Na Península Balcânica, situa-se um jovem Estado, auto-proclamado no ano em o continente europeu se via a braços com a mais recente e grave crise financeira. Tal não impediu o Kosovo de crescer economicamente, passar a integrar as mais importantes instituições financeiras internacionais e ter o apoio e reconhecimento internacional de mais de 100 países das Nações Unidas nos últimos dez anos.

Mas o que faz de um Estado um Estado? Como se constrói e afirma uma identidade? Como se reorganiza uma sociedade marcada por décadas de ocupação e guerra? Que ferramentas usa um povo em pleno século XXI para se erguer e sustentar no coração da Europa? A resposta está, em grande medida, na forma como uma pequena comunidade de cinéfilos resolveu dar início a uma aventura chamada DokuFest há 17 anos na segunda cidade do país, Prizren.

Localizada a sudoeste entre as montanhas que separam o Kosovo da Albânia, da Macedónia e a capital Pristina, Prizren festeja o cinema em agosto. Nesta época, para além do público do festival, a cidade enche-se de veraneantes e emigrantes de regresso à terra natal, a remeter-nos para a realidade portuguesa. Mas os vestígios da ocupação otomana, as mesquitas, igrejas ortodoxas e a peculiar língua albanesa (que cruza na sua origem latim, grego, cirílico e é maioritária no Kosovo – mais de 90% da população é constituída por kosovares albaneses) lembram-nos que estamos numa região muito particular da Europa: entre o centro e o sul, num nervo central do cruzamento de impérios e domínios culturais, religiosos e políticos.

E em Prizren combate-se o preconceito, a discriminação e a xenofobia; exploram-se as memórias de guerra, as marcas de ocupação, as diferenças culturais e religiosas, e comungam-se em filmes ideias de reencontro e entendimento, de estranhamento e aceitação das realidades individuais e coletivas, próprias ou alheias.

A equipa do DokuFest – Festival Internacional de Documentário e Curtas-Metragens do Kosovo acredita que o cinema pode ser o pilar de várias pontes que tecem as mudanças sociais, pela forma como podem transformar cada indivíduo. E na população é notório o orgulho num dos mais importantes eventos culturais a projetar internacionalmente o Kosovo e que todos os anos o inunda de visitantes. Na edição de 2018, o festival reuniu cerca de 50 países através de 259 filmes.

Nas noites quentes de verão assiste-se a sessões ao ar livre nos mais inesperados, acolhedores e refrescantes locais da cidade, alguns transformados temporariamente em espaços de projeção, outros salas de cinema históricas, símbolos de resistência e comprometimento da comunidade com a defesa de espaços culturais históricos e identitários. Um exército de voluntários dedicados acolhe e orienta o público durante os dez dias de duração do festival pelas várias salas de cinema e espaços improvisados no coração da bela Prizren, atravessada pelo rio Bistrica e pelas várias pontes pedonais que casam as duas margens e formam o centro histórico da cidade.

É, pois, num clima festivo que o público do festival é recebido, com as dezenas de bares e restaurantes que preenchem as ruas do centro a fervilhar e a dar guarida aos espaços entre sessões, enquanto se planeia o dia, se descansa o olhar ou se partilham e discutem opiniões sobre o que vai sendo visionado.

Com seis secções em competição que revelam desde logo as preocupações e motivações da direção do festival (Nacional, Balkan Dox, International Dox, International Short,Green Dox e Human Rights Dox), os grandes temas sociais e políticos da atualidade estão na base de todo o programa: dos direitos humanos ao ambiente, passando pelas questões de género, migrações e disseminação dos nacionalismos numa destabilização crescente dos alicerces das democracias contemporâneas.

A presença do cinema do Kosovo e dos restantes países vizinhos dos Balcãs é central, tendo a secção Balcan Dox premiado Distant Constellation”, a primeira longa de Shevaun Mizrahi, uma americana de ascendência turca que mergulhou nas memórias intensas (de guerra, ocupação, sobrevivência) de um grupo de idosos que reside num lar da Turquia.

Mas o mundo está, de facto, representado no DokuFest com a diversidade de linguagens dos documentários e curtas produzidos atualmente espelhada no programa, que vão desde o México a Taiwan, passando por Israel, Síria ou Portugal, que contou com uma secção especial nesta edição de 2018 (Ficções do Real no Cinema Português, pela mão da equipa do Porto/Post/Doc, que devolve a atenção com uma secção especial dedicada ao Kosovo na sua edição deste ano).

Outras secções igualmente fora de competição como Sonic Reflections: Music on Film, Silver Reflections: Film on Film, Materials, Structures, Forms: Experimental Films Made by Women ou Birth of a Nation: Focus on Taiwan exploram vertentes do cinema documental atual entre a metalinguagem e a descoberta de cinematografias mais discretas.

Um dos grandes vencedores do festival (na secção International Dox) foi Meteorlar” (2017), do turco Gürcan Keltek, filme que tem vindo a fazer uma carreira assinalável no circuito dos festivais desde o ano passado, tendo sido premiado em Locarno, Milão e Roterdão, entre outros (incluindo a edição de 2017 do Porto/Post/Doc). Um poema a preto e branco sobre as dimensões do medo, a animalidade, a guerra entre iguais e a diluição do íntimo no universal.

Um destaque final para a secção I’ll be your Mirror, que deu o mote a esta edição de 2018, e nos trouxe clássicos comoPersona”, de Ingmar Bergman, ou “O Espelho, de Andrei Tarkovsky, a lembrar que os grandes do cinema já nos colocaram repetidas vezes frente ao espelho e nos fizeram olhar, pensar e ser o outro, no limite da empatia, provavelmente uma das faculdades humanas mais fragilizadas nos dias de hoje.

Para além das conversas e masterclasses com realizadores, o programa paralelo de exposições, concertos e conferências é também ele voltado às questões sociais e políticas que se colocam a uma sociedade em transformação, tais como a defesa do direito das mulheres à propriedade, a justiça como meio de combate ao estigma ou o repensar das narrativas que construíram a memória dos anos 1990 na região.

E aqui sentimos de forma mais concreta a presença da equipa das Nações Unidas no território do Kosovo (UNKT) no enquadramento do festival: não sendo já tão visível a circulação de tropas nas ruas de Prizren (embora saibamos da sua maior concentração a norte do país, na fronteira com a Sérvia), é claro o apadrinhamento do festival por aquela instituição internacional.

É num ambiente carismático, descontraído e acolhedor que se circula entre salas e sessões pelas ruas de Prizren, até aos concertos e festas de fim de noite nas já famosas DokuNights. Pensando a condição humana e as formas de reconciliação e aproximação entre gerações e povos, é neste espírito de comunidade que o festival procura tocar cada indivíduo, oferecendo olhares do passado e do presente para construir um futuro partilhado. E se o futuro pode ser isto, queremos estar presentes.