Este filme gerou uma enorme polémica quando foi lançado aos olhos do público. Não seria para menos, pois as imagens que contém são de tal modo excessivas que não deixam espaço para meigas interpretações, tudo parece demasiado evidente e objectivo, ou vemos ou desistimos.

“Salò ou os 120 dias de sodoma” (1975) foi a minha introdução ao cinema de Pier Paolo Pasolini. O argumento é baseado na obra “Os 120 dias de Sodoma”, que Marquês de Sade escreve, no ano de 1785, enquanto esteve preso na Bastilha. A obra conta-nos a história de quatro fascistas libertinos, sádicos e poderosos, que por puro regozijo, convocam um grupo de jovens para se fecharem durante 120 dias num castelo, completamente subjugados às regras dos libertinos.

A história constrói-se numa lógica de escalada de terror, que passa por três ciclos, as manias, as fezes e o sangue. Por estas três fases da história, os corpos são expostos desde de “micro-violências” como a sua exposição nua na selecção dos jovens até à mais brutal tortura e morte. De facto, se as palavras que Sade desenha numa folha nos fazem imaginar, com dificuldade, a dureza das imagens que ele escreve, Pasolini expõem, de forma crua, aquilo que a imaginação tem dificuldade em conceber, que parece ultrapassar os seus limites. Gilles Deleuze, filósofo francês que viveu durante o século XX, afirmou que o pensamento só se ativa com a violência com que os signos embatem na nossa sensibilidade e com isso perturbam a harmonia das nossas faculdades intelectivas. Este filme bombardeia, por completo, o nosso espírito; é tal a agitação que ele provoca que me estranharia alguém que dedicou a sua atenção a ele, não sentir uma revolução interior, quase uma espécie de epifania.

Sabemos que Pasolini sempre foi um crítico corrosivo do capitalismo e da sua ideologia consumista. O que nos resta depois da morte de Deus senão a nossa incapacidade para controlar as torrentes desejantes que nos impelem para novas formas de violência e sangue? Ao perdermos esse céu de valores que, por muito tempo, julgamos eterno e intocável, perdemos também o mais importante poder, o poder sobre nós mesmos. Se ainda havia transcendência, embora doente porque nos separava daquilo que podíamos, hoje a transcendência foi mutilada por uma vontade que amiúde se dissolve por entre uma vasta fauna de objectos que a apequenam; o espírito ganhou nesse falso pluralismo uma nova jaula, a pior das jaulas, porque lhe dá a sensação de liberdade, como se o poder que tinha sido separado e castrado pela religião, hoje se ache pleno porque anárquico e ilimitado. Existe, hoje, um novo fascismo que não é mais aquele que vive das transcendências, da verticalidade totalizadora; o fascismo dos dias de hoje é mais eficaz, mais perigoso, mais aperfeiçoado, porque nos dá um estranho sentimento de liberdade que nos diz que nos cumprimos ao alimentar todas as fomes de um desejo tiranizado e dominado pelos objectos. Hoje, a transcendência confunde-se com a assimilação plena do objecto de desejo, sem resto; mas a transcendência é sempre esse resto, o que sobra, o intervalo entre mim e o Outro, é aquilo que contém uma inesgotabilidade, uma impossibilidade de apropriação, de consumo, de uso, de manipulação. A ausência desta transcendência é a presença mais viva deste filme.

Pasolini não se preocupa muito com as questões formais, não força nenhuma beleza imagética para dentro da sua obra, pois basta a crueza daquilo que apresenta para nos dar a imagem de uma sociedade entregue à sua ilusão de omnipotência. Aquilo que podemos ver com frequência nos seus enquadramentos são espelhos que parecem multiplicar infinitamente o espaço, quase como se fosse o único espaço de fuga possível desde todo o horror que aquelas paredes encerram.

Morre deus, morre o homem e nasce o mais absoluto dos niilismos. Este filme é uma obra cinematográfica que tem a necessidade de existir, e isso percebeu bem Pasolini, pois vemos nele um espelho de uma sociedade que perdeu qualquer ponto de referência, qualquer elo de ligação a uma ideia que nasça do nosso potencial criativo para a criação de uma visão ampla sobre o mundo.

Realização: Pier Paolo Pasolini
Argumento: Pier Paolo Pasolini; Sergio Citti (argumento)
Elenco: Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle
Itália; França/1975 – Drama
Sinopse:  No norte de Itália em 1944, a República de Saló permanecia sob o controlo nazi. Quatro homens de poder, posição e prestígio, reunem à força 16 jovens belos e perfeitos de ambos os sexos, que levam com criados e guardas armados para um palácio perto de Marzabotto. Aí três senhoras de meia idade contam bizarras histórias que os senhores recriam ou parodiam no palácio servindo-se dos jovens de forma arbitrária. Passam assim pelos ciclos das Manias, da Merda e do Sangue, num crescendo de deboche, delírio sexual, humilhações, torturas e finalmente morte.

«Salò ou Os 120 Dias de Sodoma» – O que nos resta depois da morte de Deus?
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