No rescaldo da morte da grande artista Agnès Varda, Vítor Belanciano, cronista do Público, num artigo recente, apontou para o seguinte:reconhecer as pequenas alegrias do quotidiano é essencial. Sem os outros somos menos que nada”.

Salientando o carácter humano das suas criações, quis abordar aquilo que mais o fascinava nela, e como conseguia transportar a sua beleza interior para os filmes: em muitos dos seus filmes os personagens possuíam humanidade, tentavam construir qualquer coisa de caloroso, procurando um certo recolhimento, existindo numa forma paciente de se procurarem a si e aos outros. Era como se em todos os seus projectos nos dissesse: sem os outros somos um mero espelho sem reflexo”.

De facto, Agnès Varda era capaz de elevar o espectador a uma dimensão sublime de simplicidade, amor e carinho pelas pequenas coisas, uma ambição genuína pelo que é belo e autêntico: nos seus filmes não havia a procura da grande felicidade inalcançável. Mas parecia existir essa crença de que por vezes basta o movimento de irmos na direcção dos outros, um vizinho, alguém com quem nos cruzamos na rua, ou gente que julgámos antes de conhecer, e algo pode acontecer. Era uma proposta de felicidade modesta, que até poderia parecer superficial, mas era real”.

Decerto, o cronista quis também chamar a atenção para o facto de hoje em dia estarmos um pouco perdidos de nós mesmos e daquilo que deve prevalecer no nosso universo de interioridade:mas até isso se pode dissolver, adormecidos que estamos, sem percebermos que esses instantes não virão até nós por acaso. Temos que reconhecê-los para ficarem connosco. Coisas sem importância, mas que por vezes nos reconciliam com isto. Uma boa conversa. Rirmos sem sentido aparente. Uma declaração de amor de alguém que também se ama. Um verdadeiro e prolongado abraço. À janela, com tempo, vendo as vidas passar”.

Assim, e a título de celebração pelo que de bonito se faz na sétima arte, numa vénia e distinção à figura emblemática de Agnès Varda, o autor quis enaltecer que para conseguirmos ir mais além emocionalmente, temos que valorizar a natureza das coisas e, sobretudo, aquilo que está dentro de nós:pensar na sociedade como uma grande família em que não se compete pela sobrevivência e onde todos têm as necessidades básicas garantidas. Ter tempo. Resistir ao ruído permanente. Imaginar, viajando, existindo. Às vezes é apenas isso. Andamos em círculos, em círculos, em círculos, à procura, e está tudo aqui”.

Agnès Varda tinha a capacidade de espalhar magia a partir de dentro. Foi uma grande perda para todos nós – mas estará, com certeza, imortalizada, para todo o sempre, nos nossos corações.