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“Arena”, “Rafa” e “Montanha” criaram a reputação que João Salaviza tem hoje: um dos cineastas mais promissores da Europa. O realizador trouxe uma nova identidade e elegância técnica ao cinema português, que sempre foi um caso à parte, por ser um país com uma população pequena, e com um público cinéfilo ainda mais reduzido, ganhando prémios no Festival de Berlim e no Festival de Cannes.

O cinema de Salaviza tem voz própria, uma voz que relata a adolescência, os corpos em transformação – um corpo que se encontra suspenso entre o fim da infância e o início da idade adulta – e os becos sem saída. As suas obras respiram as formas do classicismo, de filmes como “Os Verdes Anos” e “O Sangue”, e também reminiscências do cinema mudo.

O tríptico de Salaviza: “Arena”, “Cerro Negro” e “Rafa”

A prisão é tema central desta ‘trilogia acidental’. Salaviza ainda está em início de carreira, no entanto criou já uma linguagem bastante forte e demarcada de outros grandes realizadores que começaram a sua filmografia a explorar o formato de curta-metragem, como Miguel Gomes e João Nicolau. Salaviza interessa-se por episódios da vida da classe baixa, tanto urbana como suburbana, desenraizada do próprio meio onde vive e sobrevive. E a prisão, essa grande obsessão pela não mobilidade. Mauro, em “Arena”, vive em prisão domiciliária. Em “Cerro Negro”, uma mulher visita o seu marido numa prisão. Em “Rafa”, um rapaz tenta libertar a mãe que foi detida por conduzir sem carta.

O primeiro capítulo surge em 2009. Arena é o drama de Mauro (Carloto Cotta), em prisão domiciliar, que sofre de bullying das crianças vizinhas, que vivem no bairro de Chelas, em Lisboa. O jovem recluso recusa-se a pagar 20 euros a um dos miúdos por uma tatuagem mal feita, e é espancado por este e pelos seus amigos, de quem depois se vinga.

Os planos, as coreografias e os diálogos pejados de calão sustentam uma violência evidente. Tal como nas arenas de outrora, estes gladiadores de Chelas carregam sangue e suor. Carloto Cotta, dando vida ao protagonista, consegue dar um ar amigável, apesar de ter feito algo condenável, visto estar em prisão domiciliária.

João Salaviza, com a sua primeira curta-metragem profissional, arrecadou a Palma de Ouro em Cannes, algo inédito no cinema português.

“Cerro Negro”, uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2012, segue um casal de emigrantes onde Anajara visita o seu marido na prisão. A obra revela-se em duas partes de uma história comum, com a relação entre dois espaços, bastante opostos mas também bastante semelhantes – o lar e a prisão (um não-lar). Anajara e Allison são duas solidões que, separadas à força, se tentam proteger uma a outra. Nesta trilogia, além da reclusão, outro tema explorado é o das relações familiares e da pertença – “Cerro Negro” é o que assume estes temas de forma mais evidente. Valeu a Salaviza o prémio de melhor realizador no festival IndieLisboa.

O último capítulo chega no mesmo ano. “Rafa” é essencialmente um filme sobre o crescimento. Rafa atravessa a ponte, deixando a sua aldeia suburbana, e aventura-se na grande cidade, fazendo-se do homem da família. É o ritual de iniciação. Encontrar Rodrigo Perdigão foi como encontrar ouro. Salaviza explicou, em entrevista ao JL, que foi difícil encontrar “um miúdo que trouxesse os últimos vestígios da infância mas que ao mesmo tempo sentisse a responsabilidade da vida adulta” (28 de outubro de 2015). Rodrigo Perdigão foi o milagre.

Com “Rafa”, Salaviza ganha Urso de Ouro de Berlim e encontra o seu lugar no universo.

Montanha: os corpos entre o sol, os prédios e a escuridão

“Montanha” chega em 2015, a primeira longa do realizador. Numa Lisboa geométrica e vazia, David circula pelos prédios, esperando que o avô fique melhor. O cenário escolhido foi novamente o bairro dos Olivais, dos anos 60, construído para que pessoas das mais variadas classes sociais vivessem em comunhão. Uma utopia, portanto. Tal como a essência do filme: Salaviza quis filmar a adolescência de uma forma onírica e perigosa.

“Montanha” vive das ilusões e desilusões de David, um miúdo rebelde, e frágil, que procura a sua infância perdida, sobrevivendo às angústias da adolescência, por entre a escuridão dos apartamentos e as ruas claras e paralelas dos prédios dos Olivais, e sonhando com um futuro inexistente, num Portugal vazio, sem tempo. O filme é filmado com planos fixos, sem grandes movimentos de câmara, e a luz e a fotografia, de Vasco Viana, rompem com o naturalismo. David Mourato, que faz surgir David, é comovente: com a sua inexperiência no campo da representação, leva muito de si próprio para a construção dos diálogos.

“Montanha” é um retrato social, num contexto de crise no país, na escola, na família. Assim fecha-se um ciclo no cinema de Salaviza: o da adolescência. Chega-nos assim a confirmação de um grande cineasta.

A Filmin PT, em jeito de homenagem, oferece uma retrospetiva sobre o cineasta português, durante o presente mês.