Há algo revelador naquilo que escolhemos ver quando estamos sós. O acto, aparentemente banal, de seleccionar um filme entre tantos disponíveis nas múltiplas plataformas de streaming pode, no fundo, dizer mais sobre o espírito do tempo do que ousamos admitir.
Recentemente, o JustWatch, reconhecido como o mais vasto e completo guia global de conteúdos digitais, deu a conhecer os dez filmes mais visionados no Brasil durante o primeiro semestre de 2025.
Alicerçado nas interacções efectivas dos utilizadores, esse levantamento esboça, sem qualquer ênfase, um retrato colectivo das nossas inclinações audiovisuais e, talvez, das urgências que nos atravessam.
A lista percorre um leque assaz heterogéneo: encontramos obras laureadas que descem dos circuitos festivaleiros até à sala de estar; thrillers políticos que exploram os subterrâneos do poder; dramas introspectivos que funcionam como retratos emocionais; animes que já extravasaram o seu reduto de culto; e os inevitáveis sucessos familiares, que persistem em reunir gerações em torno de narrativas partilhadas.
Num contexto em que o debate cultural tantas vezes se dilui na lógica do consumo imediato, essas escolhas revelam algo mais fundo. São obras que, ao alcançarem o topo das visualizações, não apenas entretêm ou distraem, mas insinuam, por vezes de modo imperceptível, as zonas onde ainda pulsa a nossa inquietação.
Os filmes mais assistidos
Por mais que nos esforcemos por organizar o gosto em listas, aquilo que verdadeiramente nos comove no ecrã, e nos impele a revisitar certas obras, escapa a qualquer métrica ou tentativa de catalogação.
O que leva um filme a figurar entre os mais visionados não é apenas a sua eficácia narrativa ou o seu apelo comercial, mas, sobretudo, a capacidade de responder a inquietações difusas, desejos colectivos ainda sem forma, mal-estares que anseiam por nome.
À luz disso, no primeiro semestre de 2025, os dez títulos mais vistos nas plataformas brasileiras revelam uma clara propensão ao mergulho interior, à reflexão sobre o corpo, à reinterpretação da fé e à busca de uma identidade num tempo saturado de ruído e sobreposição.
No cimo da lista encontra-se “Ainda Estou Aqui” (Globo Play), que reconstitui o Brasil dos anos 1970 sob o peso opressivo da ditadura militar. Através da história da família Paiva, cujas portas se mantêm abertas à amizade e ao afecto, o filme mostra o humor e a ternura como formas silenciosas de resistência. Mas a brutalidade do sequestro de Rubens, às mãos da Polícia Militar, rompe essa harmonia e obriga Eunice (Fernanda Torres) a reinventar-se, ecoando tantas mulheres forçadas a erguer-se entre os escombros do autoritarismo.
Em segundo lugar, “Conclave” (Prime Video) transporta o espectador aos bastidores do Vaticano, onde fé e ambição se entrelaçam num intricado jogo de poder. O cardeal Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes, vê-se enredado nas tensões de um conclave onde o sagrado e o político já não se distinguem com nitidez.
A terceira posição é ocupada por “Anora” (ClaroTV+), que observa com ironia e amargura o sonho americano. Ani, jovem dançarina de Brooklyn, aceita um casamento precipitado com o filho de um oligarca russo, numa tentativa de permanência nos Estados Unidos. O que se anuncia como conto de fadas revela-se, rapidamente, uma batalha pelo direito à própria história — uma crítica aos mecanismos de poder afectivo e social.
Em quarto lugar surge “A Substância” (Mubi), um inquietante mergulho no universo do body horror e da obsessão pela juventude. Elisabeth Sparkle (Demi Moore), actriz outrora consagrada, vê a sua carreira e o seu corpo ameaçados pelo tempo. Ao descobrir uma droga que promete devolver-lhe a melhor versão de si mesma, entra num território perturbador onde carne, desejo e angústia se fundem. As imagens, que levaram parte do público a abandonar as salas, não servem o choque gratuito: são metáforas viscerais de uma sociedade que exige a perfeição a qualquer custo.
“Um Filme Minecraft” (Max e ClaroTV+) ocupa a quinta posição com uma aventura que, sob a superfície lúdica, aborda temas de inclusão, colaboração e reaprendizagem. Num universo cúbico e pixelizado, quatro personagens têm de reaprender a viver em conjunto e a reconhecer, na diferença, uma possibilidade de salvação.
Na sexta posição, “Pecadores” (ClaroTV+) entrelaça terror gótico, western e crítica racial. Michael B. Jordan dá corpo a irmãos gémeos que regressam à terra natal para abrir um clube de blues, enfrentando forças ancestrais e fantasmas do passado num sul dos Estados Unidos ainda marcado pelo trauma. A música, como nas tradições afro-americanas, é aqui tanto ferida como cura.
“Flow”, em sétimo, propõe uma fábula visual sem diálogos, onde um gato preto e outros animais percorrem um mundo alagado em busca de sentido e abrigo. A ausência de palavras torna a experiência sensorial, quase meditativa, enquanto a mensagem — sobre autenticidade, convivência e resistência à padronização — ressoa com rara subtileza.
Na oitava posição, “Robo Selvagem” (Prime Video) reflecte sobre a coexistência entre tecnologia e natureza. Roz, uma robô náufraga, desenvolve afectos e empatia numa ilha inóspita. A sua travessia é também uma alegoria sobre o que entendemos por vida, por cuidado, por vínculo — mesmo na ausência de humanidade biológica.
“O Brutalista” (ClaroTV+), em nono, acompanha a odisseia de László Toth e sua esposa, imigrantes europeus no pós-guerra que tentam reconstruir uma existência nos Estados Unidos. O projecto arquitectónico que lhes é oferecido torna-se símbolo das promessas e rupturas da utopia americana, entre memórias da guerra e esperanças que desabam em betão.
A fechar a lista, “Mickey 17” (Max e ClaroTV+) propõe uma distopia existencial sob o olhar singular de Bong Joon-ho. O protagonista, um clone condenado à repetição da morte e da substituição, confronta-se com questões de identidade, memória e controlo num universo onde a vida parece reprodutível — e descartável. A ficção científica aqui é linguagem para o delírio político, o ensaio filosófico, a crítica à era da replicação.
Metodologia
Os gráficos de streaming do JustWatch assentam na actividade efectiva dos utilizadores, incluindo cliques nas ofertas de streaming, adições às listas de interesse e marcações como “visto”. Os dados reflectem mais de 55 milhões de utilizadores mensais em 140 países, abrangendo mais de 4.500 serviços de streaming.

