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O quarto dia do certame (16 de maio) ficou marcado pela estreia, na secção competitiva, de “Mia Madre”, a nova longa-metragem do cineasta italiano Nanni Moretti após “Habemus Papam” e a de “The Sea of Trees”, de Gus Van Sant. Neste dia assistiu-se ainda, na Quinzena dos Realizadores, à estreia do primeiro volume de três volumes de “As Mil e Uma Noites”, do realizador português Miguel Gomes, tendo sido bastante bem recebido.

Nanni Moretti conta com mais de uma dezena de presenças no festival de Cannes, tendo já ganho a Palma de Ouro em 2001, com “O Quarto do Filho” e o prémio de melhor realizador em 1994 por “Querido Diário”. Mestre incontestado da autoficção, o cineasta italiano revela-se em “Mia Madre”, longa-metragem intimista, alimentada pelas recentes penas da sua vida profissional e familiar. O cineasta incarna neste filme Giovanni, irmão e confidente de Margherita – interpretada por Margherita Buy – uma realizadora famosa em plena crise pessoal e criativa, estoirada por uma filmagem calamitosa e as suas visitas à cabeceira da mãe moribunda. Marcado pelo falecimento da sua mãe, Nanni Moretti explica que enquanto escrevia esta sua décima segunda longa-metragem, os seus sentimentos eram “demasiado intensos para deixar-se invadir pela actualidade”. “Mia Madre” recorda também ao realizador, que se interrogou sobre o seu papel de realizador, a que ponto se sente ‘desfasado’ em relação à imagem que o público tem dele. O humor negro de Moretti imiscui-se na longa-metragem por intermédio de John Turturro, que interpreta um actor cómico, agitador, por vezes incapaz de recitar as suas réplicas face à câmara.

O público aplaudiu o novo filme de Moretti, como “divertido e emocionante”, já a critica divide-se entre a decepção e o entusiasmo do grande regresso do cineasta desde “O Quarto do Filho”. Para o The Guardian “Mia Madre é um filme tremendamente inteligente e agradável”, já o Indiewire considerou que filme não é coerente, tendo uma narrativa confusa, “o filme medíocre em que Margherita está a trabalhar acaba por lembrar igualmente o filme decepcionante que Moretti fez”.

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O segundo filme, “The Sea of Trees”, representa a oitava participação em Cannes do realizador norte-americano Gus Van Sant. Pôr os pés na floresta de Aokigahara é entrar num espaço onírico, o refúgio dos espíritos até à copa das árvores. Arthur Breenan (Matthew McConaughey) aventura-se nela para pôr fim aos seus dias, mas depressa um encontro faz com que mude de planos. No caminho encontra Takumi, um homem enlutado e ferido que decide salvar. Gus Van Sant lança a si mesmo o desafio de entrar num filme de aspecto sombrio, mas que tende a ser uma ode à vida, sem acabar por resolver a questão. “As pessoas podem acreditar noutra coisa” – acrescenta Naomi Watts que interpreta Joan, a mulher de Arthur. “Este filme não impõe um discurso formatado”. 

“The Sea of Trees” já foi considerado o pior filme em competição e foi até ao momento o filme mais vaiado pelo público e crítica. Este era um dos filmes mais aguardados do certame por vir de um cineasta conceituado como o Van Sant, mas acabou por conseguir ser o filme mais vaiado e criticado do certame. A Variety classificou o filme como “interminável” e pergunta-se em virtude de “que impenetrável mistério” esse filme “abortado” conseguiu “chegar à competição oficial de Cannes”. Para o The Guardian, “Sea of trees” é “um melodrama patético”, em que Gus Van Sant “cai no sentimentalismo” e “uma realização ao mesmo tempo comercial e melosa” e o Indiewire considerou “The Sea of Trees o pior trabalho de sempre do realizador”. De um modo geral as críticas focam-se no mau argumento do filme.