Margarida Moreira: “valeria a pena explorar, descobrir e contar as histórias de todas as mulheres”

Margarida Moreira em "Maluda" (2020) de Jorge Paixão da Costa

O Cinema Sétima Arte conversou com a actriz portuguesa Margarida Moreira, conhecida por “Diamantino” (2018; Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt), “O Último Banho” (2020; David Bonneville), “A Lenda do Galo” (2019; Carlos Araújo), “Refrigerantes e Canções de Amor” (2016; Luís Galvão Teles), “Bairro” (2013; Jorge Cardoso, Lourenço de Mello, José Manuel Fernandes, Ricardo Inácio), “O Fatalista” (2005; João Botelho), a propósito do seu recente trabalho “Maluda” (2020; Jorge Paixão da Costa).

O Festival de Cinema Independente de Braga, o BragaCine’21, no dia 28 de Novembro, presta homenagem à Margarida Moreira pelo seu trabalho, galardoando-a com o Prémio Augusta, enquanto actriz, no filme de David Bonneville, “O Último Banho”. O filme já tinha recebido antes os prémios de Melhor Filme (David Bonneville) e de Melhor Actriz (Anabela Moreira) no Festival de cinema luso-brasilero de santa maria da feira; de Melhor Actriz (Anabela Moreira) nos Festivais Liverpool International Film Festival e no Trieste Festival del Cinema Ibero-Latino Americano; e a ‘Honorary Distinction Award’ no CYPRUS FILM DAYS International Festival.

Considera que tem sido crescente o prestígio reconhecido ao cinema em português?

O cinema português tem marcado presença desde sempre nos maiores festivais internacionais de cinema e com grande prestígio.

Sem dúvida que o cinema português tem sido ao longo dos últimos anos mais reconhecido lá fora do que cá e existem filmes que mesmo não tendo um grande número de espectadores cá, acaba por fazer o seu caminho no circuito dos festivais e é sempre muito bem reconhecido e conceituado.

Ainda há pouco tempo estive com o realizador David Bonneville no Transilvânia International Film Festival, na Roménia, com O Último Banho e no dia em que foi exibido tínhamos sala praticamente esgotada e o interesse e receção do público à nossa obra foi incrível.

O mesmo aconteceu com o filme Diamantino de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt que ganhou o Grande Prémio da Semana da Crítica no Festival de Cannes e na altura eu estive presente nesse festival e a receção do público ao nosso filme foi também inesquecível.

Portanto, não sei se é crescente esse reconhecimento mas, de facto, é um orgulho para todos nós.

 

Concorda que a qualidade do cinema em português parece contrastar com a quota de orçamento disponibilizada pelo Estado português, que, caso o Orçamento tivesse sido aprovado no presente ano, não chegaria a 1% do total do Orçamento?

Acho que a qualidade da nossa arte sempre contrastou com o apoio que é dado. De facto, os artistas portugueses conseguem ano após ano excederem-se apesar do estado não valorizar a cultura. Desde sempre que eu e colegas meus arregaçamos as mangas em projetos sem qualquer tipo de apoios ou financiamento. Por exemplo, estou neste momento com um espetáculo de teatro em digressão, o Adão mais Eva A Experiência, de João Ascenso que vive da bilheteira e da venda de espetáculos, ou seja, não temos qualquer apoio. Acho que somos um povo perseverante e que luta para concretizar os seus projetos, apesar das circunstâncias não nos serem favoráveis.

 

No passado dia 15 de Novembro, teve estreia, no canal televisivo da RTP2, o telefilme “Maluda”, assinalando o dia de nascimento da pintora portuguesa. O filme é realizado por Jorge Paixão da Costa, argumento de Filipa Martins e produzido pela Thrust Media. O filme dá-nos a conhecer Maria de Lourdes Ribeiro (1934-1999), conhecida como ‘Maluda’, nascida em Goa, que viveu entre os 13 e os 29 em Maputo e iniciou a sua carreira de pintora como autodidacta. Vem para Portugal e em 1963 recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Depois disso, vive em Paris. Fica conhecida, essencialmente, por pintar paisagens urbanas, e a sua pintura geométrica é inédita em Portugal nas décadas de setenta e de oitenta. As figuras humanas são secundárias na sua obra, todavia os retratos de Amália, Raul Solnado e Ana Zanatti. Vive no Brasil depois do sucesso e reconhecimento obtidos através de exposições, das pinturas de janelas e da colaboração com os CTT (Correios de Portugal). Essa colaboração valeu-lhe o Prémio Mundial de Melhor Selo nos anos de 1987 e 89.

Em que é que interpretar uma figura da (nossa) história difere de interpretar outros papéis ficcionados?

Difere, acima de tudo, na responsabilidade. Interpretar um personagem ficcional permite mais liberdade enquanto que interpretar alguém que existiu na realidade e, ainda mais, uma figura da nossa história, exige um estudo aprofundado das características, físicas, psicológicas e emocionais daquela pessoa especifica. Enquanto que nos personagens ficcionais, a liberdade criativa tem de ir ao encontro do texto e das direções que são dadas no processo de trabalho. Foi a primeira vez que interpretei alguém que existiu, na realidade, e a verdade é que o trabalho de descoberta e aprofundamento da personagem foi uma viagem tão exigente quanto prazerosa. A dada altura, dei por mim e passava os dias e noites a pesquisar e a ver e a rever vídeos com entrevistas da Maluda. Fui descobrindo uma mulher única e com muitas camadas. Foi, sem dúvida, uma mulher maravilhosa e muito à frente do seu tempo.

