Hoje, dia 8 de março, celebra-se o Dia Internacional da Mulher que teve origem nas duas primeiras décadas do século XX, como forma de luta das mulheres por melhores condições de vida e de trabalho, bem como pelo direito de voto. Em Portugal esse direito de sufrágio só foi implementado na totalidade, sem qualquer discriminação, com aprovação da Constituição da República Portuguesa de 1976. “A Mulher no Cinema” é um tema vasto e complexo que seria bastante interessante abordar numa tese de doutoramento, por exemplo. Mas neste artigo pretende-se apenas prestar uma breve homenagem à Mulher, à Mulher vista pela sétima arte, feita por homens e mulheres. Mulheres que fizeram o bem e o mal, mas a verdade é que alguma coisa todas fizeram pela História do Homem.

É no inicio do século XX, nas sociedades ocidentais, que surgem os primeiros grandes movimentos feministas, composto por mulheres e homens, que defendiam os direitos das mulheres na sociedade, baseados nos ideias de liberdade, igualdade e fraternidade. No entanto esses direitos que as mulheres reivindicam ainda não foram cumpridos hoje. A mulher continua a ser inferiorizada, por exemplo, em muitas profissões e no mundo da arte. No livro “The Contest of Meaning” de Richard Bolton, o capítulo “Of Mother nature and Marlboro Men: An Inquiry into the Cultural Meanings of Landscape Photography”, escrito por Deborah Bright, a autora concebe uma diferenciação objectiva existente entre o feminino e o homem. Traduzindo à letra, ‘Mother Nature’ significa ‘Mãe Natureza’, ou seja, nascimento e fertilidade. A natureza é vista pelo ser humano como uma experimentação de sentimentos de admiração, espanto e contemplação, sendo que o homem pode se abrir às imagens da natureza antes mesmo da criação dos seus próprios símbolos. Por sua vez, o feminino sugere o autêntico e o puro, sendo por excelência uma energia portadora de coragem, de ideal e bondade. O feminino personifica um aspecto do inconsciente, denominado na psicologia, “anima”, o qual significa os sentimentos e a sensibilidade irracional inerente à capacidade de sentir a natureza. A natureza (o feminino) foi quase sempre visto (fotografado) por homens. A certa altura a autora ironiza quando encontra uma mulher fotografa, pois são bastante menos do que os homens. Ora no cinema acontece um pouco a mesma coisa, sendo que temos inclusive mais homens a ‘ver’ as mulheres do que mulheres a ‘verem’ a mulher, como é o caso do realizador espanhol Pedro Almodovar (toda a sua obra é dedicada às mulheres). Todavia é nos anos 70 “que se desenvolveu um conjunto importante de análises críticas e teóricas do cinema numa perspectiva feminista. Os inícios do movimento feminista no cinema foram quase exclusivamente de ordem prática, com a primeira geração de documentaristas feministas nos Estados Unidos (…) as primeiras análises tinham geralmente como tema ‘a imagem da mulher no cinema'” (1).

Quando falamos no papel da mulher no cinema, pensamos logo em atrizes, as grandes estrelas, divas da sétima arte que surgiram em força nos anos 20 em Hollywood, com o ‘star system’. Este modelo seguia uma lógica clássica na economia capitalista, que atribuía à estrela (o ator) uma aura própria, por ser a atração principal do filme. Ou seja, os estúdios passaram a especializar-se em determinadas géneros cinematográficos e a contratar atores e atrizes que tinham contrato para trabalhar apenas com esse estúdio. Criou-se portanto uma imagem da “star”, da vedeta, e eram obrigados a manter essa boa imagem para vender o filme. É assim que surgem pouco depois as primeiras revistas da imprensa cor-de-rosa. Os estúdios entravam em guerra para conseguirem ‘comprar’ as maiores estrelas. A Paramount, por exemplo, possuía as principais estrelas da época, como Mary Pickford, Douglas Fairbanks, Gloria Swanson, os irmãos Marx e Gary Cooper; e a Warner Brothers possuía estrelas como Lauren Bacall, Errol Flynn, Ingrid Bergman, Humphrey Bogart, Joan Crawford, Bette Davis e James Dean. Os estúdios americanos e europeus criaram grandes atrizes, verdadeiros mitos do cinema, como é o caso de Joan Crawford, Bette Davis, Mary Pickford, Marlene DietrichGreta Garbo, Ginger Rogers, Vivien Leigh, Julie Andrews, Grace Kelly, Judy Garland, Anna Magnani, Grace Kelly, Liv Ullmann, Marisa Paredes, Penélope Cruz, Meryl Streep, Julianne Moore e alguns símbolos sexuais de Hollywood (sex symbols), como é o caso de Jane Russell, Rita Hayworth, Marilyn Monroe, Sophia Loren, Lauren Bacall, Catherine Deneuve, Claudia Cardinale, Brigitte Bardot e Elizabeth Taylor. E a lista continuava, continuava e continuava…

