Palavras ou expressões inventadas para o cinema de Wes Anderson como blasée, cartoonescos, planos a dedo, cenários pantónicos ou décors demasiado estilizados são o assobio para o lado de Anderson, realizador texano responsável pelo deserto sonoro que é “Asteroid City”, estreado por estes dias nas salas portuguesas.
Leva-nos até à década de 50 numa viagem pelo deserto onde se encontra um diner, uma cratera, um motel, uma estação de serviço e pouco mais. Uma viagem dentro de uma outra que é uma peça de teatro ou então uma encenação real. Muitas personagens, sim, porque a isso nos habituou e não acusam cansaço. Ao contrário de “French Dispatch” de 2021 que era um autêntico puzzle de referências e uma bonita obra não compreendida de homenagem ao jornalismo, aqui ficamos pelo subliminal. E se todos achamos que temos bom gosto e que odiamos que nos digam o contrário, ressalvo que estético neste imaginário Wendersiano não rima com patético. O que irrita é que em tamanho bom gosto ainda exista uma história difícil de contar e que ainda por cima fiquemos enternecidos, e tender rima com soigner.
Não acompanho o mundo do cinema com a devida assiduidade que me exigiria a mim própria, ou desejaria. Não sei se há mais realizadores a fazerem “este” cinema, mas o bom gosto não são as cores escolhidas a dedo e que deixa os espectadores em ponto de ebulição quando sabem que um Anderson está prestes para ser estreado e claro, criticado. Sendo redundante ao não, prossigo, não sei como em 1h44 se contaria tão bem várias vidas como Wes anderson tenta fazer. A pregunta sem resposta de como era a “nossa” mãe, o luto, as crianças, os adolescentes prodígio, as primeiras paixões…ou as últimas ou uma segunda oportunidade e ainda tempo para um sci-fi no topo que cria cringe aos que estão mais preocupados com a estática do que com a ética.
De Wes Anderson pouco se sabe da sua vida privada. Excêntrico? (ainda não tinha utilizado esta palavra clichê para o cinema de Wes Anderson aqui, peço desculpa, não vos queria desiludir) Com tremendo bom gosto? Ou estaremos nós habituados a uma tremenda falta dele? Parece-me um dos seus filmes mais pessoais ou assim eu o quis encontrar e apreciarei sempre a pessoa que é capaz de juntar outra vez Richard Hawley e Jarvis Cocker nos mesmos versos e acordes como em “You Can’t Wake Up If You Don’t Fall Asleep”.
E tamanho bom gosto redundante para ter um alien interpretado por Jeff Goldblum? Se isto não é o pícaro do conceito estético, não sei não…

