Morreu a realizadora belga Agnès Varda, a artista, a fotógrafa, a pioneira, que faleceu na noite de quinta para sexta-feira (29 março), aos 90 anos, segundo avançou  o jornal francês Le Monde.

Varda é um dos nomes maiores do cinema mundial que, inclusive, recebeu a Palma de Ouro de carreira no Festival de Cannes 2015, tornando-se na primeira mulher a receber este prémio. Varda, a única mulher realizadora a integrar a Nouvelle vague, é autora de algumas obras-primas, entre ficções, documentários e  criativos ensaios poéticos, como: “Cléo de 5 à 7” (1962), “Daguerreótipos” (1975), “L’Une Chante, l’Autre Pas” (1977), “Sem Eira Nem Beira” (1985), “Jacquot de Nantes” (1991), “As Praias de Agnès” (2008) e “Olhares, Lugares” (2017). Varda recebeu outros importantes galardões internacionais pelo seu notável trabalho como realizadora, além da já referida Palma de Ouro: Urso de Prata da Berlinale (1964), Leão de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Veneza (1985), dois Prémios César (1984 e 2009), o Prémio do Cinema Europeu (2001), e o Óscar Honorário (2018).

Agnès Varda: mulher, feminista, artista, fotógrafa, pioneira.

Agnès Varda, nascida a 30 de maio de 1928 em Ixelles, na Bélgica, foi uma pioneira no movimento cinematográfico da Nouvelle Vagueuma das poucas mulheres a aparecer no mapa do jovem cinema dos anos 1960. Se os pais da nova vaga francesa foram Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, Alain Resnais, entre outros, a mãe foi Varda.

“Quando comecei o meu primeiro filme, havia três mulheres a realizar em França. O seus filmes eram bons, mas eu era diferente. (…) Eu pensei, tenho que usar o cinema como uma linguagem” – Agnès Varda

Varda foi sempre uma pioneira, sempre a experimentar novas formas de fazer cinema, tendo explorado muito o documentário, adaptando-se aos tempos e às tecnologias. Começou por fazer filmes de baixo orçamento e filmados fora do estúdio, recorrendo muitas vezes a câmaras mais pequenas e portáteis. “O jovem cinema deve-lhe tudo”, intitulava um artigo de Jean Douchet no semanário Arts em 1960.

Antes de se estrear no cinema Varda tinha intenções de se tornar curadora de museus, tendo estudado fotografia na Escola de Belas Artes e História de Arte na escola do Louvre. Começou a sua carreira profissional em 1951 como fotógrafa oficial do Festival de Avignon. A sua obra cinematográfica sempre se fundiu com a imagem fixa. Varda sempre teve a curiosidade e a paixão em fundir imagem fica com imagem em movimento, em trabalhar com arquivos e em falar sobre a vida das outras pessoas (e dela própria também) através da fotografia. São exemplos disso vários filmes que realizou, como “Daguerreótipos” (1975), “As Praias de Agnès” (2008) e “Olhares, Lugares” (2017).

“Quando comecei, não sabia que queria ser cineasta. Comecei – fiz um filme. Então, quando terminei, disse: Oh meu Deus, é tão lindo – eu devia ser realizadora!” – Agnès Varda

Realizou a sua primeira longa-metragem em 1955, “La Pointe Courte”, com apenas 25 anos. Durante os sete anos seguintes realizou várias curtas-metragens e em 1962 estreou-se no Festival de Cannes, com a sua segunda longa-metragem, “Duas Horas na Vida de Uma Mulher”.

No final da década de 1950 casou-se com o realizador Jacques Demy (1931-1990), uma referência na história do cinema francês, conhecido sobretudo pelos musicais “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” (1964), “Um Quarto na Cidade” (1982) e “As Donzelas de Rochefort” (1967). Demy e Varda partilharam e amaram a vida e o cinema, até 1990, ano em que Demy morreu, na casa onde se instalou mais tarde a empresa de produção e distribuição de Agnès, Ciné-Tamaris, na rua Daguerre, no 14.º distrito de Paris. Em 1991, realizou a ficção “Jacquot de Nantes”, uma biografia sobre a infância de Demy e uma homenagem ao homem que sempre amou e ao seu cinema.

Da década de 1960 até à de 1980, seguiram-se filmes importantes como “A Felicidade” (1965), “Páginas Intimas” (1966), “Resposta de Mulheres” (1975), “Daguerreótipos” (1975) e “L’une chante l’autre pas” (1977), “Sem Eira Nem Beira” (1985). Varda foi uma feminista comprometida, daí que o seu cinema tenha sido muitas vezes como um ato assumidamente feminista. Em 1971 assinou o “Manifesto das 343”, que reivindicava a legalização do aborto.

“O humor é uma arma tão forte, uma resposta tão forte. As mulheres têm que fazer piadas sobre si mesmas, rir de si mesmas, porque não têm nada a perder” – Agnès Varda

No século XXI destacou-se pela realização de filmes como: “Os Respigadores e a Respigadora” (venceu o prémio de Melhor Documentário nos Prémios do Cinema Europeu), “As Praias de Agnès” (2008 – um auto-documentário sobre as suas memórias e lugares que marcaram a sua vida) e “Olhares, Lugares” (2017 – co-realizado com JR, é “uma celebração da imagem espelho que (re)constrói a identidade, identidade esta que está prestes a desaparecer esmagada pela caótica e inesgotável reprodução de imagens que, longe de testemunhar vivências, acaba por invisibilizá-las”). Todo o seu trabalho ficou “marcado pela experimentação e pela visão única sobre a realidade”. “Varda par Agnès” é o seu último trabalho, que estreou no Festival de Berlim 2019.

“Nos meus filmes eu sempre quis que as pessoas se vissem profundamente. Eu não quero mostrar as coisas, mas dar às pessoas o desejo de ver” – Agnès Varda

A dois meses de completar 91 anos, Varda deixou-nos uma obra imensa, inspiradora, original, com muitas imagens e histórias de vida. Varda não se limitava a ficar a trás da câmara, colocando-se permanentemente à sua frente. Filmou-se a si e aos outros (muitos rostos). Sempre com humor e emoção Varda partilhou a sua vida. Agnès Varda partiu, mas ficam os seus filmes, para sempre.