Este é um daqueles filmes que deve ser visto por todos, mas sobretudo por qualquer cinéfilo que queira ter conhecimento de um pequeno pedaço, mas fulcral e negro, da história do cinema americano. “Trumbo”, realizado por Jay Roach (“A Campanha”), é um retrato biográfico sobre Dalton Trumbo, um dos mais importantes argumentistas da era dourada de Hollywood, mas também um dos homens mais perseguidos durante a chamada época da “Caça às Bruxas” ou do Macartismo, pelas suas ligações ao Partido Comunista. A histeria anti-comunista assolava a sociedade e o governo dos Estados Unidos, era o inicio da Guerra Fria.

A narrativa desta cinebiografia foca-se exactamente neste período da vida de Dalton Trumbo (1905-1976) em que ele e nove outros argumentistas, produtores e realizadores foram chamados a depor na comissão parlamentar de inquérito da Câmara dos Representantes dos EUA, presidida pelo senador Joseph McCarthy. Estas dez personalidades ficaram conhecidas como “os dez de Hollywood”. Trumbo recusou-se a acusar os colegas e foi condenado a um ano de prisão, passando a integrar a primeira lista negra de Hollywood. Depois de cumprir a pena, Trumbo ficou proibido de trabalhar em Hollywood, mas não desistiu e arriscou continuar a escrever argumentos, mas desta vez usando pseudónimos. Secretamente acaba por vencer dois Óscares com os filmes “Férias em Roma” (1953) de William Wyler e “O Rapaz e o Touro” (1956) de Irving Rapper. Mais tarde consegue finalmente ver o seu nome a ser creditado em “Exodus” (1960) de Otto Preminger, e o ator Kirk Douglas tornou público que foi ele o responsável pelo argumento de “Spartacus” (1960) de Stanley Kubrick.

O filme não pretende retratar a vida de Trumbo ou explorar o processo criativo, como pensava nas histórias, nas personagens, as suas referências, etc. “Trumbo” foca-se sim na luta do argumentista pela liberdade e sobrevivência, ou seja, pretende reconstituir um período especifico da América dos anos 1950, que ele viveu.

Um comunista em Hollyood é sempre um tema interessante a explorar e Hollywood gosta de se ver retratada no cinema, mesmo as historias mais negras, nem que seja para se tentar redimir dos erros do passado. Este foi o período mais negro da história política americana, a ‘Caça às Bruxas’. Joseph McCarthy foi o homem responsável por tudo isto, tendo acusado nomes como Charlie Chaplin, Leonard Bernstein, Orson Welles e muitas outras pessoas ligadas à cultura. Foi uma época que destruiu carreiras de muitos profissionais em Hollywood.

O filme recorre por vezes a imagens de arquivo de época das audiências do Comité de Investigações de Actividades Anti-Americanas, o que o torna ainda mais interessante. Assim como alguns excertos de filmes que foram produzidos nesse período e escritos por Trumbo, como “Férias em Roma”, “Spartacus” e “O Rapaz e o Touro”. Assistimos aos bastidores de Hollywood e de como todas estas personalidades lidaram com este assunto, como por exemplo: Kirk Douglas, Jown Wayne, Otto Preminger, Edward G. Robinson, Hedda Hopper, Arlen Hird. Esta reconstituição histórica em “Trumbo” apresenta assim um lado didático para qualquer cinéfilo.

“Trumbo” é um filme leve, que não regista nada de novo e que não se leva muito a sério, o que é pena. Assim como as personagens secundárias não são aprofundadas como o mereciam. Isto deve-se ao facto de este ser o primeiro filme que não é uma comédia realizado por Jay Roach. “Trumbo” sobrevive sobretudo pela narrativa, os bons diálogos, e a cima de tudo, pelo bom elenco que tem: Diane Lane, Helen Mirren, Louis C.K., Elle Fanning, John Goodman e Michael Stuhlbarg, entre outros. Mas é Bryan Cranston quem suporta este filme até ao fim. A sua magnífica prestação do conceituado romancista e argumentista Dalton Trumbo é a grande surpresa deste filme e que mereceu a nomeação ao Óscar de Melhor Ator, a única que o filme conseguiu.

Realização: Jay Roach

Argumento: John McNamara, Bruce Cook

Elenco: Bryan Cranston, Diane Lane, Helen Mirren, Louis C.K., Elle Fanning, John Goodman, Michael Stuhlbarg

EUA/2015 – Biografia

Sinopse: Nos anos 40, a carreira de sucesso do argumentista Dalton Trumbo chega a um fim quando ele e outras figuras de Hollywood entram na lista negra pelas suas convicções políticas. Esta é a história da sua luta contra o governo norte-americano e os patrões dos Estúdios, numa guerra pelas palavras e a liberdade, que envolveu todos em Hollywood, desde Hedda Hopper e John Wayne, até Kirk Douglas e Otto Preminger.

«Trumbo» - Um comunista em Hollywood
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