Cannes 2013: Dia 3

O terceiro dia de Cannes (17 de maio) ficou marcado pelo roubo de jóias, destinadas a celebridades, no valor de 780 mil euros, de um hotel em Cannes. Polemicas à parte, no mundo do cinema, que é o que mais importa neste festival, assistiu-se à estreia de “Le Passé”, do realizador iraniano Asghar Farhadi, que está pela primeira vez na selecção de Cannes, com um filme que volta a abordar o tema do divórcio, depois de o ter feito em “Uma Separação” (2011). O filme, rodado em França e em francês, conta a história de Ahmad que chega a Paris partindo de Teerão, a pedido de Marie, a sua esposa francesa, para efetuar o o divórcio. Durante a sua breve estadia, Ahmad descobre a relação conflituosa de Marie com a filha, Lucie. Os esforços de Ahmad para tentar melhorar a relação acabarão por desvendar um segredo do passado. Os atores Tahar Rahim e Bérénice Bejo, protagonistas do filme, falaram um pouco sobre o seu trabalho (as repetições, e a barreira da língua): para Tahar, “Asghar Farhadi tem uma maneira de trabalhar particular, muito precisa, por milímetro, e no entanto, graças a esse trabalho de repetição, de troca, é como se tivéssemos liberdade.; e para Bérénice “Trabalhámos com um tradutor, e a voz de Arash tornou-se na voz de Asghar. Havia um pequeno espaço de tempo entre as nossas conversas, que nos permitia estar verdadeiramente à escuta. Era muito agradável.”.

 

O cinema asiático começou neste dia a merecer destaque, com a estreia do drama chinês “Tian Zhu Ding”, de Jia Zhang-ke, que também compete pela Palma de Ouro. O realizador “faz um retrato da China contemporânea através de quatro retratos cruzados: quatro personagens nos quatro cantos da China, confrontados com as desigualdades crescentes e novas aspirações de democracia e liberdade”. Para Jia Zhang-ke, “nestes últimos tempos, com a crise, pude observar até que ponto os incidentes na China foram violentos. Isso preocupou-me muito, pensei que era preciso falar disso através do cinema e compreender como um indivíduo comum podia agir de forma tão violenta”. O filme, que apresenta um ponto de vista decepcionante sobre o fosse entre ricos e pobres que se expande naquele país, não foi muito bem recebido. Segundo os críticos do The Hollywood Reporter, “Apesar de performances sólidas e muitas imagens assombrosas, há uma banalidade decepcionante para o filme em geral. Ou a história do Dahai ou do Xiao Yu história, sendo que ambas terminam com os protagonistas a provocar uma carnificina e caos, podia ter beneficiado de um desenvolvimento mais robusto para fazer um drama independente. Mas incorporados a este exame demasiado difuso de escalada da violência em uma sociedade modernizada de forma imprudente, o seu impacto é entorpecido.”.

 

Cannes 2013: Dia 4

No sábado (dia 18 de maio), ao quarto dia do festival, o conceituado realizador japonês Hirokazu Koreeda estreou o seu recente filme no certame, “Like Father, Like Son”. O cineasta, que sempre explorou as relações familiares na sua obra, volta a esse tema, fazendo uma reflexão pessoal sobre a paternidade através de uma família japonesa como as outras, sempre com o seu visual e estilo simplista e natural. “Não há sentimentalismo, o cinema de de Koreeda é sempre poético e quase documental. Um toque minimalista que lhe permite tratar temas mais complexos com justeza, como em 2009 com Air Doll”.  Hirokazu KoreEda falou da recorrência da análise da célula familiar japonesa nos seus filmes: “Não é o único abordado de cada vez, mas é verdade que é o assunto que mais me toca. É um tema que gosto de explorar. Sou pai e perdi os meus pais. Por isso, é muito natural que me debruce sobre este tema nos meus filmes”. Para o The Guardian, “o filme bébé de Hirokazu Kore-eda é outro drama doméstico de boa índole definida no Japão contemporâneo, mas ela não tem a nuance e inovação de seu trabalho anterior.”. Para o The Hollywood Reporter: “É um filme bastante longo, mas bem editadas as duas horas, mantido em conjunto pela iluminação alegre e interiores contrastantes que enfatizam a grande divisão entre os ricos e pobres na sociedade japonesa.”.

 

O último filme visto neste dia, a correr pela Palma de Ouro, foi “Jimmy P.”, do francês Arnaud Desplechin, que regressa pela sexta vez à Selecção Oficial do Festival de Cannes. Este filme é uma adaptação de um ensaio feito em 1951 pelo etnopsiquiatra francês Georges Devereux. “O filme, tal como o livro, narra histórias de amizade, a de Georges Devereux com Jimmy Piccard, e também a que conhecemos de Mathieu Amalric com Arnaud Desplechin”. Filmado nos EUA, o realizador adotou para este filme a língua de Shakespeare, pelo que respondeu em entrevista, a propósito da sua «experiência americana»: “Como dizia Renoir: “Nada se parece mais com um sapateiro da Índia que um sapateiro de Paris”. Nunca me disse que era o meu primeiro filme americano. Tinha que fazer este filme, e ele só poderia ser feito nesse continente.”. O filme protagonizado por Benicio Del Toro, Mathieu Amalric e Gina McKee, não conseguiu ser concensual para a crítica especializada, sendo que para o Indiewire, “tem alguns problemas narrativos e poderia perder 30 minutos, mas as performances por Benicio Del Toro e Mathieu Amalric valem a pena o esforço”. Já o The Hollywood Reporter se posiciona no lado mais positivo da crítica, considerando que “Del Toro acredita que a proposta de ter um Arnaud Desplechin provoca um magnetismo difícil de igualar no cinema de hoje. Uma maravilha da etnografia e antropologia filme”.