Cannes 2015 - Dia 2_1

Dia 2

No segundo dia de Cannes, na secção competitiva, foram projectados os filmes “Our Little Sister” de Hirokazu Koreeda e “Il Racconto Dei Racconti” de Matteo Garrone. Ambos os realizadores são já da ‘casa’ do festival, tendo vindo a estrear os seus filmes em Cannes na última década.

Koreeda recebeu na edição de 2013 o Prémio do Júri em Cannes, pelo filme “Tal Pai, Tal Filho”. Regressa pela quinta vez a Cannes, agora com “Our Little Sister”, onde o cineasta japonês continua a sua exploração subtil do funcionamento da célula familiar com o retrato de três mulheres que descobrem a existência da meia-irmã. Adaptada da manga homónima, “Our Little Sister” narra a história de Sachi, Yoshino e Chika, três irmãs que descobrem, no funeral do pai, a existência de Suzu, uma meia-irmã de 13 anos que decidem receber em casa. O cineasta considera que a beleza do ser humano atinge o seu apogeu quando as ligações naturais que regem a família são fragilizadas ou quebradas. Koreeda explica assim “admirar menos uma vida sem entraves do que uma vida onde se encontre um sentido para existências quebradas”.

Desde que começou a fazer cinema, Hirokazu Koreeda não deixou de examinar os seus mecanismos e de dissecar, num estilo que por vezes faz eco ao documentário, os transtornos que contribuem para fissurar hoje em dia as fundações dos mesmos. Os filmes que faz, de narração muito estruturada e de uma grande delicadeza, interrogam as relações entre as gerações e as ligações de sangue, as quais estão no centro desta décima primeira longa-metragem.

Designado pela crítica como o herdeiro natural de Yasujirō Ozu, Kore-Eda partilha com o mestre um sentido inato do tempo e do espaço. O filme japonês obteve ótimas críticas, considerado um filme comovente e humanista, mas não sentimental.

Cannes 2015 - Dia 2_2

O segundo filme em competição do dia foi “Il Racconto dei Racconti” (“Tale of Tales”) do italiano Matteo Garrone, que sete anos após “Gomorra” (2008) e três anos após “Reality” (2012), duplo vencedor do Grande Prémio do Júri, em 2008 e 2012, regressa ao festival com um filme inspirado no Pentamerone, uma colectânea de contos tradicionais infantis do século XVII povoada de dragões marinhos, pulgas e morcegos gigantes, castelos maravilhoso e labirintos. Fábulas não adoçadas, frequentemente realistas e salpicadas com uma boa dose de crueldade.

O filme de Garrone, o primeiro falado em inglês, recebeu comentários elogiosos de vários críticos, pelo seu visual e original narrativa. O italiano deixa o seu clássico estilo seco e semi-documentário, cortando com o estilo neo-realista, e está imerso num mundo de fantasia burguesa que contou, como de costume, com atores de renome. “Tale of Tales” é uma fábula na forma de um tríptico que tem de tudo: grandes atores, fantasia, humor e efeitos especiais.

Cannes 2015 - Dia 3_1

Dia 3

No terceiro dia do festival estrearam em competição “The Lobster” do grego Yorgos Lanthimos e “Saul Fia” do húngaro László Nemes.

O realizador de “Canino” (2009) simboliza com o seu novo filme a chegada à maturidade de uma onda de cineastas gregos cuja crise estimulou a criatividade e exacerbou a marca surrealista. “The Lobster” é uma história de amor passada num mundo onde as pessoas solteiras são presas e transferidas para um sinistro hotel. Têm 45 dias para encontrar um parceiro, ou são transformadas em animais e libertadas na floresta. O seu novo filme mantém o registo bizarro e ganha um elenco internacional (Colin Farrell, Rachel Weisz, Jessica Barden, John C. Reilly e Ben Whishaw).

Co-escrita com Efthimis Filippou, o seu guionista habitual e rodada em inglês, esta comédia romântica negra narra num futuro imaginário a história de uma sociedade no seio da qual os solteiros são obrigados a encontrar a sua alma gêmea sob pena de ser transformados em animais. “The Lobster é uma história de amor pouco convencional sobre as consequências terríveis da solidão, do medo de morrer só e do medo de viver com alguém», descodifica o cineasta. “A lagosta é uma sátira sobre a nossa obsessão universal sobre os relacionamentos, (…) é a expressão suprema da felicidade humana, uma instituição civilizada que nos distingue dos animais.”. Para o The Guardian, “The Lobster é elegante e excêntrico no estilo familiar de Lanthimos” e para o The Playlist, “Há uma veia de humor negro que atravessa filmes os anteriores Lanthimos, mas em ‘The Lobster’ ele abraça-o de todo o coração: o filme é uma mistura das obras de Charlie Kaufman e Luis Buñuel, uma sátira ruidosa e ainda inexpressiva (…) consegue ser uma surpreendentemente comovente história de amor gloriosamente estranha”.

Cannes 2015 - Dia 3_2

O segundo filme do dia, “Saul Fia”, pertence ao realizador húngaro László Nemes, antigo assistente de Bela Tarr, que estreia a sua primeira longa-metragem em Cannes. O seu filme mergulha no inferno de um prisioneiro judeu em Auschwitz-Birkenau que reconhece o filho entre os cadáveres para incinerar. Segundo Thierry Frémaux, trata-se de um filme que «dará que falar».

Para o seu primeiro filme, László Nemes interessa-se pelos Sonderkommando, estes prisioneiros dos campos nazis encarregues de esvaziar as câmaras de gás e queimar os corpos. Frustrados pelos filmes já existentes sobre a Shoah, quer colocar o foco nestes prisoneiros desconhecidos do grande público: “As testemunhas dos Sanderkommando são concretos, presentes, materiais: descrevem exatamente o funcionamento ‘‘normal’’ de uma fábrica de morte”. O assunto sendo delicado, László Nemes quer evitar o exercício de estilo em proveito ao realismo. Não fazer um filme sedutor, sem no entanto descair no horror. Especialmente nada de digital mas sim uma película analógica 35 mm: “Era a única forma de preservar uma instabilidade nas imagens e portanto filmar de forma orgânica este mundo. O desafio era mexer com as emoções do espetador”.

Foi muito bem aceite pela crítica e é apontado já como um forte candidato à Palma de Ouro. A Sight & Sound chamou-lhe de “holocaust porn”. Para o The Hollywood Reporter “Saul Fia” é “totalmente desconfortável para assistir, mas impressionante (…) o filme é um poderoso e uma experiência visual que não chega a conseguir sustentar-se ao longo do seu tempo de duração, mas é uma notável – e incrivelmente intensa – experiência mesmo assim”, e para o Indiewire este é um “drama sobre o Holocausto que reacende a definição com uma rapidez extraordinária (…) apesar de carregar uma bagagem de inúmeros clichês sentimentais”. Para o Screen Internacional, “representa uma tentativa séria de se repensar os códigos visuais que descrevem as atrocidades do filme ‘Shoah’ – eventos que têm sido, nas últimas três décadas, cada vez mais frequentemente representados no cinema”. “Saul Fia” não pode ser sensacional, mas já está a causar uma grande sensação no certame.