«Django Libertado» – ‘I like the way you die, boy’

Em 2010, a quando da estreia de “Sacanas Sem Lei”, escrevi o seguinte sobre o filme, “As luzes apagam-se e o filme começa com uma música muito bela e triunfal, ao estilo de um spaghetti. Letras enormes do elenco aparecem num fundo preto. Os primeiros 20 minutos de filme são magistrais. O início do filme é deveras triunfal. Fez-me lembrar por momentos alguns filmes de Sergio Leone, ‘Era Uma Vez no Oeste’ e ‘O Bom, O Mau e O Vilão’.”. Na altura fiquei com uma enorme vontade de ver um western pelas mãos de Tarantino. De facto, este filme antecipava que Quentin Tarantino queria fazer um spaghetti. Mas essa sua vontade já vem desde muito cedo, ou não fossem os westerns spaghettis e os filmes artes marciais as suas grandes influências. Quase toda a sua obra tem características do género western e este filme é o resultado final um sonho que ele acalentava à muito. Se calhar não o fez mais cedo porque quis ganhar confiança para o fazer. Se calhar quis ganhar experiência para enfrentar um desafio desta magnitude, pois sabe que fazer um western não é assim tão fácil como parece. Certo é que este é o seu cinema! “Django Libertado” é o cinema de Tarantino e talvez o seu melhor filme de sempre.

“Django Libertado” inspira-se num filme de culto de 1966, “Django”, do realizador italiano Sergio Corbucci, que conta a história de um anti-herói que procura vingar-se num Major, pelo assassinato da sua mulher. Tarantino altera um pouco a narrativa, diria até bastante, mas usando a mesma temática, explorando bastante a escravatura e o racismo (um tema recorrente pelo cinema americano, que em tom ‘moralista’ tenta se reconciliar com o seu passado). O racismo acaba por ser o grande tema aqui tratado, em modo satírico, que curiosamente também será bulido em “Lincoln” (a estrear a 31 de janeiro). Mas conta-nos esta história em tom de comédia negra e com o seu inconfundível estilo. O realizador acaba por reinventar o próprio género, incorporando, entre muitas outras coisas, aquilo que normalmente os westerns não tem em abundância, os diálogos! É curioso, pois os filmes do Tarantino são conhecidos pelos sublimes e inesquecíveis diálogos que ele explora, e ver isso neste western violento parece tão natural. O filme tem aliás um excelente argumento, com diálogos geniais e cenas hilariantes. Mas que se desengane o espectador que acha que isto é uma comédia do principio ao fim! Também o é, mas o realizador faz as devidas pausas para pensarmos nas personagens, ficarmos sérios e nos chocarmos com a violência (característica comum na sua obra).

Ao contrário do que é comum num western spaghetti, neste filme o grande plano não é muito utilizado, ficando remetido, tal como o zoom, para situações muito específicas. Sente-se também a ausência de cenários muito poeirentos, sujos e lamacentos. A banda sonora continua a ser um elemento chave nos seus filmes (apesar de ser tudo músicas já de outros filmes antigos) e a fotografia, de Robert Richardson, é soberba, assim como o trabalho de som. Quanto às interpretações, Christoph Waltz merece uma vênia (e o Óscar por favor!) e Leonardo DiCaprio obtém também uma performance estupenda.

O filme falha apenas, a meu ver, com o uso dos flashbacks (que não acrescentam nada à história) e os últimos quinze minutos que se tornam demasiado forçados (falo da cena em que o realizador entra como ator). O filme teria terminado muito bem com a cena da orgia de balas (balas essas que pareciam bolas de canhão,  provocando destruição e caos) e de sangue na casa de Calvin Candie.

Com este filme Tarantino presta homenagem, com muito estilo, aos grandes mestres Morricone, Leone, Corbucci e a Peckinpah. Sei que o ano vai ainda no inicio, mas “Django Libertado” é já um dos melhores filmes do ano e um marco para o género Western.

Realização: Quentin Tarantino

Argumento: Quentin Tarantino

Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio

EUA/2012 – Western

Sinopse: Passado no sul dos Estados Unidos dois anos antes da Guerra Civil, Django Unchained conta a história de Django, um escravo com vendido a um caçador de recompensas alemão para ajudar na captura dos irmãos assassinos Brittle. O seu sucesso leva Schultz a libertar Django, mas os dois homens decidem permanecer juntos. Assim, Schultz persegue os criminosos mais procurados do Sul com Django a seu lado. Apesar de aperfeiçoar as suas capacidades de caça, Django mantém-se focado num objectivo: encontrar e resgatar Broomhilda, a sua mulher que perdeu no comércio de escravos há muitos anos atrás. A procura de Schultz e Django leva-os até Calvin Candie, o proprietário de “Candyland”, uma plantação infame onde os escravos são preparados pelo treinador Ace Woody a lutarem entre si por desporto. Ao explorar a plantação sob um falso pretexto Django e Schultz despertam a atenção de Stephen, um escravo da confiança de Candie. Os seus movimentos são seguidos e uma organização traiçoeira acaba por os cercar. Django e Schultz, ao tentarem escapar com Broomhilda, terão que escolher entre a independência e a solidariedade, entre o sacrifício e a sobrevivência…

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