Às vésperas da 96ª edição dos Óscares, surge uma reviravolta: o guionista britânico Simon Stephenson, conhecido por seu trabalho em filmes como “Paddington 2” (2017), de Paul King e “Luca” (2021), do italiano Enrico Casarosa, acusou David Hemingson e Alexander Payne de “Os Excluídos”, de plágio.
Um problema de crédito
Segundo apurado pela jornalista Tatiana Siegel da revista Variety, em 12 de janeiro, Simon Stephenson enviou um e-mail para Lesley Mackey, diretora sênior de créditos do Writers Guild of America, pedindo para marcar uma ligação para discutir um assunto importante.
Stephenson escreveu:
“Encontrei um problema relacionado aos créditos em um projeto de alto perfil coberto pela WGA”.
De acordo com a troca de e-mails revisada por Siegel, ocorreu uma ligação entre os dois e, em uma carta de acompanhamento, Stephenson escreveu:
“a evidência de que o roteiro remanescente foi plagiado linha por linha de Frisco é genuinamente esmagadora – qualquer um quem olha até mesmo para a mais breve amostra invariavelmente usa a palavra ‘descarado’”.
“Frisco”, alegadamente plagiado, nunca teve a chance de ganhar vida nas telonas.
No entanto, em 2013, conquistou o coração de Hollywood, figurando em respeitável terceiro lugar na Black List, uma seleção anual dos argumentos mais notáveis que, infelizmente, não chegaram a ser produzidos.
A reclamação
A alegação de plágio feita por Simon Stephenson contra David Hemingson e Alexandre Payne provocou um intenso diálogo entre o guionista e a WGA, estendendo-se por várias semanas sem que se chegasse a uma conclusão. O ocorrido veio a público nesta semana, mais especificamente neste sábado, dia 8.
Recentemente, a situação ganhou novos contornos com o contato de mais dois membros do conselho com Stephenson. Eles relataram que o assunto ainda estava em debate dentro do WGA, evidenciando que o caso havia gerado controvérsia e dividido opiniões entre os membros da organização.
Todavia, embora Stephenson tenha apresentado evidências, o Sindicato dos Roteiristas dos EUA (WGA) optou por não se envolver na disputa.
Ele foi encaminhado à advogada associada da instituição, Leila Azari, que deixou evidente que este não é um problema sindical, embora ele, Hemingson e Payne sejam todos membros.
Azari observou:
“Reivindicações relacionadas a plágio e/ou violação de direitos autorais não são arbitráveis no âmbito do MBA. Você e eu também discutimos o Artigo X da Constituição da Guilda. As ações de plágio e violação de direitos autorais exigem necessariamente uma extensa investigação e descoberta de fatos, o que não estaria disponível para você em um processo do Artigo X. Além disso, um processo do Artigo X não poderia fornecer a reparação que você está buscando; ou seja, reconhecimento de sua autoria do roteiro e/ou compensação monetária da [financiadora de ‘Os Excluídos’] Miramax. Uma ação judicial continua sendo a opção mais viável dadas as circunstâncias.”
Ou seja, a alegação do sindicato foi que um processo judicial seria muito caro e o guionista poderia não ter condições de bancá-lo.
Ao se esquivar da situação, o WGA permitiu que o problema se agravasse, tornando-se também uma questão para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos.
Semelhanças
“Frisco” apresenta um drama centrado em um médico infantil de meia-idade, desiludido com o mundo, e em seu paciente de 15 anos, por quem acaba responsável.
Já em “Os Excluídos”, de David Hemingson, o enredo se concentra em um professor de internato também de meia-idade, igualmente desgastado pelo mundo, e no aluno de 15 anos que se torna sua responsabilidade.
Payne foi conivente?
A principal reivindicação de Stephenson reside na alegação de que o realizador Alexander Payne teve acesso ao argumento de “Frisco” em duas ocasiões: em 2013 e novamente no final de 2019.
Essa coincidência temporal, próxima ao momento em que Payne abordou Hemingson para colaborar em seu projeto, levanta a suspeita de que o realizador possa ter se inspirado em “Frisco” para a criação de “Os Excluídos”.
E-mails obtidos pela Variety reforçam a alegação de plágio contra o Payne e Hemingson.
Os documentos revelam que, há cinco anos, Payne recebeu o argumento de “Frisco” da Netflix para realiza-lo.
Entretanto, ele optou por realizar “Os Excluídos”, assumindo em entrevistas ter colaborado no argumento original do novo filme sem receber créditos por isso.
Um caso isolado?
Embora raros, os casos de plágio de argumento, principalmente aqueles que se tornam públicos, marcaram a história do cinema.
O caso mais conhecido é o do humorista Art Buchwald, que processou a Paramount Pictures por plágio em sua comédia “Um Príncipe em Nova Iorque”, estrelada por Eddie Murphy. Após uma batalha legal de sete anos, Buchwald venceu o caso e recebeu uma indenização de US$ 825 mil.
Num episódio mais recente, os herdeiros do falecido dramaturgo Paul Zindel alegaram que Guillermo del Toro apropriou-se de elementos da peça de Zindel, “Let Me Hear You Whisper”, para seu filme vencedor do Óscar, “A Forma da Água”, e entraram com um processo por violação de direitos autorais.
Ainda assim, o caso acabou sendo arquivado.
O que define um plágio?
A definição legal de plágio é complexa e não oferece uma delimitação clara do que configura essa prática, resumindo-se, em termos gerais, à cópia não reconhecida de material alheio.
Porém, como observa Tatiana Siegel, a disputa entre “Frisco” e “Os Excluídos” pode ser um prenúncio do que está por vir com o avanço da tecnologia e a crescente sofisticação das ferramentas de reconhecimento de padrões.

