“Anomalisa”: anomalia do ser e o terror do idêntico

A incapacidade de Michael Stone (na voz de David Thewlis) de chorar, na tentativa frustrada de que lágrimas lhe cubram o rosto perante o vazio existencial que constata sentir, faz lembrar o mais recente riso incontrolado de “Joker” (2019, interpretado por Joaquin Phoenix). Quando esta versão de “Joker” se pinta de palhaço de sorriso permanente, ao mesmo tempo que chora face à angústia da existência que a sociedade teima em estigmatizar, o espectador perde-se na ambivalência de emoções que uma só personagem pode expressar. Há algo aqui que aproxima esta versão de “Joker” (2019) da personagem Michael Stone do filme de animação Anomalisa” (2015). À semelhança do filme de Todd Phillips (2019), também no drama de animação de Charlie Kaufman e Duke Johnson, “Anomalisa”, a principal personagem, Michael, possui um rosto descartável. Um rosto que chega a cair-lhe da cara, na correria onírica de fugir pelo corredor do hotel. Os rostos podem ser como as máscaras que ora se encaixam, ora se desencaixam do modo como nos sentimos; quer dizer, do modo como construímos sentido a partir de nós mesmos na relação com o outro.

O atendimento ao cliente, apesar de aparentar ser um serviço especializado e direcionado ao outro, não deixa de denotar um certo anonimato, pelo que não é inocente que o sucesso de Michael advenha de escrever um best seller acerca desta temática. Quer isto dizer que, na ilusória tentativa de aproximação ao outro através de um sorriso que se esconde por detrás de um telefone, conforme aquilo a que Michael incentiva na sua palestra, estão também escondidos rostos desconhecidos e corpos impessoais. Uma vez mais está presente um sorriso que ora se encaixa, ora se desencaixa em função da prestação de um serviço comunicacional e interativo, que, ao invés de fomentar um relacionamento de proximidade com o outro, com o mundo e com a verdade, antes inaugura uma ética da satisfação baseada na padronização do gosto e do mercado. 

Michael parece desligado da relação com o outro, de tão entregue que está à sua rotina mecanizada. É a rotina mecanizada das viagens de trabalho, dos telefonemas à família, das conversas de circunstância com os estranhos que surgem no seu dia a dia. É um homem que (sobre)vive da reflexão sobre o atendimento ao cliente e que está cada vez mais perturbado com o crescente mal-estar dentro de si mesmo. A par com esse mal-estar, assistimos em grande parte inicial do filme a todos os movimentos de quem viaja em trabalho e se instala num hotel. Durante esse percurso, Michael sujeita-se aos encontros aborrecidos e enfadonhos com todos aqueles que lhe prestam os serviços necessários à sua deslocação e acomodação. Em nome de prestar os melhores serviços, todos eles o indagam incessantemente, sem que nenhum deles seja capaz de reconhecer que Michael não está disponível para dialogar. Silêncio teria sido uma alternativa, mas o silêncio não cabe no sucesso das nossas tarefas diárias. Imediatamente, lembramo-nos da descrição feita por Jean-Paul Sartre, na obra «O Ser e o Nada», acerca do empregado de café e de como todos os seus gestos de atendimento ao cliente parecem uma brincadeira. Uma brincadeira na medida em que toda a sua conduta parece não passar de um conjunto de movimentos mecanizados em que afinal brincamos ser (de) algo, na tentativa de dar sentido ao vazio do ser da nossa identidade. Não é só um empregado de café que o filósofo descreve, mas todos aqueles que se ocupam de prestar serviços a outrem. Brincamos com a nossa condição para realizá-la, diz-nos Sartre, e é em “Anomalisa” que assistimos ao mal-estar de Michael, ao aperceber-se de que, apesar de preenchido de tarefas rotineiras, está longe de sentir a sua condição realizada.

