Cannes 2015 - Dia 8_1

Dia 8

Ao oitavo dia passam em competição dois filmes de dois veteranos realizadores deste certame, “Youth” de Paulo Sorrentino e “Shan He Gu Ren” (“Mountains May Depart”) de Jia Zhang-Ke.

O realizador italiano, Paulo Sorrentino, leva pela sexta vez um filme a Cannes, “Youth”. Reune no mesmo filme os atores Harvey Keitel, Michael Caine e Jane Fonda. “Youth”, como sugere o título examina atentamente as relações entre gerações encenando duas personalidade truculentas, encarnadas por Michael Caine (Mick) e Harvey Keitel (Fred). Os dois companheiros de uma certa idade, dois velhos amigos, fazem o balanço da sua existência e encontram, ao longo das suas atividades num hotel de luxo alpestre, Rachel Weisz, Jane Fonda e até Paul Dano. E como acontece frequentemente nos filmes do napolitano, as personagens têm uma carreira artística no passado: um é compositor, o outro realizador. Ao colocar a questão da relação de cada um com o seu passado e o seu futuro, o realizador constata, sem deixar de instilar um pequeno toque de humor através dos dois monstros do cinema do seu casting, que a “juventude” não tem as mesmas preocupações.

A crítica dividiu-de em Cannes sobre o novo filme de Sorrentino, que explora a juventude eterna. Uns consideraram-no um fiasco e outros um génio. Foi elogiado pelo seu magnifico visual, a fotografia e pelas interpretações de Michael Caine e de Jane Fonda. “O filme reflete uma luta contra o tempo, como se ele olha-se para trás melancolicamente fingindo olhar para o futuro, (…) tentando inutilmente prolongar a juventude…”. Para o The Guardian o novo filme de Sorrentino é um “trabalho menor, com idéias e imagens engraçadas e visualmente tão elegante como sempre…”, considerando que, apesar de possuir uma “elegância” e “carregado sentimentalismo”, lhe falta “doçura”. Já o The Hollywood Reporter considerou que “Youth” é “perspicaz (…) calmo e violento, ágil e exuberante…”

Cannes 2015 - Dia 8_2

O realizador chinês, Jia Zhang-Ke, marca a sua quinta presença em Cannes, depois de “Um Toque de Pecado” (2013), em que ganhou o prémio de Melhor Argumento.

Para “Shan He Gu Ren” (“Mountains May Depart”), tudo parte de uma experiência técnica. O realizador acumulou ao longo da sua carreira imagens e ambientes gravados, como se fossem notas. Começa em 2001 com a primeira câmara, e partir de 2011, continua com uma Arriflex Alexa. Constatação para Jia Zhang-Ke: “A interrelação destes dois conjuntos com dez anos de intervalo deu-me a ideia do filme. Fiquei surpreendido do modo como as imagens de 2001 me pareciam afastadas, como provenientes de um mundo desaparecido”. O filme atravessa as épocas ao longo da uma viagem, com destino à Austrália. Uma deslocação perpétua, um potencial afastamento? “Tudo pode ser desfeito, conclui Jia Zhang-Ke, até as montanhas podem partir”.

Apontado como um dos favoritos à Palma de Ouro, “Mountains May Depart” foi muito bem recebido em Cannes. Ambicioso filme chinês, dividido em três secções (passado, presente e futuro), com um visual e estilo únicos. Segundo o The Hollywood Reporter este “seu novo filme é talvez a sua obra mais linear e acessível até à data…”, “Jia Zhang-ke opta por uma mudança suave de ritmo depois de “A Touch of Sin” com esta história emocional passada na China do século 21, que atravessa 26 anos”.

Cannes 2015 - Dia 9_1

Dia 9

Ao nono dia em Cannes estreou “Dheepan” de Jacques Audiard, um dos realizadores mais premiados do cinema francês, e “Nie Yinniang” (“The Assassin”) do realizador chinês Hou Hsiao-Hsien.

O primeiro é um filme sobre o exilo político e a esperança de se reconstruir num país que não é seu. É um regresso muito esperado para o realizador de “Ferrugem e Osso”. Dheepan é um guerreiro tâmil, um Tigre, que luta para a independência tâmil no Sri Lanka. Decida fugir do seu país devastado pela violência e pela derrota indo com uma mulher e uma criança que não são dele, para Paris, na esperança de uma vida melhor. Aí, desloca-se de lar de acolhimento a lar de acolhimento… Dheepan torna-se então vigia de um imóvel, mas a precariedade da sua situação e a fragilidade do seu lar forçam-no a lutar, por esta nova vida.

O filme sobre a guerra civil no Sri Lanka confortou o público e a crítica em Cannes, apesar de não ser um forte candidato à Palma de Ouro. O que faz de “Dheepan” ser atraente do principio ao fim, é o carisma dos artistas, ou seja, das interpretações dos atores. “Dheepan” aborda as contradições sociais dos imigrantes na Europa, sob o olhar de um ex-guerrilheiro do Sri Lanka, de forma violenta e crítica. Parte da crítica considerou este o melhor filme de Audiard.

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O segundo filme “Nie Yinniang” (“The Assassin”), marca a décima presença do realizador Hou Hsiao-Hsien em Cannes. O realizador faz um filme durante a dinastia Tang, na China do século IX. Antes de ser um filme, “Nie Yinniang” é uma novela, do nome da sua heroína. Esta justiceira mantém a paz na província de Weibo. No dia em que Tian Ji’an decide desafiar a autoridade do governador, encontra-se face a um dilema: eliminar este rebelde embora esteja apaixonada por ele. Para interpretar estes rivais apaixonados, Hou Hsiao-Hsien regressa com Shu Qi, com quem trabalhou em “Millennium Mambo” e “Três Tempos” (“Three Times”), e Chang Chen, igualmente no genérico de “Three Times”.

“The Assassin” conseguiu conquistar atenção de todos, em particular da crítica, que o considera neste momento no favorito a vencer a Palma de Ouro. “Um filme com um lirismo esmagador que sabe intercalar momentos de grande intensidade – representado com combates – e momentos de reflexão – marcados por um som poético constante”. “The Assassin” “é apenas o resultado do encontro entre dois mundos distantes que produz um filme requintado e surpreendente (…) o resultado é um filme de assombra beleza que encantou a plateia de Cannes”Para o The Guardian, este “é um filme de grande inteligência e refinamento estético; há grandiosidade e mistério neste filme…”, “pela sua beleza e pelo seu sentido de composição excelente (…) The Assassin exige atenção”. Segundo o The Hollywood Reporter, “o filme pode esperar uma recepção calorosa dos fãs de filmes de artes marciais”.