Após conquistar quatro nomeações aos Óscares 2026, o filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, terá uma promoção especial nos cinemas brasileiros. A iniciativa foi anunciada esta quinta-feira (22) pela produtora Vitrine Filmes, em conjunto com o realizador, como forma de celebrar o desempenho histórico da obra.
A promoção segue até ao próximo domingo (25). Durante este período, os ingressos para o longa-metragem serão vendidos ao preço de meia-entrada em 25 salas de cinema distribuídas por todo o país. A medida surge num momento de grande visibilidade para o filme, que já ultrapassou a marca de 1,5 milhão de espectadores nos cinemas nacionais.
O Brasil volta, assim, a ter uma presença expressiva na principal premiação do cinema mundial. Depois de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, ter vencido, no ano passado, o Óscar de Melhor Filme Internacional, o país soma agora quatro nomeações com “O Agente Secreto”, nas categorias de Melhor Filme (Emilie Lesclaux), Melhor Filme Internacional, Direcção de Elenco (Gabriel Domingues) e Melhor Actor, para Wagner Moura, que se torna o primeiro actor brasileiro a ser nomeado nesta categoria.
A última vez que uma produção brasileira alcançou tal número de indicações foi em 2004, com “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, que, apesar de ter sido ignorado na categoria de Melhor Filme Internacional no ano anterior, recebeu quatro nomeações, incluindo Melhor Realização, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.
Naquele mesmo ano, o brasileiro Carlos Saldanha também foi indicado ao Óscar de Melhor Curta-Metragem de Animação pelo filme norte-americano “Gone Nutty” (2003).
Nesta edição dos Óscares, o Brasil estará ainda representado por Adolpho Veloso, nomeado para Melhor Fotografia pelo filme americano “Sonhos e Comboios”. Veloso venceu recentemente o prémio na mesma categoria nos Critics Choice Awards 2026, o que reforça as expectativas em torno da sua candidatura à estatueta.
Sessão gratuita
O público paulistano poderá assistir ao filme gratuitamente no domingo (25), em sessões realizadas em diferentes espaços culturais da cidade, entre eles o Centro Cultural São Paulo, a Galeria Olido e os CEUs. A iniciativa faz parte da programação especial do Circuito Spcine em celebração aos 472 anos da cidade de São Paulo.
Para além do filme de Kleber Mendonça Filho, estarão igualmente em exibição “Wicked: Parte 2”, “Amarela” e “Entre Penas e Bicadas”.
Os bilhetes devem ser levantados na bilheteira dos cinemas uma hora antes do início de cada sessão. A única excepção é a sessão ao ar livre de “O Agente Secreto”, no Jardim Suspenso do CCSP, cujos ingressos poderão ser retirados com duas horas de antecedência.
O Agente Secreto
Ambientado no Recife de 1977, sob o peso asfixiante da ditadura militar, “O Agente Secreto” constrói-se como uma narrativa de retorno e de exílio interior. Marcelo (Wagner Moura), professor universitário e especialista em tecnologia, regressa à sua cidade natal depois de um longo afastamento, carregando a sombra de um passado violento em São Paulo; um passado insinuado, talvez irredutível, que envolve um poderoso industrial e a disputa em torno de uma patente ou invenção.
A viagem de regresso não lhe devolve a pertença, mas expõe a fragilidade do seu lugar no mundo. Entre a tentativa de reencontrar o filho pequeno (guardado pelos avós maternos, sendo o avô projecionista no mítico Cinema São Luiz) e a busca clandestina por documentos que revelem o estatuto civil da mãe falecida, Marcelo move-se num território marcado pela constante ameaça, pela vigilância do regime e pela consciência de que o exílio definitivo poderá ser a única saída. O refúgio oferece-se num “aparelho”: espaço liminar, habitado por dissidentes, marginalizados e exilados, entre eles um casal de angolanos, o veterano Euclides e a figura maternal de Tânia Maria.
À medida que tenta reintegrar-se no quotidiano, descobre que a cidade se tornou um organismo vigiado e corrompido, submetido a dispositivos tecnológicos de controlo que ampliam o alcance do poder autoritário. O protagonista vê-se então enredado numa teia de espionagem e conspirações, onde dilemas morais e afectivos se entrecruzam com a necessidade de preservar os seus e de confrontar segredos que não pertencem apenas à sua memória individual, mas também à memória colectiva da sua família e do país.
A obra de Mendonça Filho expande-se, assim, para além do enredo, configurando-se como reflexão sobre os mecanismos da repressão, sobre a vigilância como forma de poder, sobre a manipulação da verdade e a persistência da resistência. O filme, que cruza suspense, drama e a arquitectura narrativa do thriller, é também um ensaio cinematográfico: mistura crítica social, evocação de traumas históricos e ressonâncias do folclore local, numa mise-en-scène que devolve à História brasileira a sua dimensão trágica e espectral.

