa no real duro…para onde subiu a Ave? Que estranheza esta, que momento de sonho, o mar revoltoso ao fundo, a torre incógnita que se estende para o alto, lugar de alguma religião perdida e esquecida? Não se sabe, mas como é importante que se lembre que ainda há coisas que escapam ao conhecimento claro, à definição de regras, à monstruosidade do entorno real, para além da chuva, das ondas, das nuvens escuras. Assim se faça luz…

Um mundo só, mas que é um só mundo, centrado num grupo de amigos, que atravessam um mar que chegou e se foi (voltará a chegar?), que partilham um caminho, recursos e sobretudo se entendem e se fazem entender e compreender. Já não é vazio o mundo, porque eles assim o enchem. A imagem final regressa à primeira, mas o espelho também já não está vazio, já não tem só o nosso Gato, é cheio e espelha quatro amigos: um gato, uma capivara, um lémur e um cão. De sozinhos a unidos, fazem ensinar o bem e a bondade a quem com eles queira aprender…