«Sangue do Meu Sangue» – As palavras de ordem são “Amor” e “Redenção”

Todos os anos o cinema português pode orgulhar-se de ter estreado pelo menos uma obra-prima. Em 2010 tivemos a sorte de assistir a algo extravagante, estrearam três obras-primas do cinema nacional, “Filme do Desassossego”, “Mistérios de Lisboa” e “José e Pilar”. Este ano temos visto bons filmes como “América”, “Viagem a Portugal” e “A Morte de Carlos Gardel”, entre outros. Mas nada que se compare com “Sangue do Meu Sangue”, a sétima longa-metragem de João Canijo. Vou ser bastante claro, “Sangue do Meu Sangue” é sem dúvida o melhor filme português do ano e um dos melhores deste século.

O novo filme de Canijo começou a manifestar-se no Festival de San Sebastian, onde acabou por receber dois prémios, uma Menção Especial do Júri do Prémio “Otra Mirada” e o prestigiado Prémio da Crítica Internacional. Desde a sua estreia em Portugal, 5 de outubro, já foi visto por mais de nove mil pessoas, tornando-se assim no filme de ficção português mais visto do ano.

A intriga deste filme é até simples e aborda questões sociais bastante comuns na nossa sociedade, passa-se no maior bairro social da Grande Lisboa, em que uma família, constituída por uma mãe (Rita Blanco), uma tia (Anabela Moreira), uma filha (Beatriz Batarda) e um filho (Rafael Morais), debate-se para sobreviver. Mas Canijo consegue elaborar algo raro no nosso cinema, elevando ao máximo a narrativa e as personagens. É um filme bastante realista, que nos mostra o quanto importante é o amor de uma mãe e principalmente o amor da família e de como devemos todos nos manter unidos, nos bons e nos maus momentos. Esta família acaba por servir como um bom exemplo da nossa sociedade atual, onde a presença do pai é por vezes nula. Levando a que o papel da mãe seja fundamental, criando uma espécie de super-mãe que com muita coragem e sacrifício fazem tudo para garantir o futuro dos seus filhos. Neste família temos quatro elementos que se dividem em dois grupos, a mãe (Márcia) e a filha (Claúdia) formam um grupo e o filho (Joca) e a tia (Ivete) outro. A Ivete, que nunca foi mãe de verdade, acaba por ser uma mãe de substituição para o Joca. Apesar das muitas diferenças e intrigas dentro da família, a força desta família, aquilo que a mantém unida, é o amor incondicional.

Canijo é conhecido pelo seu extraordinário trabalho de atores, que não é nada comum em Portugal, sendo muitas vezes comparado com o inglês Mike Leigh. É fascinante o trabalhado de atores que Canijo desenvolveu com este soberbo elenco, dominado por personagens femininas. Rita Blanco está perfeita no papel da super-mãe corajosa, numa das suas melhores interpretações de sempre. Sempre que esta entrava em campo e ouvíamos os seus diálogos, deixava-me preso à imagem sem pestanejar. Também Anabela Moreira tem aqui uma excelente prestação, como uma tia que apesar de se sentir muito abandonada e inútil no seio desta família, sacrifica-se perante um dealer para salvar o seu sobrinho. Rafael Morais, o delinquente da família, Beatriz Batarda, outro pilar problemático deste grupo e Nuno Lopes, o dealer que corrói lentamente esta família, registaram soberbas interpretações.

Há ainda o espantoso trabalho de câmara de João Canijo, que não é muito frequente nas suas anteriores obras. Canijo desenvolve aqui um especial trabalho de enquadramento e de movimentos de câmara. No mesmo enquadramento podemos ter duas ações ou mais em simultâneo, em que as personagens dialogam em simultâneo, obrigando ao espectador que opte por qual dos diálogos deve ouvir. Ao principio poderá ser um pouco confuso para alguns, mas no decorrer do filme vão aceitando, tornando até a experiencia cinematográfica bastante dinâmica, pois dá a possibilidade ao espectador de fazer escolhas, algo que é muito raro no cinema. A câmara torna-se assim um elemento pesado e essencial. Enquanto tudo isto acontece temos como som de fundo, durante quase todo o filme, sons da “vida”, ou seja, sons que estão sempre presentes no nosso quotidiano, principalmente em bairros sociais, como ouvir casais a discutir, o som da televisão a passar futebol ou telenovelas, a rádio, etc.

Aquilo que parecia ser uma terrível tragédia acaba por terminar mais ou menos bem, tornando este no primeiro filme de Canijo em que o amor salva, em que há um final que acaba bem. Este é um filme pesado, com quase três horas, cru e realista que talvez não seja de fácil visualização para a maioria das pessoas. Mas garanto que não se vão arrepender, pois o filme consegue agarrar o nosso olhar durante todo o filme, deixando-nos no final com vontade de ver mais, de saber mais e de ver a fantástica Rita Blanco no papel daquela mãe que tenta salvar esta família. João Canijo apela, com este filme, a uma união nas famílias.

“Sangue do Meu Sangue” é um filme obrigatório a ver, pela sua beleza crua e realista e pelas magistrais interpretações deste elenco.

Realização: João Canijo

Argumento: João Canijo

Elenco: Rafael Morais, Nuno Lopes, Fernando Luís, Rita Blanco, Cleia Almeida, Anabela Moreira

Portugal/2011 – Drama

Sinopse: Márcia mora com a irmã, Ivete, num bairro camarário dos arredores de Lisboa. Juntas, criaram os filhos de Márcia: Cláudia, que estuda enfermagem e é caixa num supermercado, e Joca, que se tornou num pequeno delinquente. Um dia, a vida da família é abalada para sempre: Joca tentou enganar o dealer para quem traficava e é apanhado; e Cláudia apresenta à mãe o seu novo namorado, seu professor e muito mais velho. E quando esta o conhece, percebe que tem de fazer tudo para acabar com a relação, assombrada por uma tragédia sem nome. Esta é uma história de amor incondicional, de sacrifício e de redenção.

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