É difícil pensar nele no passado, pois percebo que já se passaram onze anos desde que entrei para o primeiro ano da licenciatura.

Sendo o cinema aquilo que eu mais gostava na vida, na verdade era ainda um leigo nesta área quando entrei para o curso de cinema e vídeo da ESAP (Escola Superior Artística do Porto). Tive bons professores e tive maus professores. Mas houve um que claramente se destacou pela simplicidade, enorme simpatia e elegância com que dava as aulas: Carlos Melo Ferreira.

Um professor não deve apenas ensinar, debitar matéria. Deve ser alguém que nos prepara para o mundo fora da Academia, alguém que partilha aquilo que o faz viver, alguém que nos motive e inspire. Carlos Melo foi esse professor. Sempre tratou os alunos pelo seu nome e sempre se mostrou disponível em ajudar no que fosse preciso.

Foi o meu melhor professor de cinema, tendo acompanhado todo o meu percurso académico. Teorias do Cinema, História do Cinema Português e Análise de Filmes foram (pelo menos) estas três cadeiras que tive o privilégio de me serem lecionadas por ele.

As aulas começavam sempre com a mesma pergunta: “que filmes viram esta semana no cinema?” Era com um conversa informal que se dava inicio à aula. Sempre interessado em saber o que os seus alunos andavam a ver, nunca julgando-os pelas suas escolhas cinematográficas. 

Homem inteligente e discreto fumava sempre o seu cigarro nos intervalos e não se importava de trocar mais umas palavras com os alunos.

Foi com ele que descobri verdadeiramente o cinema francês (“O Atalante” (1934), de Jean Vigo, e “Passeio ao Campo” (1946), de Jean Renoir – imagem de destaque) ou o neorrealismo italiano. Foi com ele que entendi os filmes de Hitchcock, de Welles, de Tarkovsky, ou de Cassavetes.

Sendo eu um apaixonado pelo western, foi o suficiente para criarmos de imediato uma empatia que durou para sempre. Pois ele sim era um verdadeiro apaixonado pelo género que tornou John Wayne, Joan Crawford, Clint Eastwood, Franco Nero, James Stewart, Dean Martin ou Montgomery Clift em estrelas que ainda hoje brilham.

Foi com ele que descobri um dos melhores filmes de sempre: “Johnny Guitar” (1954). O que se pode querer mais de um professor que nos sugere ver um filme como este? Simplesmente obrigado.

Mas foi sobretudo com ele que descobri o cinema português, desde o Aurélio da Paz dos Reis, passando pelo Manoel de Oliveira, Leitão de Barros, Jorge Brum do Canto, António Lopes Ribeiro, Manuel Guimarães, Paulo Rocha, Pedro Costa, e tantos outros. Foi com as suas aulas que me apaixonei pelo cinema português.

Não sei se foi o destino ou não (porque não acredito nele), mas a verdade é que depois de ter sido seu aluno durante os três anos de licenciatura voltámos a cruzar-nos no mestrado, na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo). Foi ele o júri convidado para a defesa da minha tese.

Fora da Academia podíamos encontrar um Carlos Melo ainda mais profundo, com longas conversas sobre cinema, entre cafés e cigarros. 

Continuou sempre a responder aos meus emails e mantivemos contacto. Ainda em julho de 2018 me incentivava a tirar o doutoramento (sem eu sequer falar ou pensar em tal coisa): “Falar-lhe no seu doutoramento futuro talvez seja ocioso neste momento, mas para si é uma possibilidade em aberto, para a qual pode contar comigo.”.

Aceitou colaborar com o Cinema Sétima Arte, que sempre apoiou. Em outubro de 2018 convidou-me para estar presente no lançamento do seu último livro “Pedro Costa”, na livraria da Fundação de Serralves. Circunstâncias da vida impediram-me de estar presente. Fomos sempre adiando o reencontro no Porto ou em Lisboa.

Agora é tarde.

A ele devo-lhe muito: toda a bagagem cinematográfica que me transmitiu ao longo dos anos; pelos livros que escreveu, em particular ao livro que me foi útil ao longo do mestrado “Cinema, uma arte impura”; por todo o apoio e ajuda no processo inicial de realização do meu projeto final de mestrado. Eu gostava muito dele e sei que ele gostava de mim. Tenho pena de não me ter despedido.

Esta é uma singela homenagem que lhe presto. Sei que terá muitas mais por parte de todos os alunos que marcou ao longo da sua vida, uma vida ao serviço do cinema.

Até sempre caro professor e amigo!

Um abraço,
Tiago Resende