“Camarada Cunhal”, de Sérgio Graciano, estreia a 24 de abril

“Camarada Cunhal” assinala os 20 anos da morte de Álvaro Cunhal e estreia na véspera do 25 de Abril
Camarada Cunhal Camarada Cunhal
"Camarada Cunhal" (2025), de Sérgio Graciano

Assinalando os vinte anos da morte de Álvaro Cunhal, o thriller político “Camarada Cunhal”, de Sérgio Graciano, oferece uma leitura cinematográfica de um dos momentos mais simbólicos da resistência política em Portugal: a fuga da prisão de Peniche. A estreia está marcada para 24 de abril, véspera da Revolução dos Cravos.

Camarada Cunhal
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Camarada Cunhal

A história baseia-se no livro “Álvaro Cunhal, retrato pessoal e íntimo”, de Adelino Cunha, publicado em 2013. O foco está na famosa evasão de 1960, quando Cunhal, então um dos principais dirigentes do Partido Comunista Português, escapa da prisão de alta segurança de Peniche juntamente com outros nove presos políticos. A operação, meticulosamente organizada pelo PCP, tornou-se símbolo da resistência à ditadura.

O filme recria com rigor o clima de tensão da época, colocando o espectador dentro de um dos capítulos mais marcantes da história política nacional. A encenação da fuga é apenas parte de uma narrativa que também procura explorar a dimensão humana do protagonista.

No papel principal, Romeu Vala interpreta Álvaro Cunhal com intensidade e subtileza, tentando captar tanto o político determinado como o homem marcado pelas escolhas do seu tempo. O elenco inclui ainda Frederico Barata como Joaquim Gomes, membro do comité central do PCP, e Tiago Teotónio Pereira, no papel de um agente da polícia política.

Data simbólica

Produzido pela Sky Dreams e distribuído pela NOS Audiovisuais, “Camarada Cunhal” estreia nas salas de cinema na véspera de uma data que mudou para sempre o rumo de Portugal. O 25 de Abril não é apenas uma efeméride no calendário — é a memória viva de um país que, por fim, encontrou o caminho da liberdade.

Naquele dia de 1974, os militares insurgiram-se contra quase meio século de ditadura, mas não estavam sozinhos. O povo saiu às ruas, não com pedras ou armas, mas com flores — cravos vermelhos, oferecidos aos soldados que recusaram disparar. Colocados nos canos dos fuzis, os cravos tornaram-se o símbolo de uma revolução pacífica e inesperada, tão poética quanto poderosa.

A Revolução dos Cravos não libertou apenas Portugal. Três meses depois, a Guiné-Bissau conquistava o reconhecimento da sua independência. No ano seguinte, seguiram-se Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola. O fim do Estado Novo significava, também, o fim de um império — e o início de novos futuros.

Estrear “Camarada Cunhal” neste momento não é acaso: é reencontro com a história, com a coragem e com os ideais que ainda hoje ecoam nos muros, nas praças e nas palavras de quem acredita num país mais justo.

Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal foi um dos rostos mais emblemáticos da história portuguesa do século XX. Comunista convicto, dedicou toda a sua vida à luta pela liberdade, pelos direitos dos trabalhadores e por um país soberano, justo e igualitário. Ao lado do Partido Comunista Português, que integrou desde muito jovem, esteve sempre na linha da frente da resistência ao regime fascista e na construção do Portugal democrático após o 25 de Abril.

Nasceu em Coimbra, em 1913, e começou a sua militância enquanto estudante de Direito em Lisboa, onde se destacou pelo ativismo estudantil. Aos poucos, tornou-se uma das principais vozes da oposição ao Estado Novo.

Preso pela primeira vez em 1937, enfrentou torturas, isolamento e mais de uma década de cadeia. Mas nem isso o demoveu. Em 1960, protagonizou uma das fugas mais audaciosas da história portuguesa: a evasão da prisão-fortaleza de Peniche, ao lado de outros militantes comunistas.

Já na liderança do PCP, cargo que assumiu em 1961, participou ativamente na vida política internacional e, depois da Revolução dos Cravos, foi ministro em vários governos provisórios e deputado em diversas legislaturas. Mas Cunhal era muito mais do que político. Foi também escritor — sob o pseudónimo de Manuel Tiago — e artista plástico, deixando uma obra extensa e comprometida com as causas que abraçou ao longo da vida.

Mesmo depois de deixar a liderança do PCP, manteve-se presente nas decisões do partido e continuou a influenciar o debate político em Portugal. Álvaro Cunhal morreu em 2005, mas o seu legado continua vivo — como símbolo de resistência, de coerência ideológica e de uma entrega total aos ideais em que acreditava.