Depois do artista plástico britânico Steve McQueen ter explorado a fome, em “Fome” (2008) e o sexo em “Vergonha” (2011), ele explora a escravidão e o racismo em “12 Anos Escravo”. Este é um filme sério e politicamente correcto sobre um dos temas mais delicados dos EUA, a escravatura, que em 2013 teve dois distintos retratos sobre esta temática, “Lincoln” e “Django Libertado”. No entanto, Steve McQueen aborda esta questão de uma forma nua e crua. Mais séria e realista.

Esta é uma história verídica que tem como base as memórias de Solomon Northup, que foi raptado e vendido como escravo no século XIX. A história passa-se em Nova Iorque, sobre Solomon (Chiwetel Ejiofor), um negro livre que vivia com a sua mulher e filhas e que tinha um enorme talento para tocar violino. Tentando conquistar uma vida melhor, os dois homens que o levam numa digressão, sequestram Solomon para que seja vendido como escravo. A partir deste momento ele é tratado como Platt e é violentamente forçado a omitir a sua identidade. É comprado pelo dono de uma plantação no Louisiana, onde passará 12 anos até ser finalmente libertado.

Em termos de estrutura narrativa “12 Anos Escravo” é talvez mais convencional e simples, mas o realizador apresenta-nos um filme pesado, com planos bastante longos, num filme de quase três horas de brutalidade humana. De maldade humana. O espectador fica a torcer por Solomon até que este (ser injustiçado) seja novamente um homem livre. Muitas personagens entram e saem da história sem que fiquemos a conhecer o destino de muitas delas.

Nesta história fascinante e real é-nos dado o lado dos negros. O lado de quem sofreu, e escreveu um livro sobre essas terríveis memórias enquanto escravo. O lado de um realizador que também é negro e, portanto, melhor do que ninguém entende a injustiça e sofrimento por que Solomon passou.

Nos três filmes do realizador existe um corpo que está preso. O sentimento de reclusão transparece nos protagonistas das suas três obras até agora feitas. Está ainda mais presente em Solomon. A câmara movimenta-se de forma rigorosa pela cena, mantendo, sem cortes, o plano longo. Criando por vezes imagens poéticas e silenciosas, onde o objecto filmado ‘fala’ por si. O que torna a ação ainda mais realista e crua, nas cenas de violência (com ou sem chicote, onde até carne viva das costas salta), de nudez, violação e enforcamento. O fenomenal elenco realça ainda mais esse realismo nas personagens.  Um elenco rico composto por nomes bastante sonantes no cinema (Michael Fassbender, Brad Pitt, Paul Dano e Paul Giamatti) e outros menos, mas que dão aqui provas de grande qualidade de interpretação (Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o).

Magnifica realização de McQueen que nos transporta para uma realidade muito dramática, com imagens fortíssimas. Recorrendo a uma fotografia de época, os verdes, castanhos e brancos são os tons predominantes naquelas plantações de algodão do sul dos EUA.

Aclamado por unanimidade pela crítica americana, este é um dos mais sérios candidatos aos Óscares 2014. Conta ainda com 10 nomeações aos BAFTA e 7 para os Globos de Ouro. “12 Anos Escravo” é talvez o filme mais sério e verdadeiro sobre o racismo nos EUA, do século XIX. Penso que se pode afirmar, que no final de 2014, este será um dos melhores filmes do ano.

Realização: Steve McQueen

Argumento: John Ridley

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Adepero Oduye, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, J.D. Evermore, Sarah Paulson, Lupita Nyong’o, Alfre Woodard, Garret Dillahunt, Brad Pitt

Reino Unido/2013 – Biografia

Sinopse: Na pré-Guerra Civil dos Estados Unidos, Solomon Northup, um homem negro livre de Nova Iorque, é raptado e vendido como escravo. Enfrentando a crueldade mas também momentos de  inesperada bondade, Solomon luta não só para se manter vivo, mas para preservar a sua dignidade. Após 12 anos de uma odisseia inesquecível, Solomon conhece um abolicionista do Canadá que vai mudar para sempre a sua vida.

«12 Anos Escravo» - A verdadeira escravidão
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