O realizador dinamarquês Bille August tem por hábito adaptar ao cinema obras literárias, muitas delas best-sellers. Em toda a sua obra, cerca de 15 filmes, “Pelle, o Conquistador” (1987), é ainda hoje a sua grande obra-prima. O cineasta adapta agora outro best-seller mundial, “Comboio Noturno para Lisboa” de Peter Bieri, sob o pseudónimo de Pascal Mercier.

A história começa em Berna, na Suíça, com o professor Raimund Gregorius (Jeremy Irons) a impedir que uma mulher se suicidasse. Inesperadamente a mulher misteriosa desaparece e deixa com o professor um casaco vermelho com o livro “Um Ourives das Palavras” de um médico, poeta e resistente português, Amadeu do Prado (Jack Huston). O professor, preso a uma vida simples e monótona, apanha o comboio para Lisboa em busca de respostas sobre quem era a mulher do casaco vermelho e assim, move o passado de Amadeu.

Tudo no filme é muito clássico e perfeito, demasiado diria eu. A narrativa é simples e recorre em demasia aos flashbacks, como se o espectador sentisse necessidade em saber tudo muito bem contado. Todo o filme fará apenas sentido se acreditarmos que alguém é capaz de largar toda a sua vida em apenas 10 minutos e partir numa viagem com destino a Lisboa, sem saber muito bem o que procurar. Ao viajarmos entre o Portugal de hoje e o Portugal do Estado Novo, ficamos presos no Portugal anterior a 74, pela riqueza das personagens e da história. Já o Portugal do presente não nos move em nada. Temos portanto duas histórias que se entrecruzam: a história de Raimund a percorrer as ruas de Lisboa, remexendo nas memórias dos amigos e familiares de Amadeu; e a história do próprio Amadeu, de luta e resistência e do trio amoroso entre ele, Jorge e Estefânia. A personagem de Jeremy Irons não tem grande profundidade, torna-se aliás desinteressante e muito secundária. Chega uma altura em que a história de Amadeu do Prado é a mais interessante e a que eu gostaria de ver contada num outro filme.

Quanto ao elenco, existem boas interpretações, principalmente da parte dos atores internacionais como Bruno Ganz, Jack Huston e Mélanie Laurent. O elenco português também merece especial atenção (como Beatriz Batarda), pena é que tenham sido usados apenas para papeis mais secundários. Não foi sensato.

A curiosidade neste mediano melodrama está no facto de ser uma co-produção europeia, onde a cidade de Lisboa aparece como protagonista. Não é todos os dias que temos o privilegio de vermos uma equipa de cinema internacional a trabalhar no nosso país e a usar uma cidade portuguesa como pano de fundo. Mas quanto á cidade, esta foi filmada como um postal turístico. Este foi um dos grandes erros do realizador que mostra claramente os mais belos espaços da cidade com um intuito promocional. Muitas vezes parece que a câmara se preocupa mais em ter um enquadramento bonito da cidade do que na ação das personagens. Esperava-se mais de alguém que fez uma obra tão magnifica e grandiosa como “Pelle”.

Realização: Bille August

Argumento: Greg Latter, Pascal Mercier

Elenco: Jeremy Irons, Christopher Lee, Mélanie Laurent, Jack Huston, Lena Olin, Charlotte Rampling, Tom Courtenay, August Diehl, Bruno Ganz, Martina Gedeck, Burghart Klaußner, Beatriz Batarda, Filipe Vargas

Alemanha/2013 – Drama

Sinopse: Um dia, um livro de Amadeu de Prado, um misterioso autor português, e um bilhete de comboio caem nas mãos de Raimund Gregorius, um discreto professor de latim que reside em Berna, na Suíça. O livro desencadeia um choque de cultura em Raimund, que decide deixar tudo para trás e apanha o comboio para Lisboa para descobrir mais sobre o autor, um aristocrata rebelde que esteve envolvido com as forças da resistência que levaram à revolução dos cravos. O livro coloca as mesmas perguntas que têm assombrado Raimund há anos: “Existe um segredo debaixo da superfície da actividade humana?”; “E se nós realmente apenas vivemos uma parte do que temos dentro de nós, o que é que acontece ao resto?”… À medida que desfia a vida de Amadeu de Prado, Gregorius revive a sua própria vida.

«Comboio Noturno para Lisboa» - Bille August desilude com postal lisboeta
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