A história da Cinderela é uma das narrativas infantis mais conhecidas e intemporais – hoje em dia, especialmente na versão “disneyficada”. Com raízes em culturas que vão das nórdicas às chinesas, está repleta de arquétipos que moldam o nosso imaginário.
No entanto, o foco mantém-se sempre na rapariga de bom coração e bela, explorada pela madrasta e pelas meias-irmãs. Num momento em que se valoriza inverter os pontos de vista das histórias tradicionais, Emilie Blichfeldt propõe em “A Meia-Irmã Feia” uma leitura desta narrativa a partir do olhar de uma das meias-irmãs, transportando a história para um enquadramento moderno e recuperando aspetos da versão original que foram “limpos” pela Disney.
Com um tom satírico e subversivo, o filme transforma a história num questionamento das estruturas patriarcais reforçadas por estes contos folclóricos, evidenciando, por exemplo, como a busca pela incorporação de padrões de beleza se revela uma armadilha sem hipótese de vitória.
Um dos pontos mais bem-sucedidos do filme é a forma como subverte o conceito de beleza presente na história original. Enquanto nesta a beleza simboliza bondade e a fealdade representa maldade, em “A Meia-Irmã Feia” essa lógica é invertida: a beleza é alcançada por meios dolorosos, transformando Elvira, a meia-irmã cuja história acompanhamos, num monstro malvado e invejoso. Assim, o filme converte-se numa fábula subversiva em que a beleza, e não a fealdade, revela a maldade.
Esta subversão é reforçada pelo humor cáustico e irónico que permeia o filme, bem como pelo recurso a elementos de body horror. Entretanto, o potencial satírico e subversivo parece nem sempre atingir o seu máximo, especialmente num contexto atual em que surgem múltiplos filmes que reconfiguram arquétipos e contos tradicionais com ironia e um olhar feminista sobre o terror. Dá-se a sensação de que o filme poderia explorar ainda mais profundamente estes temas, tornando-se mais impactante e memorável.
Apesar destas limitações, esta é uma primeira longa-metragem inquietante de Emilie Blichfeldt, que revela uma visão camp e subversiva. Com a interpretação impressionante de Lea Myren, “A Meia-Irmã Feia” apresenta-se como uma proposta de terror feminista que nos convida a questionar as estruturas enraizadas nas lições destes contos tradicionais, ao mesmo tempo que entretém com um humor mordaz.


