​Um homem, a sua filha, uma nave espacial à deriva e muita solidão; é esta a premissa de “High Life”, o novo drama de Claire Denis, que inevitavelmente deixará a pensar quem assista a esta obra. A história é contada de uma forma bastante interessante, intercalando momentos de Monte (Robert Pattinson) sozinho com a sua filha bebé Willow, com memórias do seu passado na Terra, e com momentos de um passado próximo (em que ainda havia outros tripulantes na nave), seguindo-se o storyline de Monte já com a sua filha adolescente.

​O grande trunfo deste filme são, sem dúvida, os aspetos técnicos irrepreensíveis, sendo uma experiência que vale totalmente a pena experienciar no grande ecrã para os cinéfilos. A fotografia é, talvez, das melhores que vi nos últimos tempos, fazendo uso perfeito do contraste da utilização de câmaras analógicas no meio de um filme maioritariamente filmado em digital (por exemplo em memórias de infância, imagens da Terra ou situações presentes mas dotadas de uma certa sensação de irrealidade). A prestação de Robert Pattinson é também de destacar, transmitindo um caráter extremamente humano a um filme repleto de sensações de estranheza  e de situações que parecem retiradas de um sonho, um aspeto também muito aliado à fabulosa banda sonora.

​Este não é, de todo, um filme fácil sobre o qual escrever, já que ao vê-lo existe toda uma submersão de emoções e, ao mesmo tempo, de incompreensão em relação aos acontecimentos. É uma história que, na sua complexidade, mistura delírio com a mais crua humanidade, moralidade com sexualidade, chegando ao íntimo do sentimento humano através de uma série de situações ignóbeis mas inerentemente belas. A primeira meia hora de filme (apenas com Monte e o bebé), quase sem história temporal, é dos melhores momentos cinematográficos que já vi precisamente por essa descrição visual do ser humano.

​Senti que o filme começou a falhar quando Willow se torna adolescente (Jessie Ross), não parecendo adequado que alguém que nunca esteve na Terra, nunca foi exposta a estímulos como arte e que cresceu com o pai como único companheiro, e que apesar disto tudo tenha uma noção demasiado inata de ética, e um comportamento totalmente normal. No entanto a cena final volta a ser prodigiosa, belissimamente realizada e deixando no ar muitas questões, deixando ao espetador liberdade total de interpretação. Nunca iremos saber qual a verdadeira resposta, mas qual seria o propósito da arte se não fazer-nos pensar?

«High Life» – A beleza ignóbil de ser humano
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