O diretor geral do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, comentou a atual disputa entre o festival francês e a Netflix durante uma sessão de perguntas e respostas no Rome Film Fest, que termina no próximo dia 29 de outubro. Com estas declarações a baixo, Thierry dá a entender que há a possibilidade de Cannes voltar a aceitar filmes da Netflix em 2019.

Cannes recebeu dois filmes da Netflix para competição em 2017 (“Okja”, de Bong Joon-ho, e “The Meyerowitz Stories”, de Noah Baumbach), causando um alvoroço nos distribuidores franceses. A proibição da competição para quem se recusasse a se comprometer com a distribuição cinematográfica na França seguiu em 2018.

Frémaux explicou que não concorda nem discorda com a direção do festival que o forçou a emitir a proibição. “Eu não sou a favor nem contra a Netflix”, disse ele. “O meu trabalho é mostrar o estado do cinema numa altura em que Martin Scorsese está prestes a lançar um filme produzido pela Netflix. Em 2017, a diretora do festival pediu-me para não aceitar mais nenhum filme que não seja exibido nos cinemas. Isso não é estranho se pensar que os exibidores fazem parte do conselho de administração. E eles estão certos em preocupar-se com essa tendência”.

Sobre a próxima edição, Frémaux deu a entender que as negociações estão em curso. “Eu gostaria de exibir todos os filmes de que gosto. Não pude receber alguns em 2018 (por causa da proibição à Netflix). Vamos ver por volta de 2019. Temos de aguardar pela próxima edição do festival.”

Por fim, Frémaux comentou o aumento do estatuto do Festival de Cinema de Veneza e a sua relação com os estúdios norte-americanos. “Eu não percebo essa obsessão com os filmes americanos. O meu amigo (o diretor do festival de Veneza) Alberto Barbera não teve o filme de Koreeda, nem filmes coreanos, egípcios ou libaneses em competição. Eu acho que um festival deve mostrar o cinema do mundo inteiro. Ainda assim, tivemos o filme de Spike Lee e John Cameron Mitchell. Veneza joga o seu jogo e faz bem exibir filmes da Netflix se Cannes não o faz. Também fazem bem lançar-se aos Óscares porque a imprensa está mais obcecada com essa noite de março do que com os seis meses de julho a outubro.”

Numa entrevista à Variety em março de 2018, Thierry tinha dito que “No ano passado, pensava que podia convencer a Netflix, mas eles recusaram-se (a exibir os filmes nos cinemas). É o modelo económico deles e eu respeito, mas o nosso objetivo é o cinema e queremos que os filmes que estão em competição sejam exibidos. Este é o modelo dos cinéfilos e a Netflix deve respeitá-lo.” Acrescentou ainda “Dito isto, a Netflix é bem-vinda em Cannes fora da competição oficial e da Un certain regard. Encontrámos-nos recentemente em Paris, o diálogo continua e tenho a certeza de que será produtivo. Eles querem muito voltar e nós também queremos que eles voltem.”