«Wild Rose – Rosa Selvagem» – Três acordes e a verdade

Ainda antes do caos provocado pela pandemia, os cinemas portugueses foram a tempo de ver estrear “Wild Rose – Rosa Selvagem”, um dos dois filmes de Tom Harper estreados em 2019, a par de “Os Aeronautas” (ainda que “Wild Rose” tenha chegado aos ecrãs lusos já em 2020). Ainda que uma proximidade temporal possa dar a tentação de uma análise conjunta dos dois filmes, são obras suficientemente distintas para que não seja necessário fazer estes paralelos. Enquanto “Os Aeronautas”, ainda que com elementos biográficos, invista mais na grandiosidade e efeitos especiais (um filme mais comercial, se se quiser usar a palavra), “Wild Rose” trata uma história mais crua e mais pessoal.

O filme retrata uma etapa na vida de Rose-Lynn (Jesse Buckley), uma jovem escocesa que desesperadamente pretende tornar-se uma estrela de música country em Nashville, uma vez que “Glasgow é demasiado pequena”. Embora ainda nos seus 20 e poucos anos, tem já dois filhos e um longo historial de problemas com as autoridades (inclusive o filme inicia após a sua saída da prisão, após o período de um ano). Algo que chama logo a atenção do espectador é a interpretação de Jesse Buckley, uma prestação dinâmica e energética, num modelo que se tem visto com frequência nos últimos tempos (como em “Her Smell – A Música nas Veias” ou “Vox Lux”), ainda que este facto não lhe tire o mérito.

Com o desenvolver da ação, Rose percebe um pouco melhor que a sua vontade de prosseguir carreira na música cria conflitos com o seu estatuto de mãe, a sua relação com os filhos, com a sua mãe e com a sua conceção de futuro. Estas problemáticas foram durante muito tempo ignoradas pela personagem, que nunca ponderou que a sua vida familiar estivesse a ser degradada por causa do seu sonho.

Ainda assim, a energia que Jesse Buckley transporta para a sua música revela o sentimento daquilo que a música country traz para aqueles que a adoram que, como a personagem diz ao longo do filme, não são mais que “três acordes e a verdade”, seja pelo sentido de humor ou de isolamento, que acabam por ser dois sentimentos que Rose experiencia em grande escala ao longo do filme. Embora tenha acabado de sair da prisão e tenha dois filhos para sustentar, continua a ter o seu sonho aliado ao seu talento.

Vê-la a lutar contra os conflitos internos acerca de quem ela é, quem quer ser e se consegue deixar para trás um grande sonho (que o talento lhe diz que merece concretizar) para fazer o que é correto para a sua família, é um percurso heroico, mas sem deixar de ser belo. Em particular, a canção final “Glasgow (No Place Like Home)” ficará certamente no ouvido do espectador muito, muito tempo.

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