“Olhar o Sol”: a infelicidade genética

“Olhar o Sol”, a segunda longa-metragem da realizadora alemã Mascha Schilinski, chega aos cinemas portugueses com muito boas referências
"Olhar o Sol", de Mascha Schilinski © FabianGamper_StudioZentral "Olhar o Sol", de Mascha Schilinski © FabianGamper_StudioZentral
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“Olhar o Sol”, a segunda longa-metragem da realizadora alemã Mascha Schilinski, chegou aos cinemas portugueses com muito boas referências. Vencedor do Prémio do Júri em 2025 em Cannes e o filme escolhido para representar a Alemanha nos Óscares, mergulha nas vidas de quatro raparigas (Alma, Erika, Angelika e Lenka) que vivem numa quinta do Norte da Alemanha no decurso de um século.

Formalmente, “Olhar o Sol” é um filme atraente, sobretudo pela sua fotografia e pelas prazerosas escolhas de planos que faz (embora não menos previsíveis), mas à medida que a história se desenrola, desencandeia-se no espectador um cansaço que se prende com o conteúdo.

As linhas que se cruzam nas histórias das várias raparigas, que aparentam querer-se inteligentes e bem tecidas, soam mais a exercício de virtuosismo vazio do que propriamente a enredo profundo.

Cada uma das protagonistas vive em épocas muito diferentes, mas, na verdade, o mundo masculino que enfrentam é muito semelhante. Nele, as mulheres são objectos de desejo e dor, independentemente da idade, e é a isso que são reduzidas em “Olhar o Sol”.

Esse aspecto torna o filme apenas num ciclo vicioso e não num movimento de libertação, até porque o passado do espaço sobrepõem-se ao seu presente e mesmo as fronteiras que as jovens mulheres do presente atravessam são apenas reflexos amargos de limitações antigas.

São gestos que se repetem nos mesmos espaços físicos, protagonizados pelos mesmos cordeiros sacrificiais, supondo-se que podem ocorrer ad aeternum, embora certos momentos ofereçam raros sopros de esperança.

Em cada uma das histórias, Schilinski recolhe pormenores subtis que se tornam em pontos de união, mas ao fazê-lo parece querer forçar o espectador a ver aquilo que é suposto, não deixando liberdade de interpretação ou espaço criativo. A pequena irmã de Alma, imortalizada no daguerreótipo, no início do filme, conecta-se obviamente à fotografia de família em que Angelika se transforma involuntariamente num fantasma de si mesma, mas seria bom poder imaginar estas ligações.

O fascínio de Angelika pelo tio está intimamente ligado ao de Erika pelo seu tio Fritz, mas o que revela é pouco mais que um retrato, um decalque fragilizado de uma época para outra.

Certo é que a História teima em repetir-se, como tão bem o presente tem mostrado, mas este tipo de fatalismo desesperançado que perpassa com insistência em “Olhar o Sol” não traz nada de novo. São pessoas tristes e amarguradas, presas a escolhas que têm a ver não só com o contexto, mas com a hereditariedade da sua tristeza, passada pela genealogia da Eva mitocondrial.

A perna perdida do pobre tio Fritz empalidece perante tanto sofrimento feminino. Um membro fantasma, apenas um membro, desaparecido até para salvar e não para condenar, e, mesmo assim, tantas são as mulheres que se oferecem para consolar o pobre homem.

Por contraste, as dores femininas são como cicuta tomada em pequenas doses diárias e transformam-se numa companhia amarga e inevitável, risos que querem ser lágrimas e que não encontram consolo em lado algum.

Oculto no silêncio de “Olhar o Sol” nem sempre se encontra virtuosismo e o seu aspecto formal em muito contribui para tal, como uma espécie de artifício à prova de bala. O que lá pode estar quando se levanta esse bonito véu é um exercício de deslumbramento com as próprias ideias, não necessariamente a enguia premiada.

Não que seja tempo perdido, masOlhar o Sol não queima propriamente as retinas ao ponto de ficar na memória. Tendo em conta que a memória é o seu ambiente, isso talvez seja o seu elemento mais problemático.

"Olhar o Sol", de Mascha Schilinski © FabianGamper_StudioZentral
“Olhar o Sol”: a infelicidade genética
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