“A Voz Humana” – A Ânsia do Vazio

Um filme sobre o vazio, sobre o abandono, sobre a não existência. Um filme sobre o filme, sobre o fazer o filme, o não existir do filme. Um filme sobre o espaço, dentro do espaço, acerca do não existir do espaço. Um filme sobre estes tempos, tempos sem respiro e tempos de vazio.

Um filme sobre o filme que não existe é um sobre a existência e condição contemporânea do cinema? Sobre o que ele pode oferecer? A ilusão de si mesmo, a verdadeira falsidade de si mesmo, limpa e clara, artifício somente enquanto poço da imaginação onde um se pode lançar e nele simplesmente se relegar e deixar ir? Um filme luminoso e digital, um sol que entra (mas não entra), tudo se verá, à medida que lá se vai caminhando e mudando de divisão, juntamente com a câmara? Um filme-teatro, um teatro do filme, uma forma curta, digital, não tem metros, é um novo cinema? Com só duração e timecode, que já nem importunam, podemos regressar ao e rejubilar com o filme mais pequeno, a unidade diferenciada da norma, mas ainda concentrada, mais do que nunca, no corpo e na voz humana? Curto seja este novo Almodóvar. Muito cinema faz ele, em meia-hora.

As personagens: Ela (Tilda Swinton), algo desfocada pelo difusor, posta num amplo vestido vermelho, aberto, arqueado, iluminada por um dos lados, retrato e pose, esconderijo e equipamento fílmico. Plano disjunto, terá ela estado numa produção audiovisual, mesmo antes de entrar neste filme? O estúdio é fundo nunca visto, é a entrada antes de um outro mundo, o da efabulação, o da história, o do afundamento no imaginado. O filme (?) começa na pausa entre filmes, no intervalo entre trabalhos, entre criações? É o espaço de algum real? Ou é ainda a bela mentira do cinema? Nela, essa bela e doce ilusão da mentira, se começa.

Ela entra em casa. O sol ilumina. As malas estão à esquerda. O cão corre e fareja, gane e desespera. Corre. No quarto, salta para a cama. Um fato sem corpo. Meticulosamente estendido. Ele cheira-o. Algures, um corpo sem fato. Ali, um vazio esvaziado, uma ausência e uma falha, quebra essencial e objeto de intriga fundamental. Este corpo nunca o vemos. É a fantasmática mais perene. A não existência mais clara. A única razão e evidência da sua provável existência é o facto de ser um cheiro que um cão capta com muita força. Mas existirá ele realmente ou procura o cão um outro odor?

Ela está na casa de banho. Uma multitude de produtos preenche o lavatório e arredores. A luz é clara e de novo brilhante, é fluorescente ou LED, é uma destes tempos. Ela olha-se. O reflexo, um retorno, uma outra imagem, qual delas a verdadeira? Qual delas a real? Ecrã contra ecrã, superfície de imagem contra outra superfície de imagem, o filme contra o espelho, o espelho dentro do filme, a atriz olha a personagem, a personagem responde à atriz, a atriz faz a personagem: cansada, à espera. As malas ainda estão perto da porta. Ela veste-se de vermelho, um fato completo, tecido esguio como ela, colado ao corpo. Comprimidos tomados, muitos. Ela deita-se junto do fato sem corpo. A ausência, ainda mais forte. Adormece, é o que ela quer.

O smartphone toca (topo de gama, um deste tempo). O cão acorda-a. Ela tropeça e cambaleia. Não atende a tempo. Cabeça no chuveiro, água fria. Café bebido. Novo telefonema. Era a chamada porque esperava. É o corpo do fato vazio. O amante já partido. A progressão é a do monólogo – o monodrama de Jean Cocteau, que Almodóvar aqui adapta – de uma só voz e de uma só ansiedade, a dela. De divisão em divisão, do dito para o contradito, é a ansiedade por um lugar ambíguo a vazio no mundo, neste em que vive, ela que é atriz com alguns anos, já não de uso para certos papéis, mas de utilidade para outros que lhe assumem a idade que tem e que dela lucram (filmes publicitários…será um que ela estaria a filmar e do qual intervalava antes de começar este filme?). Será por isso que ele a deixa, pergunta-lhe ela, mas ele não responde. Nunca se ouve a sua voz, ela fala sozinha, durante esse longo e contraditório drama de si mesma. Ela grita e acalma-se, fala alto e não quer deixar de falar, quando o fizer, tudo terminará. Assim o é. A conversa acaba.

Existiu? Falou ela com esse ele? Ou falou sozinha, para si, para o seu abandono, para o seu confinamento e fechamento pessoal, para a sua morte lenta, para a ânsia da ansiedade de sempre estar ansiosa com essa coisa que é a terrível ânsia do vazio? Talvez ela tivesse razão quando fez uso do que comprou quando chegou a casa e que é…

O objeto: o machado, brilhante também porque novo, porque objetivo de compra e necessidade de esvaziamento da ânsia. O Funcionário da Loja (Augustín Almodóvar, personagem da sua própria mentira também – é o produtor desta ilusão) bem a olha, bem a vê, ela que está à beira de um ataque de nervos…o qual finalmente se auto-espoleta em casa, quando ela usa o machado para desferir golpes assassinos no fato e que desmembrariam aquele corpo que ali não está. O machado é o objeto de um outro filme que não se faz, o terror, ela não leva a cabo, o corpo não é atingido, o sangue não jorre, as partes não se descolam, naquele lugar que também não é…

O espaço de um filme, mas sim o da ilusão de um filme ou da dúvida acerca do que é o filme enquanto o que se espera enquanto sendo a verdade da sua mentira. Quando a câmara de Almodóvar sobe e mostra o cenário e quando Ela/Tilda Swinton dele sai e mostra as madeiras que o suportam, esse é o espaço d’ A Voz Humana, é o espaço que não é. Ela/Tilda quebra a quarta parede e quebra a suspensão da incredulidade. Mas sai do filme – mesmo após sair com o cão que a olha e ouve atentamente – dentro da personagem, e para fora do estúdio onde o filme foi filmado, para ainda ficar como Ela? A ânsia continuará ou começará ela uma nova vida? Ele lá ficou, real ou virtual, a arder com o cenário construído dentro do estúdio. O que resta é a condição humana, a ansiedade destes tempos, os nossos tempos, que assustam e deixam sem respiro…

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