As sessões 3 e 4 da Competição de Curtas da #MONSTRAemCASA incluem 19 curtas-metragens produzidas em mais de 15 países. Continuando a nossa cobertura, fazemos aqui uma seleção de algumas das curtas dessas duas sessões:

Carne, de Camila Kater (12’/Brasil/2019)

Presente nos festivais de Locarno e Toronto, “Carne” consiste em cinco histórias separadas de cinco mulheres que partilham experiências, sobretudo na sua relação com os seus corpos e nas suas relações com as outras pessoas. Cada uma destas mulheres encontra-se numa fase diferente da vida, desde a juventude até à velhice, por isso, certamente, cada história terá um impacto diferente no espectador conforme a sua idade. Algo que distingue “Carne” da grande maioria das restantes curtas-metragens é o caráter documental. Enquanto na maioria se pressupõe haver um entendimento entre o áudio e o visual, certamente nesta curta foi a animação que necessitou de se ajustar aos relatos já existentes. O resultado final é a narração de cinco histórias engrandecidas graças à parte visual.

Nota: 4/5

Limite, de Steven Subotnick (3’/Estados Unidos da América/2019)

Em cerca de três minutos, Steven Subotnick mostra que o cinema de animação não possui limites. O realizador, já com uma longa carreira na animação experimental, menciona que este novo trabalho é um estudo de limitações, tendo sido feito a partir de um pedaço de cartão e com oito frames de animação. Colocar o filme nesses termos seria plenamente redutor, pois Subotnick dá-lhes conteúdo e significado usando a magia do cinema: a arte de sugerir movimento através das imagens.

Nota: 4/5

O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto, de Bruno Caetano (11’/Portugal e França/2019)

Depois de já ter sido creditado como realizador da curta-metragem que serve de videoclipe à canção “Cinegirasol” da banda Os Azeitonas, Bruno Caetano volta a dirigir uma nova curta animada em estilo stop-motion com “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto”. No filme, é retratada uma cidade em que desapareceram todos os vestígios de Natureza, inclusive se tornou proibido plantar qualquer árvore. A aventura vivida pelo Sr. Jacinto é narrada e auxiliada por uma belíssima banda sonora que dispensa diálogos. Fica no espectador nacional apenas a tristeza de ouvir a narração em inglês, ainda para mais quando se trata de um trabalho nacional. Ainda assim, é uma curta que consegue transmitir a sua mensagem e aquecer um pouco o coração.

Nota: 4/5

Roughhouse, de Jonathan Hodgson (16’/Reino Unido e França/2018)

“Roughhouse” conta a história de três amigos de infância que se mudam da sua cidade natal de Birmingham para Liverpool, para irem estudar para a universidade. A história aparenta basear-se nas experiências do próprio realizador, mostrando sinais de se passar algures nos anos 80, e que lhe valeu inclusive o BAFTA para melhor filme de animação. No filme, os três amigos partilham casa em Liverpool com um novo elemento, que os começa a manipular a todos. Embora o filme inicie com alguns elementos de comédia, um dos elementos do grupo começa a ser vítima de bullying, o que muito rápido vira o tom do filme. A animação vai acompanhando esta progressão, começando mais estática e tornando-se mais caótica, mas sem nunca perder a expressividade.

Nota: 5/5

Nestor, de João Gonzalez (6’/Portugal e Reino Unido/2019)

Em mais um trabalho nacional, a maior crítica que se pode colocar a “Nestor” é que termina muito depressa e deixa o espectador a pedir mais. A personagem principal, de nome Nestor, obviamente, vive num barco com formato de casa, que vai navegando pelo oceano, balançando sempre de um lado para o outro. Nestor, para seu azar, apresenta comportamentos obsessivo-compulsivos e sente necessidade de posicionar cada objeto da sua casa no local correto à mínima oscilação. A personagem Nestor vive num ambiente instável e só aprende a controlar a sua necessidade de perfeccionismo numa situação extrema, quando percebe que a sua obsessão está a ter impactos negativos nele próprio. Uma boa metáfora condensada em 6 minutos.

Nota: 4/5

Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa (13’/Portugal/2019)

Poucos serão os cinéfilos que não tenham ouvido falar de “Tio Tomás, a Contabilidade dos Dias” durante os últimos meses. A curta-metragem de Regina Pessoa foi uma das mais premiadas do ano, culminando com a arrecadação do prémio Annie, uma das referências da animação. Com um grande cariz autobiográfico, é feito um retrato do Tio Tomás, o contabilista desempregado, mas que sempre foi um porto de abrigo para a personagem principal. Algo que é quase inerente ao filme é o caráter saudosista com que é retratado, seja na animação, na narração ou na banda sonora. Pode por vezes tornar-se tão pessoal que pode parecer que se torna inacessível a elementos externos. Contudo, o filme como um todo compensa qualquer questão que possa ter ficado por responder.

Nota: 5/5

Movimentos, de Dahee Jeong (10’/Coreia do Sul/2019)

“Movimentos” é uma curta-metragem que marcou presença na mais recente edição do festival de Cannes e que inclui humanos, cães e árvores como personagens. Ao longo de cinco secções (de nomes Norma, Reação, Papel, Aceleração e Perceção), é mostrado como cada uma das personagens experiencia o mundo, de formas completamente diferentes. A mensagem do filme pode ser resumida da seguinte forma: todos os seres vivos movem-se, crescem, experienciam a vida e têm diferentes contribuições para o mundo. Mas, para o caso de algum deles se ter esquecido, o filme não deixa de relembrar no final que, quem quer que sejamos, somos pequenas criaturas num pequeno planeta no meio de incontáveis outros planetas em todo o universo.

Nota: 4/5

Sh_t Happens, de Michaela Mihalyi e David Štumpf (13’/República Checa/2019)

A curta-metragem “Sh_t Happens” aborda o humor e o absurdo talvez como nenhuma outra curta em todo o festival. A narrativa passa-se num prédio habitado por animais, uma espécie diferente em cada apartamento e onde os humanos acabam por ser os escravos dos restantes animais. A história repete-se usando de cada vez um ponto de vista diferente, que vai adicionando informação nova àquela que já tinha sido mostrada ao espectador. A história possui influências bíblicas, como é mencionado nos créditos, mas que são tão parodiadas e ridicularizadas que é difícil fazer esse paralelo. Por vezes, mostra-se excessivamente absurda, o que seria um ponto negativo se não fosse essa a principal intenção do filme.

Nota: 4/5