Já no campo da realização ou da equipa técnica não são conhecidas tantas mulheres. Há algumas na área da montagem (diz-se aliás que as mulheres são excelentes editoras de imagem, como é o caso da mulher de Hitchcock, Alma Reville, por exemplo), do argumento e bastantes nas áreas do guarda-roupa, Maquilhagem e Cabelo. Agnès Varda, Agnieszka Holland, Leni Riefenstahl, Sofia Coppola, Jodie Foster, Mira Nair, Andrea Arnold e Jane Campion, são as realizadoras que mais se destacaram na história do cinema. Mas há mais! Não foi há muito tempo que vimos a realizadora Kathryn Bigelow a fazer história nos Óscares. Ela foi a primeira, portanto a única, a ganhar nesta categoria pelo filme “Estado de Guerra”, em 2010. Antes dela apenas três foram nomeadas em toda a história da Academia: Lina Wertmüller por “Pasqualino das Sete Beldades”, Jane Campion por “O Piano” Sofia Coppola por “Lost in Translation – O Amor é Um Lugar Estranho”. A própria constituição dos elementos votantes da Academia Americana descrimina o sexo feminino, sendo que em 5.800 membros, 77% são homens. Em festivais de cinema os júris começam já a ser mais equilibrados, com metade mulheres e metade homens. Em Portugal temos de facto um défice de realizadoras, sendo a Teresa Villaverde, a Margarida Gil,Susana de Sousa Dias e a Regina Pessoa as maiores referências do país.

Fora do cinema encontramos uma longa lista de mulheres que ficaram para a História, referências que inspiram outros seres humanos ainda hoje. Mas é preciso também não esquecermos aquelas que caíram no anonimato, que hoje não tem nome ou foram esquecidas pelas novas gerações. O cinema ao longo da sua história tem tentado contar as histórias de todas essas mulheres que de uma maneira ou de outra nos marcaram, para o bem e para o mal. É o caso de mulheres como Evita, Marie Antoinette, Marilyn Monroe, Margaret Thatcher, rainha Elizabeth, Édith Piaf, Julia Child, Pilar del Río, Aung San Suu Kyi, Cleopatra, Coco Chanel’s, Jane Austen, Joana d’Arc, Bonnie Parker, Beatrix Potter, Florbela Espanca, por exemplo, e futuramente a princesa Diana terá direito a um filme. Quanto às personagens ficcionais encontramos igualmente grandes mulheres, como é o caso de Mamma Roma em “Mamma Roma” (1962), Baby Jane Hudson em “Que Teria Acontecido a Baby Jane?” (1962), Margo em “Eva” (1950), Gelsomina em “A Estrada” (1954), Norma Desmond em “Crepúsculo dos Deuses” (1950), Leslie Benedict em “O Gigante” (1956), Gilda Mundson Farrell em “Gilda” (1946), Márcia Fialho em “Sangue do Meu Sangue” (2011), A Gamin em “Tempos Modernos” (1936), Anne em “Amor” (2012), Vienna em “Johnny Guitar” (1954), Ma Joad em “As Vinhas da Ira” (1940), Mouchette em “Amor e Morte” (1967) e Rosy Ryan em “A Filha de Ryan” (1970).

Há quem diga que para se fazer um bom filme basta uma mulher e uma pistola. No género Film Noir encontramos muito essa ideia, em ambientes expressionistas, com personagens masculinas anti-heróis, muitas vezes detectives privados que eram corruptos. Em muitos filmes noir o homem era fraco e a sua vida era arruinada quando este era apanhado numa teia de paixão e engano, por personagens femininas com o estereotipo de femme fatale (a mulher fatal). A mulher foi também muitas vezes usada narrativamente como um objeto sexual e belo servindo normalmente como um par romântico. Mas também ouve muitas heroínas e muitas ‘mães’. Elas são sedutoras, inteligentes, vingativas e divertidas. Falando de géneros do cinema, a mulher deu-se bem em todos eles, do melodrama à comédia e até mesmo no western (referência para “Johnny Guitar”, 1954), que é um género predominantemente dominado pela figura masculina. A Mulher nunca foi o sexo mais dominante no Cinema, no entanto isso é algo que tem vindo a ser contrariado aos poucos e o seu importante papel no cinema é inegável. Graças a um grande número de mulheres que lutaram para que as mulheres de hoje tenham direitos e sejam livres, as mulheres podem hoje cantar “como ela somos livres, somos livres, somos livres de voar”.

Notas:

1 – in “Dicionário teórico e crítico do Cinema”, de Jacques Aumont e Michel Marie, edições texto & grafia, 2008;