Trilogia “Pusher”, de Nicolas Winding Refn, chega restaurada à MUBI a 18 de julho

A trilogia “Pusher” revisita o desencanto europeu dos anos 1990 com violência, mudez e uma câmara que não pisca
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Três décadas depois de ter redefinido os contornos do cinema criminal europeu, Pusher regressa em versão restaurada. A trilogia que revelou o cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn e o ator Mads Mikkelsen, então ainda desconhecido fora da Dinamarca, estará disponível com exclusividade na MUBI a partir de 18 de julho.

Rodado nas ruas escuras de Copenhaga nos anos 1990, o primeiro Pusher inaugurou uma abordagem crua, estilizada e visceral ao submundo da droga e da violência, antecipando uma estética que Refn levaria a Hollywood em filmes como “Drive” e “Demônio de Neon. A trilogia conta também com Kim Bodnia e Zlatko Burić, num retrato da marginalidade sem glamour, marcada pela tensão latente e uma constante sensação de desmoronamento.

Mais do que uma crónica de gangsters, Pusher é um estudo de masculinidade e desespero. O filme teve trajetória internacional expressiva ainda na década da sua estreia. Foi exibido nos festivais de Toronto, Cannes (na Semana da Crítica) e Londres, já anunciando o surgimento de um realizador singular. A nova versão restaurada teve estreia mundial em 2024, na secção Venice Classics do Festival de Veneza.

Revisitar Pusher hoje é reencontrar um cinema europeu que, nos anos 1990, procurava novas formas de representar o colapso. Entre espasmos de violência e uma câmara de urgência quase documental, Refn assinava ali o início de uma filmografia onde estilo e abismo caminham juntos.

Pusher

Frank, interpretado por Kim Bodnia, é um pequeno traficante de drogas que enfrenta a pior semana da sua vida. Uma negociação mal-sucedida envolvendo heroína deixa-o endividado com Milo, o implacável chefe do tráfico oriundo dos Bálcãs. O tempo corre contra ele. À medida que os dias passam, Frank move-se entre becos e dívidas, tentando desesperadamente reunir o dinheiro necessário enquanto o cerco se aperta. O fracasso dos seus planos leva-o a encarar não apenas o mundo violento à sua volta, mas sobretudo a espiral autodestrutiva que ele próprio alimentou.

A história tem continuidade em “Pusher II: Mãos de Sangue” (2004), centrado em Tonny, vivido por Mads Mikkelsen. Rejeitado pelo pai e pelas estruturas que o rodeiam, Tonny tenta afirmar-se num mundo onde a masculinidade está colada ao fracasso, à violência e à expectativa de poder.

Em “Pusher III: O Anjo da Morte” (2005), o foco recai sobre Milo, interpretado por Zlatko Burić. Agora envelhecido e mais vulnerável, o chefe do crime luta para manter o controle do seu império em declínio, enquanto enfrenta os próprios vícios e os desafios de uma nova ordem criminal.

Ao longo da trilogia, o que começa como um retrato cru do submundo de Copenhaga transforma-se num estudo feroz sobre poder, lealdade, sobrevivência e decadência. Cada filme investiga os limites da moral num universo em que cada escolha parece empurrar os personagens mais fundo no abismo.

A versão restaurada da trilogia Pusher resgata o vigor de uma narrativa que marcou uma geração. Mais do que um regresso, trata-se de uma redescoberta, num tempo em que o cinema continua a procurar imagens capazes de encarar a ruína de frente.

Nicolas Winding Refn

Nicolas Winding Refn tornou-se um nome incontornável do cinema europeu contemporâneo desde que estreou com Pusher, nos anos 1990. Realizador e argumentista dinamarquês, Refn construiu uma filmografia marcada por excessos estilísticos, narrativas de violência contida e personagens à beira do colapso.

Ganhou notoriedade internacional com Drive” (2011), uma reinvenção minimalista do thriller americano moderno, premiado em Cannes na categoria de Melhor Realização. Seguiram-se títulos como Só Deus Perdoa(2013), uma fábula sangrenta e silenciosa ambientada em Banguecoque, e Demônio de Neon” (2016), sátira visualmente hipnótica sobre o mundo da moda, que também integrou a competição oficial em Cannes.

A sua trajectória já revelava singularidade desde os primeiros anos. Com Bronson” (2009), protagonizado por Tom Hardy, Refn foi nomeado ao Grande Prémio do Júri no Festival de Sundance. Ainda antes disso, Bleeder(1999), seu segundo longa-metragem, foi seleccionado para o Festival de Veneza, consolidando a reputação de um autor que, desde cedo, apontava para os extremos da forma e da psicologia.

Mais do que um estilista, Refn tem sido um tradutor das tensões internas do masculino, da cidade e da imagem. E Pusher, sua obra inaugural, continua a ser o ponto de partida indispensável para compreender um cinema que se recusa a suavizar os contornos do declínio humano.