Dilúvio – Depois da tempestade… Vem a bonança?

No passado dia 6 de abril o Fantasporto exibiu as curtas-metragens da Secção Oficial Prémio do Cinema Português. Das várias obras seleccionadas nesta secção do festival, decidi escrever sobre Dilúvio, realizada por Eduardo Cruz. É a história de uma família pobre, que vive isolada, pelo menos dos meios urbanos. Há uma tempestade que teima em não dar tréguas, o que arruína o meio de sustento da família, a agricultura.

Sob um olhar à superfície, é apresentado um drama familiar, com voltas e reviravoltas, culminando num desenlace expectável, mas ao mesmo tempo que surpreende. Corro o risco de soar paradoxal, mas foi a sensação com que fiquei no final do visionamento do filme. Não pretendo estragar o enredo para quem não teve a oportunidade de ver, por isso, estas linhas misteriosas terão de servir para aguçar o interesse – aliás, o mistério é um dos temas de Dilúvio, e assim acabo por ir ao encontro daquilo que o filme reproduz.

Contudo, se tentarmos aprofundar mais um pouco sobre aquilo que é tratado na obra, podemos ver que existem vários temas e ideias a explorar: o isolamento, mesmo quando acompanhado – tanto Israel (Fábio Alves) como Eva (Teresa Vieira), apesar de casados, parecem viver numa dissociação quase completa. A única coisa que os mantém ligados é o filho, Moisés (César Silva). A única pessoa que parece existir nesta localidade é o prestável vizinho André (Filipe Amorim), mas mesmo ele se encontra isolado dos demais, apesar das suas tentativas em se aproximar desta família.

O próprio título sugere conotações bíblicas, tal como os nomes das personagens. A religião e a fé aparecem ao longo de toda a obra. As personagens fazem constantes menções a Deus, à esperança, à fé no que Ele tem planeado. Esta capacidade de acreditar, neste caso no Divino, é outra temática explorada: até onde estamos dispostos a ir? Quanto podemos aguentar, em nome da fé? Quando é que o sofrimento é de tal ordem grande que perdemos a esperança, e a espera passa à ação (seja ela boa ou má)?

Em termos técnicos, tanto a fotografia como o som merecem destaque. A iluminação, que por vezes se assemelha aos tons das pinturas renascentistas do chiaroscuro funciona bem, em especial se tivermos em conta o carácter fantástico do filme – porque, apesar de não o considerar propriamente como terror, tem um certo elemento de fantástico, místico até. O trabalho de som também é bem conseguido, os motifs musicais são interessantes, mas o que mais me agradou foram os sons da água, que me deram a impressão de surgir, de algum modo, misturados com o resto da banda sonora, o que foi um toque agradável.

Dilúvio recebeu a menção honrosa do Fantasporto 2022, na categoria de Prémio do Cinema Português. Creio que é seguro esperar a presença da curta em mais festivais. Para quem não teve oportunidade de ver a estreia no Teatro Rivoli, talvez em breve surja uma boa ocasião para verem esta obra e apoiar quem faz cinema em português.

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