Todos os natais, nos mais diversos recantos do globo, as televisões são invadidas com reposições das aventuras do pequeno Kevin McCallister – aka Maccaulay Culkin – num filme em que a negligência paternal resulta não em tragédia mas numa grande aventura recheada de fantasia infantil e comédia slapstick. Escrito e produzido por John Hughes, “Home Alone” (1990) foi um dos maiores sucessos comerciais de toda a história do cinema e apesar dos anos transcorridos, poucas foram as tentativas de construção de um filme para toda a família que conseguissem sequer medir forças com o equilíbrio perfeito encontrado por Hughes e pelo realizador Chris Columbus.

Para todos os traumatizados pela sobreexposição ao filme, esta poderá parece uma afirmação ousada, mas um olhar distanciado irá certamente proporcionar a qualquer um uma lição de cinema.

Se aqui temos o apogeu de Hughes no que a popularidade e impacto comercial concerne, é na década que o antecede que encontrámos as suas mais singulares e significativas contribuições para a sétima arte.

Embora tenha deixado a sua marca enquanto realizador, foi antes de mais nada um escritor, tendo iniciado a sua carreira a vender anedotas a humoristas de renome, o que lhe valeu a abertura de portas para o mundo do copy, onde se movimentou durante a década de 70. Trabalhou na Leo Burnett, cargo que por um caminho sinuoso o levou às portas da prestigiada revista de humor National Lampoon.

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Em 1982 estreia “National Lampoon’s Class Reunion”, escrito por Hughes – um fracasso de bilheteira e crítica. A dor do golpe pouco durou. No ano que se segue, chega às salas “National Lampoon’s Vacation”, realizado por Harold Ramis. O contraste na recepção não poderia ser maior. No primeiro fim de semana o filme entra para 1º lugar do box office nos EUA. Ainda em 1983, “Mr.Mom” de Stan Dragoti obtém também bons resultados, levando a que a Universal ofereça ao jovem autor um contracto de 30 milhões por três filmes.

Começava a verdadeira aventura de John, que em 1984 se estreia na realização com “Sixteen Candles”, que também escreve. Esta é a primeira pedra da sua poesia da adolescência, onde inicia a transformação de Molly Ringwald num ícone do cinema. Molly era real, e era a realidade que interessava a Hughes.

Em 1985, mais uma vez ao leme da realização e argumento, estreia aquele que é provavelmente o seu filme mais influente de sempre – “The Breakfast Club”. Uma brilhante desconstrução dos estereótipos da adolescência, que confronta algumas das mais universais questões que assolam a juventude. Quem sou eu? Uma pergunta megalômana, num filme que aparenta uma simplicidade e candura que tende a ocultar a grande mestria de Hughes não só como escritor, mas também como director de actores.

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Não me consigo recordar da primeira vez que vi este filme, é daqueles que parece ter estado sempre “por cá”… não fazia a mínima ideia (nem fiz durante muito tempo) de quem era John Hughes. Apenas sei que fiquei preso aquela película, passada num único décor, sem tiros nem acção, com cinco adolescentes a conversar. Eram reais e falavam de pessoas como tu e eu.

A obra é também indissociável do tema “Don’t You (Forget About Me)”, interpretado pelos escoceses Simple Minds, que viram aqui espelhada a suprema ironia do seu próprio percurso artístico. Reticentes com algo que pouco lhes dizia, e tendo a principio recusado, dedicaram apenas três horas à gravação daquele que se viria a tornar o seu maior sucesso – imortalizando o nome da banda como voz de um hino dos anos oitenta.

“The Breakfast Club” foi perspectivada como a primeira longa de Hughes enquanto realizador, daí a tremenda dificuldade em persuadir o estúdio, que via com preocupação a sua falta de experiência. Foram convencidos por um orçamento magro, que pouco ultrapassava o milhão de dollars… escusado será dizer que o risco compensou. O filme foi um sucesso de público e crítica, ultrapassando o teste do tempo. Em 2005 a MTV honrou o legado com o Silver Bucket of Excellence e em 2010 – embora em vida não lhe tenha prestado grande atenção – a Academia homenageou o autor na 85ª edição dos Oscars. Em 2015, assinalando o 30º aniversário, o filme foi remasterizado e teve direito a exibição em 430 cinemas.

