Baseado no romance homónimo de José Cardoro Pires, “O Delfim” chega à tela de cinema em 2002, através do realizador Fernando Lopes e com argumento de Vasco Pulido Valente.

Sobre um fundo preto irrompe um subtil e tranquilo timbre de voz masculino, acompanhado de seguida por um longo travelling que percorre aquilo que aparentemente é a tão conhecida Lagoa da Gafeira. Esta contextualização espacial, ainda que fictícia, faz recordar um documentário de vida selvagem, transportando o espectador de forma quase instantânea para esse habitat sereno, onde se ouvem sons de água, vento e patos. É ainda neste momento introdutório que é mencionado o nome da família Palma Bravo, proprietária desse local.

A história passa-se nos anos 60, e retrata um meio rural, onde Tomás Palma Bravo assume a sua autoridade e supremacia enquanto dono dos terrenos e da Lagoa de Gafeira, dono da sua mulher, dono do seu criado e dono do seu cão.

Este é um personagem-tipo, que embora se enquadre perfeitamente na mentalidade retrógrada da época, não está completamente desatualizado da realidade circundante em que vivemos atualmente.
Deste ponto de vista,“O Delfim” apresenta uma certa intemporalidade peculiar. Esquecendo os diálogos matrimoniais com o típico distanciamento e suposto respeito que implicavam o uso do pronome “você”, ainda nos dias de hoje podemos encontrar com regularidade uma réplica desta história no Correio da Manhã, com uma estrutura base igual – o ciúme – e algumas modificações de caso para caso.

Homens como o engenheiro Palma Bravo é o que não falta no território português, e de um modo geral, no mundo. Este fidalgo apresenta um caráter onde a superioridade, a dominância, a insensibilidade, a impulsividade e a constante demonstração de riqueza e abastamento são reforçados a cada instante pelas suas palavras e ações. Contudo, a sua composição psicológica não se reduz apenas a uma postura altiva e imponente, também nos é dado a conhecer um lado mais frágil deste homem, que descarrega tudo nos outros devido à amargura e insatisfação que sente consigo próprio.

Este filme não é apenas um drama romântico-trágico, mas sim um retrato de uma sociedade oprimida de várias maneiras. Em termos sociais, devido à hierarquização da população: os mais pobres têm de ter cuidado com o que dizem sobre os mais ricos. Em termos raciais, a personagem do Domingos, um criado preto maneta, demonstra uma clara subjugação da comunidade negra perante o homem rico branco. E em termos de género, temos a mulher de Palma Bravo, Maria de Mercês (Alexandra Lencastre), como exemplo evidente da injustiça e desigualdade de direitos aos quais as mulheres são sujeitas.

Este último caso é o motor de toda a narrativa. Maria de Mercês é apresentada como uma mulher carente, solitária e deprimida. Esta vive os dias enclausurada em casa, obrigada pelo marido a manter-se isolada do mundo, resultando numa existência oca, onde por vezes já nem reconhece a sua própria voz. Ela tenta a todo o custo despertar a atenção do marido, mas a postura machista, desinteressada e fria do mesmo leva-o a ignorar os recorrentes apelos de Mercês, acabando por satisfazer a sua virilidade grosseira em bordéis de Lisboa.

Ao longo do filme existem pelo menos dois grandes flashbacks, que constituem a teia principal de eventos que explicam o desfecho trágico da narrativa. Porém, é de ressalvar dois momentos intrigantes, que remontam ao presente, e que nada parecem acrescentar ao desenlace da história, a não ser que transportem consigo uma simbologia escondida. Estes momentos remetem para o aparecimento de uma mulher, de cabelos ruivos, que numa primeira instância traz consigo dois cães e é capturada por um plano subjetivo da visão do narrador a partir do quarto da pensão em que ficou instalado. Numa segunda instância, esta mulher é novamente captada enquanto um cão preto perneta lhe lambe a mão. Seria isto uma espécie de reencarnação de Domingues na pele de um cão? A questão fica em aberto, mas o facto desta mulher não ter qualquer tipo de interferência no decurso da ação cria a sensação de que ela está deslocada desta narrativa, e que esses dois eventos poderiam muito bem ter sido eliminados.

É também de salientar a fotografia, que permite absorver uma simples beleza bucólica, em particular na cena em que Maria de Mercês e Palma Bravo estão na lagoa a conversar num barco de madeira. A adição do véu vermelho de Mercês com a composição pictórica do plano funcionam muito bem, resultando numa harmonia visual significativa.

As referências à animalidade intrínseca do ser humano estão iminentemente presentes através de símbolos como os patos reais e os cães , que apesar de muitas das vezes serem captados pela câmara enquanto seres dominados pela alteridade do Homem, no final do filme são retratados como seres livres, finalmente em paz, refletindo, de certo modo, o propósito da morte de Maria, que agora, morta, se libertou das amarras do marido.

RealizaçãoFernando Lopes
Argumento: Fernando Lopes, José Cardoso Pires, Vasco Pulido Valente
ElencoRogério SamoraAlexandra LencastreRui Morisson
Portugal/2002 – Drama
Sinopse
: A Lagoa, as neblinas e os seus patos reais, dominam a fantasmática Gafeira, pertença de Tomás Palma Bravo. Portugal 1968. O Ditador agoniza. A Lagoa apodrece. A guerra colonial faz chegar ao Largo da Gafeira os seus mutilados. Armstrong chega à Lua. Tomás Palma Bravo, o Delfim, o Infante, é o herdeiro de um mundo em decomposição. É ele o dono da Lagoa, da Gafeira, de Maria das Mercês, sua mulher infecunda, de Domingos, seu criado preto e maneta, de dois mastins e de um “Jaguar E”, que o leva da Gafeira a Lisboa e às putas. Um caçador, detective e narrador, que todos os anos volta à Lagoa para caçar patos reais, descobre, um ano depois, que Domingos apareceu morto na cama do casal Palma Bravo e que Maria das Mercês apareceu a boiar na Lagoa. Quanto a Tomás Palma Bravo e aos seus dois mastins, dizem-lhe que desapareceram sem deixar rasto. E que da neblina da Lagoa se ouvem agora misteriosos latidos. O caçador detective vai ouvir as várias versões: a dona da Pensão; o Regedor (que herdará a Lagoa); o cauteleiro (que faz circular as notícias); o Padre (que ouviu Maria das Mercês em confissão).

«O Delfim» - O magnata arrogante que perdura nos dias de hoje
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