(Com spoilers)

Naquela que é sem dúvida a melhor – porque a mais corajosa – sequência de “Ad Astra“, James Gray dá-nos a ver uma Lua que perdeu o seu lado negro, e que é agora um astro gentrificado, somado à totalidade dos destinos turísticos disponíveis, colonizado pelo tecnocapital e a sua imensa tralha fluorescente. Nesta Lua feita gigantesca gift shop, antecipa-se o que poderia ser o sentimento do filme: a desilusão perante a impossibilidade de alguma vez o humano se superar a si mesmo. Somos incapazes (o que quer dizer: indignos) de abandonar a Terra (ou a imagem terrível que fizemos dela, e que há quem chame “antropoceno”) – seria esta a proposição estrutural do filme, este cristianismo mal disfarçado que, todavia, poderia resultar em cenas verdadeiramente inéditas no cinema mainstream de exploração espacial. Mas James Gray, num registo atípico, recua ao assustar-se com o seu próprio pessimismo. E dá-nos uma outra coisa, muito mais morna, apaziguada e, enfim, desnecessária.

Vamos tentar perceber por que razão não aconteceu o filme assombroso que em “Ad Astra” está sempre à beira de acontecer. Afinal, nem será preciso lembrar que James Gray, em plena posse dos seus poderes cinematográficos, é capaz de produzir obras com a lucidez patológica, quase pessoana, de “Duplo Amor” (2008), ainda um dos grandes filmes americanos deste século. “Ad Astra”, não sendo um completo desastre, fica, no entanto, com a dimensão de uma nota de rodapé numa filmografia que parece já ter exposto a sua “tese” principal.

O primeiro problema de “Ad Astra é de família. Mais precisamente, é a exacerbação insustentável de um dos recursos narrativos preferidos de James Gray: a racionalidade familiar. Veja-se como em alguns dos seus filmes cabe à família nuclear americana mediar todos os conflitos sociais e políticos – aqui o exemplo mais evidente será o dos irmãos separados pela Lei em “Nós Controlamos a Noite” (2007). Tudo deverá passar pela família porque tudo encontra nela a sua mais urgente expressão (eis a fórmula, bastante “ideológica”, que não só pressupõe uma distinção entre vida privada e vida pública, como uma hierarquia – é preciso que as coisas acedam à esfera do doméstico para se tornarem reais, inteligíveis). Em “Ad Astra” isto roça o paródico: em última instância, o destino da humanidade pode jogar-se entre um pai insensível e um filho que anseia por ser amado. Neste caso, temos o astronauta que se afastou demasiado do Sol, um rebelde tocado por uma frieza inumana, e o seu filho, um herói solar interpretado por Brad Pitt, que carrega às costas o peso da civilização e do dever com um ritmo cardíaco cada vez mais acelerado. Em suma, o filho será enviado para Marte de modo a restabelecer o contacto com o pai, que estará a causar a destruição na Terra a partir de Neptuno.

É demasiado fácil ridicularizarmos (ou abstrairmo-nos de) uma premissa como esta; difícil e importante, porém, é levá-la a sério, e reconhecer o quão debilitante ela se torna para o filme de James Gray. É claro que esta prioridade do familiar não é exclusiva do seu cinema (nem sequer de Hollywood, ao contrário do que se possa pensar). E também seria precipitado qualificá-la como “boa” ou “má” por si só. O problema está nas suas interacções, ou melhor dizendo, no modo como em “Ad Astra” ela minimiza e imaterializa aquilo que deveria ser a maior e mais material das viagens. Que importa o filme levar-nos ao extremo do sistema solar se só lá vamos encontrar pais e filhos, reconstituições da ordem simbólica? Que importa ir de foguetão se trazemos o Édipo a bordo? Em “Ad Astra, o Universo é mais uma parte da casa, é no fundo um sótão, como já o era em “Interstellar” (2014). O que vemos neste cinema nunca será o espaço, mas sim a Terra vista do espaço. E só a já citada sequência na Lua está próxima da melancolia que uma tal visão nos proporcionaria. Cinco décadas depois do “2001” de Kubrick, isto não deixa de representar um lamentável passo atrás.

Mas há outro filme ao pé do qual este último James Gray se revela uma coisa sem perigo, uma brincadeira. Trata-se de “Apocalypse Now” (1979), óbvia fonte de inspiração para o argumento de “Ad Astra”, épico que aqui nos surge “descafeinado”, desprovido do seu impetuoso buraco negro: a figura do coronel Kurtz. Não se quer com isto dizer que o filme de James Gray deveria ter repetido essa personagem, mas o pai que encontramos no acto final de “Ad Astra” nada tem de extraterrestre, é ainda humano, demasiado humano, e por isso nem se afirma como o pólo negativo de que o enredo desesperadamente precisa. Coppola tinha a ousadia de descobrir em Kurtz o derradeiro pacifista, aquele que decidira acabar com a guerra conduzindo-a a uma situação irreconhecível, pondo em prática os sonhos inconfessáveis das altas patentes do exército americano. “Ad Astra” fica, pois claro, a milhas dessa ambiguidade moral. O pai workaholic é “mau”, ou pelo menos censurável, mas é sobretudo uma questão burocrática a resolver, e uma vez resolvida, o herói pode regressar a casa disponível para amar. É assim tão simples – e segundo consta, no espaço, ninguém pode ouvir o riso de Freud

Pelo caminho, há pequenos vislumbres de um infinito aterrador, flashes da cor absolutamente escura do espaço. A fúria homicida dos animais fugidos do laboratório; a noite perpétua dos centros comerciais lunares… – são imagens poderosíssimas, transmissões de um futuro que, infelizmente, não coube em “Ad Astra”, porque o filme já era coisa do passado antes de sequer ter estreado. Mas o tempo encarregar-se-á de nos fazer chegar a morte inequívoca desta estrela.