“Joker: Loucura a Dois” (“folie à deux”) dá-nos pelo menos a oportunidade de retomarmos o antiquíssimo debate sobre a distinção entre o amor e a paixão. A paixão de Harleen (interpretada por Lady Gaga) é a paixão por Joker (espécie atribulada de alter-ego de Arthur, ou, se o preferirmos, seu superego), razão pela qual nunca Harleen poderia amar Arthur sem Joker. Mesmo se concordarmos que Arthur e Joker são a mesmíssima pessoa, discussão que percorre todo o julgamento do mesmo, o Arthur é só mais um tipo de “baixo QI” com graves problemas psiquiátricos que matou seis pessoas (incluindo a mãe) e pretende ser julgado e condenado por isso – – algo que Joker nunca poderia aceitar já que se recusa a aceitar a lógica de punição (e de recompensa) por parte de uma sociedade em que não se reconhece.
Amar é aceitar a pessoa amada em todos os seus atributos, qualidades e defeitos, virtudes e faltas, e não exclusivamente aquilo que se projeta nesta, o seu sujeito ideal. Como talvez diria um Zizek o que caracteriza o amor não é o amar alguém apesar dos seus defeitos ou fraquezas, é amar alguém com os seus defeitos e fraquezas. Amar é amar aceitando a pessoa não como ela é, mas para além de tudo aquilo que se pode saber sobre ela. Já a paixão é a afeção por aquilo que se projeta na pessoa pela qual se está apaixonada. A paixão é a paixão pelos estereótipos: é o amor “à primeira vista”. Tal como à sua multidão de seguidores o que fascina Harleen em Joker é inteiramente a sua persona, a sua máscara. O amor é o crepúsculo dos ídolos, é uma afeção adulta, a paixão é idolátrica ou fetichista. Quando se ama está-se disposto a enfrentar todas as ideias preconcebidas que os outros têm sobre a pessoa amada. Na paixão aquilo que nos fascina é precisamente essa imagem que os outros têm sobre o nosso objeto de desejo. As paixões são primitivas, violentas mas primitivas, e o amor é paciente e até estoico.
A discussão jurídica e filosófica se Arthur Fleck e Joker são a mesma pessoa ou se o último representa apenas uma criação ou delírio do primeiro é uma discussão algo espúria. Filosoficamente não existe tal topos do “verdadeiro eu” como uma espécie de verdadeira essência do nosso ser. Se tivéssemos de ir como que ao encontro do nosso “verdadeira eu” que “eu” seria afinal esse que encetaria tal busca? Um falso eu? Enfim, a discussão não tem sequer sentido… Podemos fingir ou não fingir, atuar ou não atuar, mas o “eu” que finge ou não finge, que atua ou não atua, é sempre o mesmo eu, quer dizer, é sempre o mesmo eu mistificado, ilusório, fragmentado. O “verdadeiro eu” é sempre um eu falso, uma representação socialmente determinada do eu.
Pode a loucura ser elevada a programa político ou ser conceituada enquanto sujeito ou vontade política? O personagem Joker é socialmente mobilizador pela sua potência política, mesmo se esta se resuma ao desenfreamento, ao delírio coletivo. Na verdade Joker depende da publicidade, da sociedade do espetáculo, não para demonstrar que esta é vazia, um simulacro da realidade, mas simplesmente porque Joker nunca existiria sem o espetáculo. Tire-se o espetáculo e o Joker não existe. O que faz de Joker um herói, um arquétipo, é o ser o justo contraponto da sociedade da(s) norma(s). Sem a sociedade disciplinar e do controlo Joker era simplesmente inconcebível. Por isso todo o filme sobre o seu personagem envolve sempre a crítica profunda da sociedade que possibilita a ascensão de Joker como vilão entre vilões. Mas o Joker de Todd Phillips não se restringe a ser um reflexo ou produto da sociedade existente na sua fase de capitalismo tardio. A força política de Joker que o realizador inscreve como parte central da sua obra deve-se ao facto do protagonista representar como que a revolta (ou uma das faces da revolta) contra um modelo social transformado em sistema. A loucura de Joker vai muito para além da questão psiquiátrica afirmando-se como essa vitalidade transgressora de toda a moralidade e disciplina, de toda a ordem, racionalidade e ideia de justiça, onde assenta a sociedade. A revolta de Joker é a revolta contra a arché social, o seu princípio constitutivo, que nunca cessa de produzir a alienação e a marginalização de muitos. Podemos inclusivamente pensar que a sociedade se define politicamente pelo modo como integra ou exclui os seus “anormais” (como atributo que, antes de tudo, qualifica aqueles que se desviam da norma), como regula ou disciplina a loucura, como lida com as suas margens e os seus “comportamentos desviantes”. Podemos até eventualmente perceber como funciona uma determinada sociedade a partir exclusivamente não daquilo que ela é, como se descreve a si mesma a tendo em vista os seus princípios e mitos fundadores, mas daquilo que a todo o custo se recusa a ser. Aventando a hipótese de a sociedade ser muito menos o resultado daquilo que positivamente procura, mas daquilo que a todo o custo nega, que relega para as suas margens, que interna compulsivamente nos seus hospitais psiquiátricos, que prende ou que educa segundo os interesses estritamente ligados à sua sobrevivência e reprodução.
“Joker: Loucura a Dois” é também um filme algo nietzschiano que vê na assunção da culpa um fracasso, uma negação do ser, e na alegria do excesso, até mesmo do crime, uma realização da vontade de poder para “além do bem e do mal”. Se alguém interioriza a moral dominante acaba como um insignificante Arthur Fleck, mas se se recusa radicalmente a aceitar as premissas morais da sociedade, se se revolta contra o ser gregário, pode ao menos alegrar-se no violento delírio de ser Joker.

