De Olhos Bem Fechados” é um filme especial já no seu início, quando começa a tocar a suíte de Dmitri Shostakovich e surge um curto plano onde vemos Nicole Kidman (mais tarde introduzida como Alice) despindo-se. Mas é especial, antes de tudo, por toda a história que envolve a produção e rodagem do filme.

O filme começou a ser produzido no final da década de 90, fazendo já 10 anos desde que Stanley Kubrick lançara o seu último filme, “Nascidos Para Matar”, em ‘87. Para os papéis principais, Tom Cruise e Nicole Kidman foram os escolhidos para protagonizar o casal de protagonistas, sendo os próprios um dos casais mais influentes de Hollywood nessa altura. “De Olhos Bem Fechados” demorou mais de 15 meses a ser filmado (mais de 400 dias), adiando outros projectos das duas estrelas. É até ao momento um recorde de filmagens contínuas, algo que surpreenderia apenas quem não conhecesse o já famoso perfeccionismo de Kubrick e os relatos dos numerosos takes que levava a gravar as suas cenas.

Além da demora nas gravações, o filme foi todo gravado em Inglaterra, dado o medo de Kubrick de andar de avião, mesmo tendo em conta que o filme se passa em Nova Iorque, algo que obrigou a um esforço extra para “disfarçar” os ambientes exteriores. A pós-produção também se prolongou por um período demorado. Em Março de 1999, Kubrick mostrou a sua versão final do filme a Cruise, Kidman e à Warner Bros. Faleceu 6 dias depois durante o sono, com 70 anos de idade. A recepção do filme não foi tão boa como noutros filmes do realizador, em parte devido a desconfianças em relação ao estado de conclusão do mesmo. Ainda assim, com o passar do tempo (o verdadeiro juiz da qualidade) tem ganho o estatuto de culto, que mereceu inclusive uma restauração comemorativa dos 20 anos da obra, que percorreu Portugal nos últimos meses de 2019.

No filme, Alice (Nicole Kidman) e Bill (Tom Cruise) são um casal nova-iorquino e têm uma filha chamada Helena. Ele é médico, ela trabalha no ramo da arte. Numa das suas conversas sobre relacionamentos, após Bill declarar que nunca sentiu ciúmes de Alice por acreditar que a natureza das mulheres não as leva à infidelidade, a esposa confessa que considerou e fantasiou em deixar o marido e a filha por causa um oficial da marinha, durante umas férias em família. Essa revelação causa um enorme choque em Bill, e fá-lo deambular pelas ruas de Nova Iorque.

Os encontros que Bill vai tendo são acompanhados pelas constantes visões que tem da sua mulher com o oficial. Ao longo da noite, cruza-se com várias pessoas, muitas delas de forma inesperada. Num dos encontros, um amigo de longa data revela-lhe a existência de uma festa de uma sociedade secreta juntamente com a palavra passe. Após passar por uma loja de disfarces (visto que a festa requer que os convidados levem uma máscara e um disfarce), chega por fim à mansão onde é realizada a festa. Até então, todas as aventuras com que Bill se depara são cercadas de uma aura fantasiosa, como que saídas de um sonho, por vezes tão inacreditáveis, que a própria dúvida de serem reais ou não deixa de ser relevante.

Após chegar a casa, depois de uma atribulada infiltração na festa secreta, Bill encontra a mulher a ter um pesadelo. Esta, depois de acordar sobressaltada, conta que estava a sonhar que o traía com o tal oficial da marinha. Ambos tiveram as suas aventuras, com maior ou menor grau de realidade. Mas, como diz Bill perto do final do filme, “nenhum sonho é apenas um sonho”. 

No dia seguinte à jornada nocturna de Bill, este repete todos os encontros que teve na noite anterior. A aura sonhadora da noite anterior não está mais presente, como se a noite passada não tivesse acontecido (ou pelo menos não exactamente como foi apresentado). No final, não só Bill como o espectador têm dúvidas sobre tudo o que aconteceu. Independentemente disso, Alice revela a solução para todos os problemas bem no final do filme e com apenas uma palavra, ironicamente a última de toda a filmografia de um dos maiores realizadores americanos de sempre.

Para a criação das diferentes auras, em muito contribuiu a vertente mais estética do filme. O uso da luz e da cor é algo que ajuda a criar o ambiente certo, ajudado pela época natalícia em que o filme decorre e que justifica o uso e abuso de luzes artificiais. “De Olhos Bem Fechados” é um dos filmes visualmente mais belos já criados, algo de valorizar sobretudo vindo de alguém que realizou “Barry Lyndon”. É um filme sobre relacionamentos para ser experienciado em várias alturas da vida. Em etapas diferentes, trará interpretações e repostas diferentes.

Stanley Kubrick é particularmente conhecido por criar finais para os seus filmes que alteram a percepção de tudo o que já foi visto até então. Em “De Olhos Bem Fechados” pode ser o início, à partida inofensivo, que ganha um significado novo quando o filme termina. Não tivesse Kubrick dado já provas da sua famosa atenção ao detalhe, poder-se-ia até pensar que a cena não é mais que mais um artifício estético, sem grande significado oculto. Mas coloque-se a pergunta: na cena introdutória, em que quarto está Alice?

«De Olhos Bem Fechados» – 20 anos de mistérios
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