Margarida Moreira em “Maluda” de Jorge Paixão da Costa

O realizador Jorge Paixão da Costa ((autor de filmes O Soldado Milhões e de séries como A Espia ou O Atentado) não hesitou em fazer um filme sobre uma pintora mulher, homossexual, portuguesa. A Margarida Moreira foi escolhida para o papel de ‘Maluda’. Se pensarmos na pertinência de dar a conhecer as figuras que fazem parte da nossa cultura, sente que o cinema tem um papel a desempenhar no modo como se conta a história de um país?

O cinema não tem essa obrigação, mas acaba também por ter esse papel pois pode, sem dúvida, contribuir para dar a conhecer a história de um país. E nós temos uma história incrível, cheia de personalidades que dariam filmes maravilhosos. Histórias não nos faltam! A mim, pessoalmente, sempre me interessaram biografias ou histórias inspiradas em histórias reais.

 

Maluda deixava as figuras humanas propositadamente de fora das suas pinturas, pois que elas podem “atrapalhar” a criação artística. Reconhecida, em vida, pela sua obra de pintura, ‘Maluda’ não assume, em plena liberdade, a sua relação amorosa com a actriz Ana Zanatti, mesmo depois do fim do Estado Novo. Acredita que seja possível separarmos o/a criador(a) da criação artística, ou estarão essas duas dimensões intimamente intrincadas?

Acho que depende da obra e do artista, mas as duas estão intrinsecamente ligadas. Apesar de que a vida pessoal só ao artista dizer respeito ou assim deveria ser. A sexualidade de Maluda podia, de facto, prejudicar a venda das suas obras e a verdade é que ela não tinha de tornar público esse seu lado. Estamos a falar duma altura que antes do 25 de Abril a homossexualidade era não só crime, mas considerada doença do foro psiquiátrico. Existem relatos e histórias, que dariam filmes incríveis, sobre pessoas que foram presas e internadas e que viveram a sua vida como marginais por causa de amarem quem amavam. Hoje, parece-nos despropositado, mas a verdade é que não foi assim há tanto tempo que isto aconteceu. Maluda, apesar de tudo, viveu as suas histórias de amor, mas sempre com a descrição que, aliás, era própria da época.

Margarida Moreira e Filipa Louceiro em “Maluda” (2020) de Jorge Paixão da Costa

Através da entrevista que é retratada no filme “Maluda”, com a colaboração especial de Ana Zanatti no papel de entrevistadora, depreendemos que a pintora é uma figura complexa e controversa. Apesar de ser reservada e conservadora quanto à exposição da sua vida íntima, é boémia e atreve-se a uma linguagem artística própria e autêntica. Em que medida é que dar a conhecer Mulheres (recordamos aqui a figura de Maria Adelaide Coelho da Cunha em “Ordem Moral” de Mário Barroso, a título de exemplo) é fundamental para os dias de hoje, sendo que ainda há tanto por fazer no que diz respeito à igualdade de oportunidades.

Acredito que existem muitas boas histórias por contar, tanto de homens como mulheres, mas a verdade é que muitas histórias estão ocultas e na sombra por terem tido como protagonistas mulheres. Sabe-se hoje que existem, por exemplo, muitos escritores homens que, na verdade, se descobriu terem sido mulheres, mas que tiveram de utilizar um pseudónimo masculino senão não poderiam publicar as suas obras. Valeria a pena explorar, descobrir e contar as histórias de todas as mulheres que por razões de machismo ou de misoginia da nossa sociedade ficaram na esquecidas, ocultas ou na sombra.

Margarida Moreira e Ana Zanatti em “Maluda” (2020) de Jorge Paixão da Costa

Filmes como “Maluda”, a “Metamorfose dos Pássaros” (de Catarina Vasconcelos), os documentários “O Casarão” (de Filipe Araújo), e “José-Augusto França – Cor Liberdade de Homem” (de Ricardo Clara Couto), para nomear os mais recentes entre outros exemplos, parecem assemelhar-se pelo retrato que trazem à tona, de diferentes modos, da presença da ditadura em Portugal. Estamos a preparar o futuro da cultura, não deixando cair a preservação da memória em esquecimento?

Acho que é importante a preservação da nossa memória e é importante que a arte e a história não a deixe cair em esquecimento. É o nosso legado e devemos honrar a nossa história.

 

E quais são os seus projectos de trabalho para o futuro?

Neste momento, estou entre projetos e aguardo novos desafios. Estou a fazer um espetáculo de teatro que é o Adão mais Eva A Experiência de João Ascenso e neste momento aguardamos datas para novos espectáculos.

Margarida Moreira e Ricardo Barbosa em “Adão+Eva: a Experiência” de João Ascenso

O Cinema Sétima Arte agradece a disponibilidade da Margarida Moreira e dá-lhe os parábens pela homenagem e convida todos(as) a assistirem aos seus filmes e peças de teatro, para não deixarmos morrer a Arte e o papel das mulheres.

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