“El Pepe, Una Vida Suprema”, o novo filme de Emir Kusturica, teve a sua estreia nacional na 12.ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival, inserido no ciclo temático “Neoliberalismo – A semente do Populismo e dos Novos Fascismos?”

Não é a primeira vez que Emir Kusturica retrata uma história verídica a apontar a câmara para a América do Sul. O autor do previsível mas bem-humorado Maradona by Kusturica, pisca o olho ao antigo presidente do Uruguai, José Mujica, passados dez anos do seu primeiro documentário.

Mais conhecido como Pepe, José Mujica mostra-se bastante à vontade com as câmaras. O diálogo começa na sua quinta, sentados num banco, como que dois amigos que olham o que o destino lhes traçou, numa solidão de um mundo alheio. El Pepe, hoje com 83 anos, é um antigo guerrilheiro de esquerda da América Latina que se tornou Presidente do Uruguai mantendo as suas origens humildes até aos dias de hoje. Ativista e precursor da mudança conta, como a vida o ensinou a ter um propósito altruísta para toda a comunidade do seu país, refugiando-se na sua vida simples e longe dos luxos preconizados por outras individualidades políticas. José Mujica iniciou a sua vida política no Partido Nacional em finais dos anos 50, passando mais tarde para o Movimento de Libertação Nacional, onde assumiu protagonismo. Foi nesta altura, finais de anos 60, em que o país também atravessava uma violência conturbada, que o mesmo sofreu vários danos físicos e o tornaram preso político refém da ditadura militar. Após a abertura de uma nova democracia, foi libertado e prosseguiu com a sua carreira política, passando por cargos como senador, ministro da agricultura até chegar a presidente do Uruguai em 2010.

Kusturica através de sorrisos, silêncios e olhares consegue contar uma belíssima história que contempla toda a simplicidade que sempre acompanhou a vida de El Pepe. Passando por vários períodos da vida deste militante (desde a altura de preso político até ao final dos seus dias de mandato como Presidente do Uruguai), entra-se pela história de um político que jamais imaginaríamos que existia e existe de tal forma conseguida.

Kusturica faz as perguntas numa conversa descontraída em que fala da vida, do que nos move e do que nos arrependemos. O realizador consegue captar a singularidade de El Pepe e apesar das várias imagens de época que destacam as lutas em que o político se envolveu (cerca de 14 anos preso político em que metade foram passados na solitária)as entrevistas aos seus camaradas e à sua companheira de vida, o filme consegue contar como a vida pode transcender o poder soberano.

O relato que Kusturica tenta passar não é o de apenas uma lenda real sobre um estadista filantropo, é a vivência do começo e a continuação de atitude de um homem político no seu sentido democrático que perjura num país abalado pela pobreza e o crescente desemprego. Um retrato social que não é indiferente ao espectador mas que balança com a descomplicação pessoal quotidiana de El Pepe, florista nas horas vagas, para além de agricultor como profissão. Este mesmo ainda conduz o seu Volkswagen Carocha Azul de 1987 retratado no filme como um dos símbolos de que se recusa desfazer.

O ex-presidente mais pobre do mundo continua a liderar fora do palco e foi isso mesmo que Kusturica quis mostrar, o simples conto de “El Pepe”.