“O Professor Bachmann e a sua Turma”: o professor jardineiro numa viagem de florescimento

Se considerarmos o sentido etimológico de educar como alimentar (“educare”), e se alimentar for no sentido de (pre) encher, então poderíamos ter a escola, em que o professor oleiro enche e preenche o aluno vasilha como se ele se tratasse de uma tábua rasa ou de uma folha em branco e a função da educação fosse depositar-lhe informação sem a preocupação com a necessidade de acolhimento e assimilação.

Nada está mais distante e opostamente talhado daquilo que o Professor Dieter Bachmann alimenta nos jovens alunos da sua turma. Aquilo que há a esculpir são as pedras dispostas no exterior, à espera que os alunos delas se aproximem, tal como Bachmann espera paciente e discretamente que os alunos se apoderem dos instrumentos de que dispõem e, por meios deles, façam novas formas. Da mesma forma que das pedras se tiram para fora novas formas, também noutro sentido etimológico de educar, encontramos o tirar para fora (“educere”), e este sim está presente nesta turma. Nós temos o privilégio de assistir ao documentário de Maria Speth, “O Professor Bachman e a sua Turma” (Herr Bachmann und seine Klasse) para que testemunhemos o que é educar e, assim, possamos renovar a nossa esperança no mundo.

O Professor Bachmann e a sua Turma (2021)

Não se trata de um tirar para fora na medida em que se transmite informação, mas antes uma atenção e cuidado na selecção, e numa alusão à tese platónica de reminiscência, é como se o aluno encerra em si mesmo as condições de possibilidade que o professor cuidadosamente tira para fora, no objectivo do melhor florescimento possível. Por conseguinte, este alimentar não é jamais o (pre)encher, é antes o alimentar como estar disponível para e cuidar, numa escola estufa e com um professor jardineiro. Bachmann é o professor jardineiro, pois está disponível para ouvir e guiar o seu aluno a florescer, tendo em conta o cuidar das suas condições de desenvolvimento, isto é, o seu contexto e a sua especificidade. Quer isto dizer, Bachmann escuta e conhece as pessoas por detrás e que passam por dentro dos alunos da sua turma.

Ao embarcarmos no visionamento deste documentário embarcamos na viagem de um ano lectivo da vida de uma turma de uma escola alemã, em Stadtallendorf, constituída por alunos de diferentes origens e etnias. É genuinamente uma viagem com um guia, onde não há caminho, há o caminhar em comunidade, na medida em que educar como viagem prende-se em larga medida com a existência como um caminho a fazer. Os caminhos da viagem não são impostos, faz parte da autonomia do aluno aprender a escolher e a tomar decisões, pelo que a avaliação é um processo partilhado, transparente, e as regras de convívio e participação são discutidas em grupo. O ensinar e o formar são indicar caminhos, que se espera conduzam a uma emancipação. Os alunos de hoje são os cidadãos de amanhã, participantes na continuidade do mundo e por isso mesmo, criadores de um juízo, fazedores de um novo mundo, pensadores do estado do ser e do estar.

O desejo de compreensão do mundo é, já em si mesmo, fazer – mundo, pois requer uma atitude experienciadora, e constitui uma alternativa à mesmidade, ao inconformismo e à involução. O mesmo é dizer que no espaço de aula da turma do professor Bachmann não cabem frases feitas, infundamentadas ou raciocínios que não passem pelo crivo do autoexame e da autocrítica. É o profundo desejo de compreender o mundo que começa pela rejeição do estereotipado e do dado como conforme. As formas para serem esculpidas não são dadas a priori, e isso justifica que os currículos se perspectivem como construções e hipóteses, e não como produtos ou pontos de chegada. Assim, a aprendizagem da língua alemã está ao serviço do contar uma história, e as histórias de vida estão ao serviço da abertura de darmos a conhecer visões do mundo. Não há a imposição da visão única, todas as histórias contam, e todas as posições merecem debate. O debate que Bachmann promove para ouvir as razões que fazem uma jovem sentir repulsa perante a homossexualidade, ou o que faz os jovens sentirem-se estranhos na presença de uma mulher que cobre a cabeça, ou por que é que um jovem não ajuda uma colega, culpabilizando-a por ser menos capacitada, entre outras questões que surgem ao longo do documentário.

Esta necessidade de compreensão acerca do mundo em que nos encontramos inseridos traz à tona a emergência da reflexão acerca das feridas do passado. Numa clara recusa a escamotear a tragicidade da história alemã no decurso da segunda guerra mundial, os alunos participam em exposições e discutem a temática no decurso das aulas, não somente para compreender as raízes de onde se encontram, mas fundamentalmente por que a educação acarreta uma dupla responsabilidade: a de transmissão de conhecimento do que o mundo é, mas também de formação e de questionamento do que o mundo poderá ser. É aquilo que Hannah Arendt, a filósofo judia que cobriu o julgamento de Eichmann e nos alertou para a urgência de pensar o mal para impedir que seja praticado banalmente, atribui ao educar, a saber, a missão da vida e desenvolvimento das crianças na sua inserção no mundo velho, e a da continuidade do mundo em si mesmo que se renova constantemente pela novidade da natalidade.

Dieter Bachmann

Em suma, neste documentário, o professor assume-se como guia da viagem que é o educar, e acima de tudo como companheiro de viagem dos alunos que entram a bordo para aprender e crescer.

Assim, na dimensão inter-subjectiva do professor e do aluno, e numa óptica de responsabilização da acção educativa do professor, o aluno não está isolado na viagem. O professor faz (sempre) parte do caminho.

 

Skip to content