“César e Rosália”: O passaporte para que os clássicos e a modernidade andem de mão dada.

"César e Rosália" (1972), de Claude Sautet "César e Rosália" (1972), de Claude Sautet

“Comprei dois vestidos, um azul e um branco. (…) Em relação aos vestidos, é mentira, não comprei nada, mas diria qualquer coisa para te falar sobre mim. Não é a tua indiferença que me atormenta, é o nome que lhe dou: ressentimento, esquecimento. David, o César será sempre o César e tu serás sempre o David (…) que me ama sem me querer.”

Dirigido por Claude Sautet, “César e Rosália” (“César et Rosalie”, 1972) rompe, em vários aspetos, com os estereótipos criados em torno de grande parte dos triângulos amorosos, começando pelo simples facto de se focar em três adultos. Rosalie (Romy Schneider) é uma mulher que, apesar de divorciada, mantem uma relação amigável com o ex-marido, pai da sua filha, estando envolvida num romance com César (Yves Montand). Este é o típico “old school”: mais velho, charmoso, social – um verdadeiro “self-made man”, que gosta de tudo menos de perder. Sem que ele se aperceba, em ocasiões como as noites de poker, Rosalie acaba por ser deixada para segundo plano. Sendo negligenciada nesses momentos, mergulha numa melancolia melodramática visível ao longo do filme, tal como em pensamentos que alimentam o seu carácter enigmático. A reciprocidade do seu amor por César é posta em causa quando David (Sami Frey), um homem por quem era completamente apaixonada e que se ausentou durante anos, entra de rompante na sua vida.

A rivalidade entre os dois homens, movidos pelo ego e por uma infantilidade com tons humorísticos, é alimentada mesmo antes de se conhecerem, culminando numa corrida de carros para ver quem chega primeiro ao casamento onde Sami era um dos convidados. Ambos jogam com as armas que têm, sobretudo com uma que têm em comum – o charme, independentemente da sofisticação com que é usado. Para além disso, tanto um como outro incorporam o conceito de masculinidade de maneiras completamente opostas. David é mais reservado, mais delicado nos gestos, dominando a cena com um toque mais suave, mas sem perder a noção de que é uma das peças essenciais do jogo. Os seus objetivos previamente definidos vão torná-lo numa verdadeira potência capaz de fazer frente a quem o coloque em causa. É cartunista e, de certa forma, a sua presença representa o lado mais emotivo e confortável de Rosalie. César, por outro lado, é o lado mais racional, racionalidade essa que vai sendo transformada em ciúme, obsessão, temperamento, sobretudo quando percebe que os sentimentos da amada podem estar em sintonia com os do rival. À medida que a vai perdendo, vai tendo mais dificuldade em gerir as explosões de fúria e de carinho, ao mesmo tempo que utiliza um “beicinho”, característico de uma criança, para levar a sua avante. Não deixa de ser um paradoxo. É mais bruto em contraste com a meiguice dos outros dois, é a personificação da expressão “cão que ladra não morde”, mas não deixa que a sua falta de sensibilidade para uns aspetos afete outros. Se há fator que não pode ser negado é a ternura e graciosidade que expressa pela filha da protagonista.

A indecisão de Romy, o constante vai e vem, reflete o equilibro que ambos têm na sua vida. Bem segura do que sente, esta sabe que não vive sem eles. É só imaginarmos um triângulo equilátero: basta perder um para a sintonia do todo desaparecer.

Os figurinos vão retratar a relação com os dois, nomeadamente o contraste entre o romântico e o realista. Rosalie, poderosa, apesar da hesitação, caracterizada pela modernidade, pela beleza mítica, evolui de tons conforme as escolhas que vai fazendo, conforme as emoções que está a sentir. Vestida por Yves St-Laurent, o seu guarda-roupa revela-se intemporal, dando estilo à simplicidade. A personagem transmite essa mesma natureza: carismática, elegante, independente, fiel a si própria. Numa primeira fase, ao lado de César, predomina um vestuário mais elaborado: o vestido preto que é um icon deste clássico, as calças conjugadas com as camisas de uma forma mais sofisticada, a gabardine que nunca sai fora de moda, os lenços – que a própria Romy usava nos mais variados tons, das mais variadas formas – e os tons mais quentes, como o laranja ou o castanho. Ainda na companhia deste percebemos que é uma mulher culta que se preocupa com a imagem, conjugando um estilo único com o requinte da moda parisiense nos anos 70.