Ainda em 1985, a Universal lança “Weird Science”, uma comédia de ficção científica onde assume uma vez mais a realização e argumento. Muito mais ligeiro do que o seu antecessor, consegue no entanto, de forma bastante surreal, espelhar muitos dos anseios e inseguranças do universo adolescente – nada que Kelly Le Brock não resolva!

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A máquina corria a todo o gás, e 1986 viria a manifestar-se igualmente prolífico. Em fevereiro estreia “Pretty in Pink”, interpretado pelo agora confirmado talento de Molly Ringwald. O rastro de consciência social que ficara gravado em “The Breakfast Club” ganha aqui uma nova dimensão, através da cativante cinderella Andie Walsh e de o inadaptado Duckie – interpretado por Jon Cryer.

Se já “The Breakfast Club” nos demonstrara o poder do uso da música pop, “Pretty in Pink” soma ao universo de Hughes contribuições de Psychedelic Furs, OMD, New Order ou Suzanne Vega.

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Este sucesso teria sido o suficiente para um ano em grande, mas como verdadeiro workaholic e fazendo jus à sua reputação de ser um dos mais rápidos e certeiros autores a trabalhar no meio, em Junho do mesmo ano estreia “Ferris Buller’s Day Off”. Matthew Broderick, que havia já participado nos clássicos “WarGames” (1983) e “Ladyhawke” (1985), interpreta um jovem com a terrível missão de faltar às aulas! Uma aventura adolescente, com o humor, leveza e inocência que por esta altura já eram imagem de marca do autor. O resultado foi ainda maior do que o do seu antecessor, alcançando quase o dobro da bilheteira.

Em 1987, acrescenta mais um filme ao cânone do cinema adolescente – “Some Kind of Wonderful” – realizado por Howard Deutch, que se havia estreado com “Pretty in Pink”.

Demasiado confortável com o subgénero do qual se tornara mestre, ainda com os pés bem assentes na comédia, decide fazer um desvio do universo adolescente. “Planes, Trains and Automobiles” (1987) é escrito, produzido e realizado por Hughes, com os comediantes Steve Martin e John Candy a assumirem os principais papéis. Os temas da desconstrução de estereótipos e conflito de mundividências assentes em diferenças de classe continuam a permear o trabalho.

“She’s Having a Baby” (1988) apresenta-nos as encruzilhadas de um casal recém casado, abordando uma vez mais inseguranças de alcance universal. Face aos seus antecessores, este passo para a idade adulta falhou na recepção.

No ano que se segue, volta a abalar as bilheteiras com “Uncle Buck”, com John Candy.

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A entrada nos anos 90, recebe-o em glória, com o primeiramente referido “Home Alone”, mas ao virar da esquina aguardava-o a grande desilusão de “Curly Sue” (1991), ultimo filme escrito, produzido e realizado por Hughes.

Abalado pela recepção, John resguardou-se (ainda mais) da esfera pública, passando a assinar vários guiões com o pseudónimo Edmond Dantes – personagem de O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas. Entre essas obras veladas, encontram-se trabalhos menores, tais como “Beethoven” (1992).

A 6 de Agosto de 2009, ao caminhar por uma rua de Manhattan, sofreu um ataque cardíaco que lhe ceifou a vida. Hughes tinha 59 anos e morreu no anonimato em que sempre viveu. Para além de ter sido um dos mais prolíficos autores da sua era, John Hughes soube como ninguém transportar para o ecrã a poesia da insegurança e os mistérios escondidos na banalidade da vida adolescente. Porque falamos tão pouco sobre um autor tão influente? Pela invisibilidade que o próprio escolheu? Ausência de distância para vencer o estigma do “cinema comercial”? Pouco importa, os filmes estão aí – e ao que parece vão continuar por muito tempo.

José Alberto Pinheiro

realizador e professor do ensino superior