O mal-estar de Michael manifesta-se, também, na maneira simbólica como todas as outras personagens do filme se assemelham entre si na fisionomia do rosto e na maneira como todos, perante Michael, soam ter a mesma voz. Nada distingue nem nada diferencia os indivíduos, ao ponto de acabarem por tornar-se completamente irreconhecíveis. Não é de admirar, por conseguinte, que este seja o filme de eleição do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han para ilustrar o nosso crescente mal-estar, a saber, o terror do idêntico. O terror do idêntico tem corpo no inferno por que Michael passa no seu pesadelo. A proposta cartesiana de que haja um génio maligno pronto a enganar-nos ao ponto de nós, humanos, não sabermos distinguir o sono da vigília e toda a realidade poder ser, na verdade, uma ilusão enganadora, não parece assim tão descabida se refletirmos acerca deste pesadelo. Quem é que ou o que é que nos garante, essencialmente, que o pesadelo de Michael não é, afinal, um sonho vivo. Assim sendo, a nossa condição humana pode ser sinónimo de sucumbir à pressão social de que todos somos objeto para que cumpramos aquilo que estipulam para a nossa vida, mas não aquilo que desejamos e, assim, impossibilitando uma autêntica alteridade. De tanto que estamos ocupados a corresponder àquilo que desejam por e para nós, impedimo-nos da abertura ao outro que traz consigo o risco da descoberta. Portanto, a figura do dono do hotel que surge no pesadelo de Michael mais não faz do que consubstanciar essa vontade e pressão sociais. Ele roga-lhe que deixe de amar Lisa, na medida em que, subentendido, Lisa não corresponde ao modelo contemporâneo de desejo. Lisa (na voz de Jennifer Jason Leigh) simboliza, por conseguinte, a anomalia da nossa época globalizada e homogeneizadora. Ela não corresponde ao padrão atual de beleza, daí o seu pessimismo face a um amor real, todavia não consegue evitar a sua singularidade. E é essa singularidade que transparece na voz distinta e única que Michael ouve. Michael ouve Lisa, no meio de todas as vozes iguais, ela distingue-se. Lisa torna-se singular, pois o desejo de Michael deixa de ser desejar aquilo que todos desejam, mas desejar quem se torna único para si. E nisto residiria a possibilidade de amor, de esperança e de um sentido para o abandono do vazio. 

Michael possui família, sucesso, reconhecimento e, ainda assim, não suporta o vazio que carrega dentro de si. Esse vazio leva-o a indagar o fundamento da sua vida e, quando acompanhamos esta investigação permanente, compreendemos a condição do ser que vamos encenando todos os dias e que afinal mais não é do que uma representação daquilo que queremos ou julgamos dever ser, mas que, por tantas vezes, é aí, nesse “dever-ser”, que reside o nada, e não reside o ser. É o nada do vazio que Michael sente ao não conseguir relacionar-se com ninguém, nem mesmo quando procura um amor perdido do passado e que reencontra na tentativa de reatar essa história de amor, pois esse vazio é, essencialmente, impossibilidade de desejar.

Há, deste modo, uma fabricação de modos de vida que tornam idênticas as nossas existências, na adesão ao consumo incentivado pelo marketing do capitalismo cultural e de serviços. Parecemos todos iguais ao desejarmos as mesmas coisas, tanto que até soamos humanizados, contudo, aparentamos todos uma figura animada, ou seja, este só podia ser um filme sem interpretações de carne e osso. Trata-se de um filme de animação, precisamente por que pensa o risco de perda da humanidade. Somente na humanidade poderíamos reconhecer a nossa singularidade, isto é, não é que a singularidade se identifique com a subjetividade, é antes que a singularidade do ser possa revelar-se na sua capacidade de desejar, de podermos ser a anomalia de Lisa. Na incapacidade de desejar e amar Lisa, Michael escapa à anomalia da alteridade e reconhece-se como somente mais um entre as demais figuras animadas do deserto do idêntico que ele, penosamente, atravessa.

Como romper com este terror do idêntico? Eis a questão. Porventura a resposta esteja na experiência radical da alteridade, quer isto dizer, no reconhecimento do outro que me perturba, mas apenas enquanto um “não-eu”. Insistirmos em relações que tomem o outro como garantia da nossa satisfação e como veículo do nosso prazer será permanecer no terror de todos nos parecerem, à partida, idênticos.