O oitavo dia de Cannes foi talvez o dia mais excitante pois os dois filmes que estrearam da selecção oficial tiveram excelentes críticas.

 

O realizador brasileiro Walter Salles regressa a Cannes com uma adaptação do best-seller “On The Road”, símbolo da contracultura norte -americana, escrito por Jack Kerouac nos anos 50. “On The Road” conta com Garrett Hedlund, Sam Riley e Amy Adams no elenco. Segundo a Hollywood Reporter: “Walter Salles fez um trabalho respeitável e em alguns momentos é melhor do que isso; mesmo que o filme raramente ouse, a fim de providenciar o tipo de prazer principal que ele representa. Mas há várias barreiras para apresentar On The Road em termos efetivos de cinema. A primeira é a falta de estrutura dramática que permanece totalmente episódica. Enquanto o impacto dramático do filme é variável, visualmente o filme é um prazer constante.”. Walter Salles, sobre a génese do seu filme: “Foram necessários oito anos para fazer este filme. Até tínhamos pensado realizar um documentário que serviria de base. Esta história diz mais respeito ao período que antecedeu a Beat Generation. Conta o despertar político e social de dois jovens que descobrem uma geografia humana que lhes era estranha.”. O filme é apontado como um forte candidato à Palma de Ouro, mas o mais certo é que receba o prémio do Júri ou de Melhor Ator.

 

Mas foi “Holy Motors”, o novo filme do cineasta francês Leos Carax, que regressa a Cannes 13 anos depois de “Pola X” (1999), que mais se destacou ao oitavo dia. “Holy Motors” é sobre um homem que viaja, pelas ruas de Paris, por múltiplas vidas paralelas. Segundo o Hollywood Reporter: “Hilariante, obscuro e emocionante, o filme de regresso de Leo Carax é uma deliciosamente absurda peça de cinema que valoriza vida e morte e tudo o que existe entre os dois, refletidos em espelhos de um parque de diversão. É corajoso e extravagante. Depois de uma arrebatadora recepção da imprensa, o filme pula imediatamente na frente pela corrida à Palma de Ouro.”. Segundo a Variety: “Audaciosamente dando a si mesmo licença para fazer o que bem entender, a narrativa desprendida, belamente filmada e frequentemente hilária de Holy Motors se junta a um vívido passeio através das obsessões cinemáticas de seu autor.”. Leos Carax sobre a sua relação com o público: “Importa-me ser visto. Amado? Se houver alguém que goste de mim fico contente”. (…) “Não gosto dos filmes públicos, faço filmes privados”. Denis Lavant (sendo preciso): “A relação do cineasta com o público é uma relação privada, uma relação de um indivíduo com um indivíduo, não com uma massa anónima”.

 

Ao nono dia do Festival, estreou “Post Tenebras Lux” de Carlos Reygadas e “The Paperboy” de Lee Daniels.

 

O drama mexicano “Post Tenebras Lux”, que marca a quarta presença de Carlos Reygadas em Cannesestreou com grandes expectativas, mas desapontou no final. Os jornalistas presentes na projecção não gostaram do filme, tendo sido comentado como talvez o filme mais difícil de se compreender, onde sequências do passado, presente e futuro se misturam com a fantasia e sonhos das personagens. Carlos Reygadas em conferencia de imprensa: “Acho que é melhor deixar tudo fluir, o que não quer dizer que este filme seja pós-moderno. Existe uma lógica que vem do instinto. Senti a necessidade de transformar o que vejo. É algo particular. Recentemente construí uma casa e, no momento de colocar as janelas, apercebi-me de que não gosto dos vidros modernos: vê-se tudo, é como se não houvesse nada. Sou nostálgico, gosto das janelas que podemos sentir e com as quais vemos as coisas de forma diferente.”.

 

O realizador de “Precious” (2009), Lee Daniels, regressa a Cannes com “The Paperboy”, que conta com estrelas como Nicole Kidman, Zac Efron, John Cusack, Matthew McConaughey e Macy Grey. Um thriller dramático, que adapta uma obra literária de Peter Dexter, que conta a história sobre um repórter que regressa à sua cidade natal para investigar um caso envolvendo um prisioneiro condenado à morte, onde é explorado também o preconceito racial típico dos EUA. A crítica classificou “The Paperboy” como “sexual e explosivo”, devido às arrebatadoras interpretações, com destaque para Nicole Kidman. Lee Daniels em conferencia de imprensa: “Há uma parte de verdade neste filme. Para a personagem representada por Macy Gray (Anita), inspirei-me na minha história. Membros da minha família trabalhavam como domésticos para brancos. Todas estas personagens existem na minha vida. Fiz este filme debruçando-me sobre o meu próprio passado e sobre os meus filmes anteriores”.