«Mosquito» – Devorado pelo Fora de Campo

“Mosquito” é o mais recente filme de João Nuno Pinto, que abriu o Festival Internacional de Cinema de Roterdão, e que contou, na sua noite de estreia, com mais de 3000 espectadores. Infelizmente, o timing da sua estreia nos cinemas nacionais – a 5 de março – não lhe deixou muita margem para se mostrar nas salas de cinema, devido às exigências de confinamento que a pandemia provocou em todo o globo. Porém, como justa compensação, a Filmin veio permitir dar uma nova oportunidade para o alargamento da sua visibilidade, colocando-o no catálogo da sua plataforma.

Durante o filme, acompanhamos a jornada do soldado Zacarias (João Nunes), um jovem que, com toda a inocência, diz “trazer a guerra no pensamento e a pátria no coração”. Em plena Primeira Guerra Mundial, Zacarias quer combater os alemães em França; porém, é enviado para Moçambique para se juntar às tropas portuguesas. Em território moçambicano, apanha a malária e, uma vez deixado para trás pela sua companhia, decide deixar o acampamento e entrar na selva moçambicana para ir ao seu encontro.

 A narrativa foca-se na personagem de Zacarias. Assim que o jovem soldado tem o seu primeiro contacto com a paisagem selvagem e árida onde foi inserido, começamos a sentir as primeiras manifestações daquilo que vai ser a “presença-chave” de todo o filme, o fora de campo. O filme conta com a presença deste fora para dar peso à sua totalidade, com a pretensão de abraçar toda a narrativa. Todos os ruídos do meio selvagem começam a manifestar-se e a assombrar Zacarias, desde o início da sua jornada, fazendo chegar ao espectador a experiência subjetiva atormentada do soldado. Ao ver o filme, sei, tal como Zacarias, que aí se escondem forças cuja natureza selvagem podem, a qualquer momento, invadir o plano para destruir tudo o que nele está contido. E, no final, será mesmo essa consumação que fechará a narrativa.  Embora se deva dar todo o mérito à construção deste fora de campo, a tudo o que ele acarreta de destreza técnica, no que diz respeito à sua composição sonora, a verdade é que a sua natureza – que deve ser velada – mostra-se demasiado, desde cedo. Talvez por servir de base a todo o filme, acaba por nos querer dizer “escutem-me bem e contem comigo”, revelando demasiado a sua presença. A certa altura, senti que o filme possui um excesso de lastro técnico que o torna demasiado pesado e o impede de descolar. Os acontecimentos deveriam ajudar a velar esse fora, a desviar dele a nossa atenção para que ele nos pudesse surpreender com mais força. A presença alucinatória acaba por se estender a tal ponto que começa a monopolizar todas as outras forças psicológicas que deveriam emergir no seu interior, como a culpa pelo crime cometido, ou o surgimento de uma intensidade religiosa, ou o nascimento de um amor pela jovem da tribo que Zacarias conhece durante a viagem. Nenhum destes acontecimentos nos aparece humanizado ou desumanizado, uma vez que nenhum deles é vivido pela personagem, efetivamente. Essa dimensão psicadélica acaba por criar uma abstração excessiva que faz escoar a possibilidade de vermos alguma natureza – a natureza do homem ou a natureza da guerra.

Em meio a interpretações que lembram uma leitura mecanizada das linhas do guião, sem qualquer pingo de verdade, a presença de João Nunes torna-se um autêntico toque de Midas, capaz de salvar todas as cenas através da forma natural com que a sua atuação se contrapõe às falas excessivamente teatrais e marteladas dos seus colegas. O seu rosto inocente e expressivo torna-se um complemento significativo à sua atuação e que se fosse explorado criativamente como um rosto afetivo poderia aumentar o poder expressivo do filme ao traduzir, através de um fluxo de afetos, a natureza que o rodeia. É este poder expressivo que vemos em Flyora, no clássico “Vem e Vê” (1985), onde os planos de rosto de Flyora começam a condensar e a transmitir-nos todo o horror com que a personagem se vai deparando; em  “O Filho de Saúl” (2015) é também a centralidade do rosto que nos comunica o espaço e os acontecimentos que aí se dão. Algo tem de traduzir a natureza, tem de absorver os afetos, tem de criar intensidade ou contar-nos uma história.

O filme apresenta-se na evidência das suas qualidades técnicas, que acabam por acrescentar demasiado peso ao filme, sem que ele nos consiga convencer da sua magia. Os seus mecanismos estão muito expostos e começam a revelar demasiado da sua feitura. O excesso de desvelamento do fora de campo e a natureza alucinatória da subjetividade de Zacarias acabam por nos fazer sobrevoar aquilo que de mais concreto e (des)humano aquela caminhada de Zacarias teria para nos apresentar. O filme esconde-se na sua totalidade nas presenças vizinhas do plano que vão espreitando indiscretamente para dentro dele; no final, parece que é o filme que acaba por ser absorvido para dentro desse abismo que ele próprio criou.

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