“American Animals: O Assalto” não é baseado numa história verídica. “American Animals” é uma história real.  É assim que o filme se apresenta, justificando o desenrolar da sua trama.

Passado numa universidade do estado americano de Kentucky, este filme centra-se primariamente na história verídica de Warren Lipka e Spencer Reinhard, eventualmente assistidos por Chas Allen e Eric Borsuk. Estes quatro estudantes que no início da primeira década de 2000 decidem assaltar de forma metódica, mas altamente ineficaz, o cofre da livraria onde vários livros raros se encontram em exposição.

Em cenas de cariz documental, são os próprios que vão contando as suas versões da história, com todas as contradições e lapsos a que uma narrativa verbal tem direito, enquanto nas partes onde a dramatização é utilizada, o quarteto passa a ser interpretado, respetivamente, por Evan Peters, Barry Keoghan, Blake Jenner e Jared Abrahamson.

A metaficção (utilizada aliás pelo realizador Bart Clayton no seu filme anterior “The Imposter”) acaba por resultar numa cativante narrativa, perdida algures entre “Brincadeiras Perigosas” e “Ocean’s Eleven” com toques de David Fincher e drama juvenil.

A forma “bruta” como Clayton desenvolve o seu filme procura afastar-se de julgamentos e da empatia natural que qualquer tipo de autobiografia ou heist movie tenta criar entre o anti-herói e o público. A banda sonora entra nos momentos certos e a cinematografia procura os brilharetes apenas quando necessário, deixando as cenas de maior violência ou contemplação desenrolar numa crueza neutra, digna de um documentário apartidário.

As interações entre as personagens revelam sempre as suas reticências no planeamento do assalto, bem como a forma em como todos eles, Warren e Spencer em particular, se afastam emocionalmente do ato e das vitimas do mesmo, tentando afastar as consequências deste das suas consciências até que as primeiras se tornem inevitáveis (como não podia deixar de ser).

Warren, Spencer, Chas e Eric fictícios podem justificar-se como uma espécie de encarnação de  um Robin dos Bosques universitário, mas o filme e as suas versões reais deixam bem claro que os seus atos surgem da monotonia e da necessidade de se sentirem extraordinários com o roubo de doze milhões de dólares em livros raros.

O ponto forte do filme acaba mesmo por ser a interpretação dos atores, principalmente Evan Peters, cujo carisma e maneirismos fazem do seu Warren Lipka o verdadeiro protagonista da história; mesmo que o Warren da vida real tenha grandes dúvidas sobre isso. O assalto teve várias falsas partidas e em todas elas os intervenientes tiveram a oportunidade de desistir, de parar com a sua piada de mau gosto, mas é a partir do momento em que o assalto é concretizado que a interpretação de Peters vale ouro.

O assalto é o momento de não retorno e Peters interpreta muitíssimo bem todas as dificuldades e batalhas da sua personagem, desde o medo inicial ao desespero e determinação de não deixar o trabalho a meio.

“American Animals” termina com um pequeno apanhado da situação dos seus protagonistas, todos eles com a pena de prisão já cumprida e todos eles (talvez) com remorsos por se terem submetido a uma dura lição de vida. O filme acaba também, muito provavelmente de forma involuntária, mostrando que nem sequer é preciso ser-se bem-sucedido no crime para se atingir a fama e ganhar a atenção de Hollywood.

Realização: Bart Layton
Argumento: Bart Layton
Elenco: Spencer Reinhard, Warren Lipka, Eric Borsuk
Reino Unido/EUA/2018 – Thriller
Sinopse: A inacreditável, mas verídica história de quatro jovens que confundiram as suas vidas com um filme e fizeram uma das tentativas de assalto mais audaciosas da história dos EUA. O golpe passaria por roubar livros da universidade local, no valor de 10 milhões de euros.

 

«American Animals: O Assalto» - Isto não é bem um conto de redenção
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