“Kanal” (que, em polaco, significa “esgoto”) é o segundo título da trilogia de Andrzej Wajda sobre a Segunda Guerra Mundial e também o título mais violento, duro e claustrofóbico do arco. Foi o filme que pavimentou o caminho para a maior obra do cineasta, “Cinzas e Diamantes” (1958), que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes e o tornou conhecido no mundo inteiro.

A trama apocalíptica de “Kanal” é quase minimalista: acompanha-se os momentos finais da companhia 43 nas vésperas de outubro de 1944, quando o destino trágico da Revolta de Varsóvia já estava selado.

O verdadeiro horror do filme é a natureza inexorável da guerra e a forma como o medo e a paranóia dividem o espírito humano e, consequentemente, fragmenta a sociedade. Tal como em “Geração”, Wajda conta a história de personagens comprometidas com a sua nação, descontentes com a ordem imposta e mártires da perseverança e do amor. Não retrata a morte de heróis, mas antes de homens e mulheres que perderam os seus ideais e ficaram reduzidos aos seus instintos mais primitivos. Numa sequência particularmente intensa, um tenente e dois dos seus soldados chegam a uma saída de esgoto e encontram-na barricada com granadas. Um compositor que os tinha acompanhado cita um excerto de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, enquanto vagueia pelos túneis e entra lentamente em delírio.

A atmosfera da primeira metade do filme, criada nos esgotos, é violenta e irrespirável, um inferno vivo, visto que os nazis preparam armadilhas e emboscadas, com espingardas em riste sempre que os protagonistas se atrevem a ir à superfície. A segunda metade contrasta com os escombros da guerra pelos espaços abertos e desertos, mas, aqui, o desespero ainda reina.

A morte adquiriu em “Kanal” talvez a sua mais terrível e magnífica representação: o narrador anuncia no início do filme que aquelas seriam as últimas horas dos protagonistas, e eis que ela se revela implacável e inelutável. A luz ao fundo do túnel, esse símbolo de liberdade, torna-se aqui uma outra prisão ainda mais angustiante.

Realização: Andrzej Wajda
ArgumentoJerzy Stefan Stawinski
Elenco: Tereza Izewska, Tadeusz Janczar, Wienczylaw Glinki
Polónia/1957 – Drama, Guerra
Sinopse
: “Kanal” é o mais sombrio e dramático da Trilogia da Guerra de Andrzej Wajda e segue o terceiro pelotão do Armia Krajowa (o Exército da resistência polaca), que é obrigado a fugir para dentro dos esgotos de Varsóvia na tentativa de sobreviver a um iminente ataque nazi.

«Kanal» – A Guerra é labiríntica, malcheirosa e sombria
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