Estamos no limiar de uma enorme cascata, naquilo que presumimos ser o nosso planeta, onde de forma bastante cerimonial uma criatura de aspecto humano bebe um liquido, sacrificando-se e caindo na água enquanto o seu corpo se desfaz. É assim que começa “Prometheus”; de forma enigmática, grandiosa e bela quanto baste. Ridley Scott avisou que “Prometheus” não é uma prequela directa de “Alien – O 8º Passageiro” mas sim um filme que explora uma mitologia e um mundo em comum com aquele da saga Alien, respondendo a algumas questões deixadas por essa mesma saga mas com uma narrativa que vai mais além, separando-se da fonte original e criando algo mais profundo, capaz de se suportar a si mesmo. O senhor Scott avisou e o senhor Scott cumpriu!

Finalmente pude cessar a espera que durava já meses, dirigi-me ao multiplex de cinema mais próximo e pude então ver um dos filmes que para mim era o mais aguardado do ano. O filme, antes de mais, oferece um razoável numero de ligações a “Alien”, e isso irá agradar aos fãs mas é importante referir que pessoas que nada saibam sobre o o universo de “Alien” vão poder desfrutar de um bom filme de Ficção-Cientifica sem que para isso tenham de perceber essas mesmas ligações; será uma experiência diferente de espectador para espectador, mas agradável em ambos os casos. A nível visual, tudo o que o trailer prometia é oferecido ao longo do filme, tendo “Prometheus” algumas imagens que irão certamente ficar para a história do género, bem como Cinema em geral.  O 3D é usado de forma bastante suave e não numa tentativa constante de atirar coisas na direcção do espectador, muito pelo contrário, o 3D oferece profundidade e um maior sentido espacial que ajuda na imersão ao filme. Não diria que ver o filme em 3D é fundamental mas ainda assim digo que vale bem o preço extra do bilhete. O argumento apesar de alguns pontos fracos (nomeadamente o comportamento desleixado de uma tripulação que se diz composta por cientistas mas que raramente age como tal) funciona bastante bem, sendo que o primeiro acto de “Prometheus” está composto de forma magistral, investindo totalmente o espectador na narrativa a nível emocional, principalmente se o filme for visto sem qualquer tipo de conhecimento em relação à narrativa (coisa que os trailers têm tendência para evitar!) já que existem alguns “twists” pelo caminho, alguns agradáveis, outros nem por isso. Para quem está á espera de um tipo de terror igual do de “Alien”, ou de “Tubarão” por exemplo, “Prometheus” troca um bocado as voltas e oferece não tanto uma violência implícita e escondida por detrás de truques de realização mas sim algo mais aberto e com um ritmo mais acelerado (por vezes até um pouco de mais) mas com cenas igualmente fortes e marcantes, capazes de fazer os mais sensíveis desviarem o olhar.

Outro ponto forte do filme é a presença de David, o andróide interpretado por Michael Fassbender que tem tanto de apaixonante como arrepiante, dando uma espécie de mistura entre a personagem de Rutger Hauer em “Blade Runner” e do Robô HAL 900 em “2001 – Odisseia no Espaço”. Fassbender é já claramente um actor de enorme qualidade e isso notasse no seu trabalho ao longo do filme. Igualmente enigmática está Charlize Theron, cuja personagem Meredith é o mais próximo que temos de um vilão convencional. Quanto ao resto do elenco, é de destacar também Noomi Rapace, que criou na arqueóloga Elisabeth Shaw uma heroína dura, idealista e crente, e que é impossível de não comparar a Ellen Ripley; Idris Elba como Janek, o capitão da nave e ainda Guy Pierce (por detrás de camadas e camadas de látex) a interpretar o bilionário Peter Weyland, o megalómano fundador do projecto “Prometheus” que dá origem a tudo o que acontece neste filme, bem como em todos os outros 4 “Alien”.

Ver “Prometheus”ao fim de meses e meses de espera e antecipação efervescente podia ser perigoso. As expectativas eram simplesmente demasiado altas e a julgar pelos últimos dois trabalhos do realizador (“Body of Lies” em 2008 e “Robin Hood” em 2010) este filme poderia não ser tão espectacular como os fãs da saga Alien esperariam que fosse. Mas por acaso é! Ao ver “Prometheus”, mesmo com as suas falhas e pontas soltas, não posso deixar de pensar em filmes como “2001…” e “Blade Runner”, que têm tanto de belo como de complexo, filmes capazes de criar horas e horas de discussão sobre mitologias e filosofias por detrás de cada plano e de cada acção, onde as coisas não aparecem só “porque sim” mas porque há um motivo. “Prometheus” claramente dá um empurrão ao género da ficção científica, elevando a fasquia para os restantes filmes que por aí virão ainda este ano (que diga-se desde já, 2012 será um bom ano para o Sci-fi!).

Realização: Rideley Scott

Argumento: Damon Lindelof, Jon Spaihts

Elenco: Michael Fassbender, Charlize Theron, Noomi Rapace, Idris Elba, Guy Pierce

EUA/2012 – Ficção Cientifica

Sinopse: Uma expedição espacial em busca do maior de todos os segredos, torna-se num desafio à perseverança e sobrevivência da tripulação quando confrontada com um pesadelo como a humanidade nunca viu.

«Prometheus» - O regresso de Ridley
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