Já com David, há uma maior concordância entre as personalidades e os outfits. A escolha dos conjuntos de Rosalie, que passa a usar jeans e uma t-shirt básica na sua presença, refletem a sua ágil capacidade de adaptação, como também permite detetar algumas diferenças no que diz respeito à relação que tem com Frey. A oscilação para o lado do cartunista remeteu, simultaneamente, para uma mudança de vida – ambos começaram a trabalhar no café do tio de David, o que implicou um vestuário mais prático e confortável – daí a troca. A determinação de Schneider não a deixa criar grandes dependências. Contudo, com Sami, parece haver um maior equilíbrio nos momentos em que estão juntos, uma maior naturalidade consolidada pelo afeto que sentem um pelo outro, deixando que os olhos falem mais do que as palavras. Neste aspeto, o zoom nos rostos permite captar as mudanças, mesmo que pequenas, nas expressões faciais.

Embora os “triângulos amorosos” sejam bastante recorrentes, a obra de Sautet distingue- se dos restantes por captar a essência da complexidade humana, por não se focar apenas no romance. Traz ao de cima os defeitos do trio, que está cheio deles, sem utilizar desculpas que justifiquem esses mesmos erros. Desengane-se quem pensa que as personagens são o arquétipo da perfeição. Muito pelo contrário. Egoístas? Manipuladores? São isso tudo. Altruístas? Dóceis? Também. O seu desenvolvimento é tratado de uma forma inteligentíssima e com uma sensibilidade peculiar.

Poliglota, destacada pela flexibilidade do seu talento, Romy na pele de Rosalie dá-nos mais uma prova do seu brilhante desempenho. Um ponto assinalado pela crítica é o facto de a narrativa dar a entender ao público que se vai focar na personagem feminina, sendo este o ponto de partida para a exploração das relações com os restantes, quando na verdade o rumo que vai tomar é outro. Esta não deixa de ser objetificada pelos dois homens, não deixa de ser tratada quase como um troféu a ser disputado, todavia, o corpo da atriz não foi tão sexualizado como em outros projetos, também eles referências do cinema francês, o que permitiu que a mestria de Romy fosse digna de toda a atenção. Fala sem palavras, incorpora Rosalie como se a conhecesse melhor do que a palma da mão. Conseguimos facilmente confundir a personagem com uma pessoa real, valorizando, muito mais do que a questão amorosa, o potencial de cada relação, assim como a maturidade com que cada uma é encarada.

O excerto da carta presente na introdução reforça esse lado humano numa verdadeira mistura entre o lírico, solidificado pelo tom romântico – mas melancólico – de Schneider, e o realista, marcado pela generalidade, ou até mesmo superficialidade, do assunto. A carta é lida como se a poesia ganhasse cores e fosse transportada para o ecrã.

Aclamada pela crítica, a prestação de Montand é igualmente excecional, sendo ele a grande estrela de convívios como o casamento. Novamente, os seus antagonismos transformam-no numa personagem que gera tão depressa simpatia como desapego. É fácil deixarmo-nos levar pelos sentimentos negativos mediante a sua obsessão, que chega até ser violenta, manipuladora. Porém, Yves premiou César com tudo o que o ser humano representa, incluindo, como consequência, atos com o simples objetivo de ver as pessoas de quem mais ama felizes.

Ainda que o final seja alvo de discussão por desiludir alguns espectadores – muito provavelmente por não corresponder às expectativas criadas por outros filmes – não significa que este não seja um golpe genial, resumindo com uma simples cena a essência da narrativa. Toda a complexidade falada anteriormente ficou explicada por esse momento: Rosalie continuava presa estando livre, deixando-se levar pelas qualidades que um tinha em prol do outro. A decisão tomada só prova o impacto que o afeto sentido pelos dois tem na sua vida, obrigando-a a debater entre a esperança, a dúvida, as certezas, o instinto – sintomas naturais de um ser humano que se encontra na mesma posição. Só nos mostra que nem sempre quando estamos perante duas situações temos exatamente duas opções. Pode haver uma terceira, talvez uma quarta. Mas mesmo que não haja uma decisão de todo, o ato não deixa de ser uma escolha.