“Urban Cowboy”: a vida medida em dois tempos

Pavoneamo-nos como Travolta, mas por dentro seguimos crianças confusas em busca de um brilho no breu
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"Urban Cowboy" (1980), de James Bridges

Sabe aquela sensação de ter passado o dia inteiro a vender a própria alma por um salário que mal chega para o arrendamento? Não estou a falar de drama shakespeariano nem de desabafo de terapeuta. Falo da fadiga, aquela que te amassa o corpo e, de um modo sutilmente perverso, acende um fogo na cabeça assim que o sol se põe. Aquela sensação de sair do escritório e sentir o perfume de café velho misturado com a poluição da cidade, o cheiro do metro lotado e o zumbido das conversas paralelas que não querias ouvir, mas que não podes evitar.

Estava a pensar nisso tudo ao rever Urban Cowboy” (1980), o filme do John Travolta que ninguém lembra, sabes? Dei-me conta de que o nosso quotidiano não mudou muito. Já não se troca a camisa de flanela pelo chapéu de cowboy, nem se usam jeans apertados com aquela convicção juvenil. O cenário é outro: escritório climatizado em vez de refinaria texana, metro lotado em vez de estrada poeirenta. Mas a urgência de escapar à noite… essa mantém-se intacta.

Pensa no Bud. O coitado sai da fazenda ou de qualquer sítio longínquo e chega a Houston cheio de expectativas. Promessa? Um emprego com cheiro a petróleo, sem aventura nenhuma. Um rapaz cheio de ambição vaga, daquelas que não sabemos bem onde encaixar. A rotina diurna é uma chatice sem fim. E é aí que a coisa desanda e fica interessante.

O escape dele é o Gilley’s. Imagina só: um espaço gigante, quase um hangar para mais de sete mil pessoas. Não é um bar, é um parque temático da força em disfarce, daquilo que fingimos ser quando a rotina nos esmagou. Não se vai lá para conversar sobre o dia; vai-se lá para esquecê-lo. Quase uma cerimónia wicca. O cheiro a cerveja morna, suor e madeira antiga mistura-se com o aroma de couro das botas e chapéus, enquanto a música alta, um country melodramático entoado por Lookin’ for Love”, do Johnny Lee, sacode-te da monotonia e da mesmice que o emprego te impõe.

Cinco dólares para montar o touro mecânico. A madeira range sob o teu peso, o metal estala a cada movimento, e os risos, gritos e aplausos atravessam o espaço, ressoando como ecos de uma emancipação efêmera. Por uns segundos, esqueces a conta do arrendamento e o chefe que não para de telefonar. Provar para quem? Para o espelho embaçado? Para a malta que bebe à volta, balançando copos meio vazios? Ou para aquela parte de nós que se sente pequena na rotina da refinaria, agarrando-se a qualquer sinal de vida que ainda reste?

O touro não é só um brinquedo. É um atestado de que ainda tens força e determinação para alguma coisa. É a versão nocturna do Bud que o chefe não vê, que o contracheque ignora. E, claro, há a dança, o two-step texano, desculpa para roçar ombros, sentir o calor de outros corpos e flertar no meio da música que abafa o som dos sonhos adiados. Se tudo falhar, sempre se pode encher a cara e arranjar uma briga.

O que me fisga neste filme é a sinceridade sem filtros. Bud conhece a Sissy (Debra Winger), que chega e domina tudo com aquela voz rouca, de quem fumou mais do que devia. Casam-se rápido, sem sequer se conhecerem direito. Dois náufragos agarrados a qualquer boia que apareça, na esperança de que a vida ofereça mais do que o tédio diário. O primeiro encontro na cama deve ter sido um foguete, a prova de que ainda estavam vivos. Mas, como quase tudo que nasce da pressa e da carência, a coisa arrefece depressa, mais rápido do que a cerveja que alguém esqueceu no balcão do Gilley’s.

A vida real entra pelo Gilley’s. O casamento não é a aventura prometida. Sissy aprende a montar o touro. Bud imagina que ela o trai com o Wes, o ex-presidiário sinistro que opera a máquina. A ironia é deliciosa. Ela só quer domar o mesmo símbolo de força que ele exibe como se o mundo inteiro estivesse a olhar, enquanto ele, distraído como sempre, fixa-se na Pam, a patricinha que sorri como se tivesse ganho na lotaria. Bud troca desejo por prestígio, subindo degraus que ninguém lhe prometeu. Sissy troca conforto por perseverança, aquela que o Wes, beberrão, mal-humorado e sempre à espreita, parece ter de sobra. No fundo, é um pequeno teatro de vaidades, ego inflado e corações à deriva, e eles nem desconfiam.

O Wes, interpretado pelo Scott Glenn, é um tipo que assusta só de olhar, mas fascina como se fosse um imã. Raiva contida, aquele lado bruto do Velho Oeste que nunca aprendeu a obedecer. Ele e a Sissy conectam-se na margem, no que há de mais cru, mais real, e, convenhamos, um bocado excitante também.

No fim, o filme não é só chapéus e rodeios. É um retrato de como tentamos dar um jeito na vida, de como procuramos algum controlo quando a rotina nos esmaga. Não mandamos no salário, no chefe, nem no preço da gasolina. Mas podemos escolher o que vestir, que música ouvir e por quanto tempo aguentamos montados naquele touro maldito, real ou metafórico. A banda sonora com Willie Nelson arremata: “A nova vida não é uma vida boa, mas é a minha vida”. A vida nocturna pode ser um lixo, superficial, até levar-nos pelo mau caminho, mas, por algumas horas, é a nossa bagunça, a nossa escolha.

A aventura, no fundo, não está em largar tudo e ir ver o pôr-do-sol na praia. Está em sobreviver à segunda-feira e ter a audácia de fingir que és caubói, DJ, chef gourmet, ou seja lá o que for, na terça à noite. Pavoneamo-nos como Travolta, macho alfa fake, mas, por dentro, somos só crianças confusas a tentar sobreviver à rotina, à procura de um brilho fugaz no meio do breu. E essa busca, meu amigo, é o que move a cidade e, de certa forma, mantém-nos a respirar.